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15/04/2009

Hospital de L'Aquila não tinha autorização para funcionar

El País
Miguel Mora Em Roma (Itália)
O terremoto de L'Aquila trouxe à luz mais uma vez o melhor e o pior da Itália. A solidariedade e o trabalho de milhares de voluntários tornaram possível atender e realojar 55 mil desabrigados e 1.500 feridos. Do outro lado, o descaso, a ilegalidade e a falta de controle revelados pela queda de muitos edifícios modernos em uma área de extremo perigo sísmico começam a causar escândalo. Segundo se soube na terça-feira, o hospital de San Salvatore, a obra pública mais importante construída na região de Abruzzo em várias décadas, não tinha sequer autorização de funcionamento. O centro de saúde era totalmente ilegal: não existia para o Estado, não tinha sido registrado no cadastro e não possuía licença de habitabilidade, que deveria garantir suas condições de higiene e segurança.

O estupor aumenta quando se pensa que a empresa que construiu o hospital fantasma é a sociedade lombarda Impregilo, a maior construtora italiana, uma multinacional poderosíssima que tem obras na África, Europa, Oriente Médio e América Latina.

No ano passado a Impregilo faturou 2,958 bilhões de euros e ganhou 168 milhões, e neste momento constroi na Itália os metrôs de Gênova e Nápoles, as linhas do trem de alta velocidade Milão-Turim e Bolonha-Florença (nesta cidade acaba de ser condenada por danos ambientais gravíssimos) e a autopista Salerno-Reggio Calabria.

No estrangeiro, a empresa da família Romiti está construindo o metrô de Atenas, o exterior do túnel ferroviário de San Gottardo na Suíça, duas linhas ferroviárias na Venezuela, diques na Islândia e no Equador. E nesta terça-feira ganhou a licitação para a ponte do estreito de Medina, que custará 3,88 bilhões de euros e será assentada certamente sobre uma falha geológica.

Em sua história centenária, a Impregilo acumula diversos julgamentos e acusações de corrupção e atentados à saúde e ao meio ambiente. Sua direção é acusada de estelionato no escândalo do lixo de Nápoles, onde também se investiga o governador Antonio Bassolino e o atual secretário de Estado e chefe da Defesa Civil, Guido Bertolaso, comissário especial para a emergência lixo com Prodi e Berlusconi. O escândalo dos resíduos, que já dura 15 anos, começou a ser solucionado com o incinerador de Acerra, que deveria ter sido inaugurado em 2003 mas só foi concluído há dois meses. Também foi construído pela Impregilo.

A empresa com sede em Sesto San Giovanni (Milão) não é a primeira candidata a construir as centrais nucleares que o novo Executivo italiano promoveu com a colaboração francesa. Mas, segundo se lê em seu site na web, uma de suas grandes especialidades são exatamente os hospitais. Ela os constroi em meio mundo, da Inglaterra à Argélia, passando por Arábia Saudita, Argentina, Grécia, Equador, Nigéria e Camarões. Diz o site: "A construção hospitalar é há tempo uma vocação da Impregilo, que há 30 anos é capaz de entregar hospitais 'chave na mão'".

  • Arte UOL

    Epicentro do terremoto que matou dezenas na Itália

A empresa se encarregou do hospital de San Salvatore em 1991 e o entregou em 2000. O centro havia sido começado em 1972, mas as duas empresas que se encarregaram dos primeiros passos faliram sucessivamente, até que um grupo comandado pela Cogefar Impresit (hoje Impregilo) retomou as obras. Uma investigação parlamentar revelou em 1997 "a irracionalidade e obsolescência da plataforma construtiva e a baixa qualidade dos materiais empregados" no hospital, que apesar de tudo abriu três anos depois com grande pompa. No dia do terremoto, 30% de San Salvatore desmoronaram, suas partes mais antigas. Em minutos, uma obra que havia demorado 28 anos para se realizar ficou inutilizada em 90% e foi evacuada enquanto as ambulâncias tentavam depositar ali centenas de feridos.

A Impregilo nega qualquer responsabilidade no desastre: "Não fizemos nada estrutural no hospital de L'Aquila", indica a empresa. E acrescenta: "Ganhamos a licitação quando a estrutura já tinha sido construída. Nossa intervenção, com diversas interrupções, durou até 2002 e consistiu em fazer instalações subsidiárias: pisos, banheiros, instalações elétricas e mecânicas, obras de modernização". A nota não esclarece as dúvidas fundamentais: Como entregou uma estrutura sem certificá-la nem registrá-la? Por que custou cerca de 200 milhões de euros e quase 30 anos de obras, enquanto o moderno hospital cirúrgico que a Impregilo construiu em Cartum, no Sudão, custou 12 milhões e três anos? Alfredo Rossini, promotor chefe de L'Aquila, afirma que se fará justiça. "Concentrarei-me nos edifícios modernos que deveriam ser construídos com materiais antiterremotos e que na teoria deveriam ter aguentado. E começarei pelo hospital". Segundo a promotoria, nos últimos meses San Salvatore fez obras de manutenção no valor de 16 milhões de euros sem concurso, "alegando a urgência de dotar a estrutura de segurança". Ironicamente, a antiga sede de San Salvatore, construída entre os séculos 18 e 19, aguentou inteira o terremoto. Sem dúvida eram outros tempos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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