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17/04/2009

"O governo de Cuba usa o embargo para encobrir seus erros", diz economista cubano

El País
Maite Rico Em Madri
A especialidade de Carmelo Mesa-Lago, doutor em direito e economia, são os sistemas de seguridade social. Mas todo mundo lhe pergunta sobre Cuba. É que ao longo de meio século ele vasculhou com ânimo detetivesco a economia da ilha, pondo um rigoroso contraponto a um regime acostumado a maquilar as estatísticas.

Desde que deixou seu país em 1961, Mesa-Lago, 75 anos, fincou raízes em Pittsburgh (Pensilvânia, EUA), mas sua intensa vida acadêmica o levou por uma dúzia de universidades, de Oxford a Salamanca ou Berlim. Na década de 1960 levantou a voz contra o embargo comercial americano a Cuba e mantém um intercâmbio constante com economistas da ilha, governistas e dissidentes.

Autor de dezenas de livros e consultor internacional, Mesa-Lago está indicado para o Prêmio Príncipe de Astúrias de Ciências Sociais.

El País - O embargo, como o senhor previu um dia, não serviu para enfraquecer o regime.
Carmelo Mesa-Lago -
Ao contrário, eu diria que o governo cubano usou o embargo para encobrir os diversos erros da política econômica. Em Cuba há uma tendência a atribuir a fatores externos os erros internos: quando não é o embargo é um furacão ou uma seca. O embargo foi uma desculpa conveniente. E também serviu para justificar o autoritarismo, ao apresentar os EUA como uma ameaça diante da qual Cuba não pode baixar a guarda. Deve-se dizer que em 2001 o embargo foi flexibilizado por razões econômicas, e no ano passado os EUA foram o principal fornecedor de alimentos a Cuba e seu quinto parceiro comercial.

EP - Deve-se levantar o embargo sem contrapartidas?
Mesa-Lago -
Há um grande debate. O presidente Obama já ordenou o fechamento de Guantánamo e eliminou as restrições absurdas impostas por Bush, que prejudicavam as famílias cubanas. Mas o problema fundamental são os direitos humanos, civis e políticos. Eu sempre fui contra o embargo, mas também creio que os direitos humanos devem ser postos na mesa. O contrário seria abandonar os presos de consciência, todos os grupos em Cuba que se esforçam tanto, como o Projeto Varela, as bibliotecas independentes, os economistas dissidentes... e a população cubana, que quer ter espaços de liberdade.

EP - Qual é a situação econômica de Cuba?
Mesa-Lago -
Piorou consideravelmente em 2008, e este ano vai se deteriorar ainda mais. O déficit da balança comercial e a dívida externa são as maiores per capita da América Latina. O valor do níquel (que representou 56% das exportações) caiu 80% no ano passado. O açúcar também caiu e a safra deste ano não promete. Com as remessas não sei o que vai acontecer, porque a crise golpeou a Flórida. Mas o mais importante é o que vai acontecer com a Venezuela, que no ano passado deu a Cuba cerca de €9 bilhões (entre subsídios, investimentos, doações, etc). A queda do preço do petróleo pressiona o governo venezuelano, que tem duas opções: reduzir os programas sociais internos, base do apoio popular a Chávez, ou reduzir a ajuda externa, cujo principal receptor é Cuba. Chávez disse que não vai cortar os programas sociais...

EP - Cuba passou de depender da União Soviética a depender da Venezuela.
Mesa-Lago -
Raúl Castro fez um esforço notável para diversificar os parceiros comerciais e os investidores, incorporando Rússia, China, Brasil... mas o problema é que não há capacidade produtiva. A China foi muito estrita: quer relações econômicas baseadas em investimento e comércio, e não em subsídios. E o que Cuba vai exportar, se dificilmente chega a cobrir a cota de açúcar? Se não houver uma transformação econômica, Cuba continuará sem capacidade de exportação.

EP - Pode haver mudança econômica em Cuba sem que haja mudança política?
Mesa-Lago -
Sim, aí está a China, que conseguiu uma melhora econômica com reformas de mercado e sem mudança política. Agora, o que eu gostaria para Cuba é que houvesse reformas econômicas que melhorem o nível de vida da população - a obsessão do cubano é sobreviver e conseguir a comida de cada dia -, e que haja abertura política.

EP - Por que Raúl Castro anunciou aos quatro ventos uma série de reformas que não parece disposto a aplicar?
Mesa-Lago -
Há 50 anos estudo conscienciosamente a economia de Cuba, e eu diria que essa é a pergunta que me deixou mais perplexo. Não tenho resposta. Que razão há para suscitar o debate mais profundo e participativo que já houve em Cuba para depois fazer coisas muito pequenas? Nenhuma das grandes promessas de reformas estruturais foi implementada.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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