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16/04/2009

Presidente da Rússia busca se afastar da sombra de Putin

El País
Pilar Bonet Em Moscou
O presidente da Rússia, Dimitri Medvedev, se esforça para melhorar sua imagem de democrata e liberal, e com isso já marca uma diferença, pelo menos de estilo, de seu antecessor, Vladimir Putin. O contraste ficou patente na quarta-feira (15) em uma reunião - a primeira do gênero desde que ele chegou ao poder - que o presidente manteve com o conselho de defensores de direitos humanos e representantes de organizações não-governamentais.

Diante desses representantes da sociedade civil, muitos deles críticos severos da política do Kremlin, Medvedev afirmou que "a corrupção impregna todo o aparelho estatal de cima a baixo e de baixo a cima", segundo Svetlana Gannushkina, uma das participantes. Gannushkina, que dirige uma ONG de ajuda aos imigrantes, disse que ficou favoravelmente surpresa pela capacidade de Medvedev "escutar atentamente e propor medidas concretas sobre os problemas tratados", desde a emigração aos veteranos do exército.

"Putin criava tensão, mas Medvedev atua com tranquilidade, como se fosse um participante de um seminário científico, e não como alguém que está por cima", afirmou Gannushkina. "Ao chegar ao poder, me aconselharam a não me meter com a corrupção, porque tinha muito pouco tempo", confessou Medvedev, sem revelar quem lhe deu esse conselho.

A mudança de estilo se concretizou também na publicação ontem de uma entrevista do líder a "Novaya Gazeta", o semanário mais radical de oposição ao Kremlin no espectro pró-ocidental. A entrevista também é a primeira que Medvedev dá a uma mídia impressa russa desde que assumiu a presidência em maio de 2008.

Os sintomas de abertura ao diálogo com a sociedade podem estar relacionados ao temor de um agravamento da situação econômica. Na véspera, Medvedev se reuniu com especialistas do Instituto da Modernização, dirigido por Igor Yurgens, para abordar o problema do desemprego, que em seis meses subiu de 5,3% para 8,5%. "Nos preocupa muito o fato de termos chegado aos números de desemprego registrados que esperávamos para o final do ano", indicou Medvedev.

A ministra de Assuntos Sociais, Tatiana Golikova, reconheceu ter sentido "um verdadeiro medo" quando o desemprego em janeiro e fevereiro começou a crescer 9% por semana. Mais tarde esse ritmo baixou para 1,5%-1,7%.

Diante da incerteza sobre uma nova onda de turbulências econômicas, Yurgens aconselhou "preparar-se para o pior" e para isso "ampliar os canais de comunicação" com os grupos sociais "que podem protestar". E advertiu que a Rússia pode chegar à próxima crise em um "estado muito pior" se não esclarecer antes o espaço político e as características da democracia local.

A produção industrial no primeiro trimestre de 2009 se contraiu 14,3% em relação ao mesmo período de 2008, e o ministro das Finanças, Alexei Kudrin, prevê um declínio de 7% no PIB do primeiro trimestre deste ano.

Da tribuna da "Novaya Gazeta", Medvedev reiterou seu compromisso com a democracia, com um discurso politicamente correto que contrasta com as realidades da Rússia, onde os ativistas independentes do Kremlin veem restringida sua participação na vida política e os juízes e instituições recebem pressões nos bastidores das altas instâncias do poder.

A pergunta sobre o segundo julgamento do caso Yukos, que coloca no banco dos réus novamente o ex-magnata Mikhail Khodorkovski, Medvedev negou que o resultado do processo esteja predeterminado. O diretor da "Novaya Gazeta" não indagou sobre a situação das investigações dos assassinatos de dois de seus jornalistas, Ana Politkovskaya em 2006 e Anastasia Baburova este ano. Diante dos ativistas pró-direitos humanos, Medvedev disse que há "muitos casos" nos quais as atividades das ONGs são restritas "sem motivo suficiente", o que se deve a que nelas "muitos funcionários vejam uma ameaça ao seu poder absoluto".

O presidente acrescentou que na Rússia há "pesadas tradições históricas que se refletem até agora de forma bastante ativa na relação entre as autoridades e a sociedade civil". Ela Pamfilova, presidente do conselho de defensores dos direitos humanos, exortou os órgãos policiais e de segurança a renunciar à "caça às bruxas" em relação aos defensores dos direitos humanos e à oposição, muitas vezes marginal. Também os instou a "perseguir os criminosos e não os dissidentes". Pamfilova denunciou ontem a corrupção nos órgãos policiais e o emprego de métodos ilegais com fins comerciais. Também se mostrou preocupada com a xenofobia: "É preciso mudar a atmosfera da sociedade", declarou.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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