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14/04/2009

Pirataria é a única indústria que funciona na Somália

El País
Ramón Lobo Em Madri
Em 2008 foram pagos € 75 milhões em resgates e este ano já se chegou a € 38 milhões. Dezesseis barcos e 260 pessoas continuam em poder dos piratas

Em um mundo em crise, ser pirata na Somália é um negócio rentável, o único que funciona em um país destruído pelas guerras: € 75 milhões de lucro em 2008, com 40 barcos sequestrados. Este ano, com uma frota de destróieres, fragatas e lanchas-patrulhas dos EUA, Rússia, Índia e União Europeia - a Espanha assumiu o comando da força aeronaval europeia - mobilizada nas águas do oceano Índico sob o mandato do Conselho de Segurança da ONU, o número de incidentes se multiplicou: em três meses e meio ocorreram 60 ataques.
  • AFP

    Foto divulgada pela marinha francesa mostra piratas somalis e reféns no barco Tanit em 4 de abril



Os piratas mantêm sequestradas 260 pessoas e 16 barcos retidos, seis dos quais foram capturados na última semana (um liberado na sexta-feira por comandos franceses). Calcula-se que o lucro em resgates seja de € 38 milhões em 2009.

"É uma tragédia que as coisas tenham chegado a esse ponto", afirma à agência Reuters Mohamed Abdullahi Omaar, ministro das Relações Exteriores do novo governo provisório da Somália, formado por islâmicos moderados. "Também demonstra de forma categórica que o assunto da pirataria deve ser tratado e resolvido em terra. Nossa prioridade é restabelecer o estado de direito."

Omaar pertence à décima quinta tentativa de formar algum tipo de governo que ponha fim ao caos que reina desde 1991, quando o Estado se esfumou com a derrubada de Siad Barre e foi substituído por bandos criminosos, com frequência drogados com khat e divididos em um labirinto crescente de clãs, subclãs e sub-subclãs impossível de se acompanhar e compreender.

O novo presidente provisório, eleito em fevereiro por um Parlamento não menos provisório, e dessa vez com o apoio dos EUA, Sharif Ahmed, é a grande esperança de evitar que o país caia nas mãos da milícia Al Shabab (juventude), braço armado do setor radical da antiga União de Cortes Islâmicas, ligada à Al Qaeda e que controla o sul e a metade da capital, Mogadíscio.

Sharif Ahmed é o líder do setor moderado daquelas Cortes depostas em dezembro de 2006 pela Etiópia e os EUA, que então não souberam explorar as diferenças internas e expulsaram todos, moderados e radicais, do poder em Mogadíscio. Era o tempo de George W. Bush, pouco propício aos matizes. O problema de Sharif Ahmed é que controla apenas o norte da capital e o centro da Somália.

Os piratas não são o problema, mas a consequência do caos e da pobreza, denuncia a ONG Médicos Sem Fronteiras, que mantém equipes locais no país. Vinte e cinco por cento dos somalis dependem de uma ajuda humanitária cada vez mais perigosa de distribuir. Três milhões de seus 8 milhões de habitantes (não há censo) estão desalojados. Escasseia a água potável, a luz elétrica vem de geradores a diesel, quase não há professores e não funciona o sistema de saúde, que carece de tudo. Na Somália só funcionam as armas, os telefones celulares e por satélites e os navegadores GPS, as ferramentas indispensáveis para a pirataria.

A rota do mar Vermelho, que liga o Índico ao Mediterrâneo, é de grande importância econômica: cerca de 30 mil barcos sulcam suas águas por ano. Os ataques piratas não se limitam aos 2.896 km de costa e são cada vez mais ousados: o cargueiro Maersk Alabama foi assaltado a mais de 400 km da costa. Contra destróieres de US$ 800 milhões como o americano Bainbridge, os piratas se deslocam em barcos dos quais partem as lanchas com meia dúzia de homens armados com lança-granadas.

A comunidade internacional decidiu enfrentá-los com navios de guerra. Por enquanto não há planos para lutar contra o caos político que a alimenta, que até o aparecimento dos piratas produziu um benefício menor: os barcos utilizados para assaltar navios eram de pescadores que não têm o que pescar em águas cheias de modernas frotas de pesca estrangeiras que não tiveram de pagar um dólar em direitos de pesca a um governo inexistente.

O ministro Omaar insiste que a única solução é fortalecer a autoridade central. "Falamos de uma superfície marinha de um milhão de quilômetros quadrados", duas vezes o tamanho da Espanha. "Com os barcos mobilizados e assim por diante impossível solucionar o problema", acrescenta. Mas devolver o Estado de direito à Somália, com serviços básicos, economia real e ordem exigiria um investimento que ninguém parece disposto a assumir. Preferem pagar os resgates e a escolta de navios mercantis e superpetroleiros a investir na luta contra a miséria, que é a mãe de todos os males.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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