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17/04/2009

Europeus demonstram desinteresse em relação às eleições da UE

El País
Lluís Bassets
Despolitizados, conservadores, sem projetos nem líderes, encerrados em nossas identidades, incapazes de integrar os recém-chegados, sejam países sócios, sejam imigrantes. Assim aparecem os europeus a sete semanas das primeiras eleições com 27 sócios (Romênia e Bulgária não participaram das de 2004, as primeiras da Europa de 25 membros) para eleger entre 4 e 7 de junho 736 eurodeputados, em um clima de desmobilização e apatia prodigiosas.

Nunca estas eleições foram um momento de especial identificação com o projeto de construção europeia, pelo contrário: sempre funcionaram como uma soma de eleições organizadas em cada um dos países membros. Mas as que hoje se preparam podem ser especialmente desanimadoras, em um momento de urgência diante da crise e de retomada nacional ou de renacionalização especialmente intensa.

Salvo poucas exceções, os partidos costumam mandar para suas listas europeias os políticos dos quais querem se livrar no cenário nacional, ou aqueles que querem premiar com uma vida política fácil e bem gratificada em salário e amenidades de viagem. É o que demonstram as listas dos dois maiores partidos espanhóis, o PSOE e o PP, encabeçadas respectivamente por dois ex-ministros - Juan Fernando López Aguilar e Jaime Mayor Oreja - com suficientes ideias políticas próprias para preocupar as cúpulas de suas organizações. Uma contradição dolorosa vai martirizar os socialistas espanhóis em um encontro que os eleitores vão utilizar para castigá-los a bom preço: quer dizer, com um aviso sério, mas sem consequências na cor do governo.

Embora lhes conviesse colocá-las unicamente como uma contenda em chave europeia, na qual se elucidará a cor do futuro Parlamento e inclusive a do futuro presidente da Comissão, nada do que fizeram até agora, incluindo as listas, conduz e serve a esse propósito. E menos ainda que Zapatero esteja plenamente disposto a apoiar como presidente da Comissão José Manuel Durão Barroso, o candidato da direita na eleição anterior, imposto por Blair e Aznar.

O último Eurobarômetro está cheio de indícios reveladores, alguns deles preocupantes. O desdém dos cidadãos para com estas eleições e as instituições europeias é composto de muitos elementos. Tem a ver antes de tudo com a recessão. Depois com a crise da política e as disfunções dos sistemas políticos europeus. E finalmente com a falta de vontade europeísta e o esvaziamento do projeto. A Europa está em crise, mas a crise não é só da construção europeia, mas de sua economia e de sua forma de fazer política. E se expressa antes de tudo na erosão da confiança dos cidadãos nas instituições, embora o Parlamento não seja o que fica pior situado, e o prêmio é levado merecidamente pelo Banco Central e a Comissão Europeia.

A pesquisa revela um menor interesse dos cidadãos pelos temas políticos europeus e um aumento dos que têm a ver com a atual crise (o desemprego e o crescimento). Pode haver aí um elemento conjuntural, mas também um resultado do declínio institucional europeu, sua presença decrescente nos meios de comunicação (também captada pela pesquisa), assim como a superação de alguns temas (o euro, o modelo social, os valores e a identidade) que em algum momento foram objeto de debate e agora se dão por assimilados. Só 44% dos europeus manifestam algum interesse por estas eleições, contra 53% que afirmam o contrário, cifras de onde sai a projeção de uma abstenção de 66%.

Seis dos países que se encontram abaixo desse umbral são sócios da nova fornada, aos quais se devem acrescentar o eurocético Reino Unido, a Itália berlusconiana e Portugal. A intenção de votar manifestada pelos pesquisados produz uma distribuição semelhante: seis dos novos parceiros estão abaixo da baixíssima porcentagem de 34% do conjunto da UE. O desinteresse pelas eleições não está necessariamente ligado a um desapego pela Europa. Os jovens em idade pré-universitária são os menos propensos a votar (27% não o farão em nenhum caso), mas também são os que alegam com menor frequência (10%) que não votarão por discordar da construção europeia.

Será verdade que a Europa se atola quando a América decola? Talvez seja certa essa metamorfose na qual as duas margens do Atlântico parecem estar permutando posições: os EUA se europeízam e a Europa se americaniza. As eleições daqui aborrecem e as de lá entusiasmam. Com esse novo presidente mestiço, fiel imagem de um país também mestiço e preparado para liderar um mundo mestiço, seus concidadãos são a contrafigura desses europeus encerrados em suas identidades nacionais: politizados, progressistas, com projetos e líderes, mais dispostos que nunca a se abrir ao mundo e integrar a todos em uma grande nação cívica, direita e esquerda, negros e brancos, religiosos e ateus, hispânicos e anglos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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