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20/04/2009

Precisamos de super-heróis

El País
Guillermo Altares
Na verdade, todas as histórias vêm de uma só história, todos os livros nascem de um livro, na verdade, de dois. Um deles relata uma grande batalha entre o Oriente e o Ocidente pelo amor de uma mulher, e o outro fala de um homem que se perde ao voltar para casa.

"Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles", começa a Ilíada. "Musa, narra-me as aventuras daquele herói tão engenhoso", inicia a Odisséia.

As duas têm um ponto em comum: o herói, a figura dotada de superpoderes que ao longo dos séculos chegou a nós com diferentes formas e cores, mas com um mesmo fundo. Como dizia a canção de David Bowie, "podemos ser heróis, só por um dia". Desde Homero até os Watchmen, desde Ulisses até "O Cavaleiro das Trevas", quer seja em forma de quadrinhos, filmes ou séries de televisão, os super-heróis são uma fonte inesgotável de fascínio e um negócio global mais do que rentável.

No século 21, o fascínio pelos super-heróis ressurgiu com bilheterias milionárias. Cinema, televisão, bancas de jornais e livrarias vivem uma febre renovada em torno de personagens concebidos em outra época, a dos totalitarismos e da 2ª Guerra Mundial. Porque voltou a atração por estes homens extraordinários?

"É uma atração pelos indivíduos que fogem do comum porque sempre, desde a Grécia antiga até agora, buscamos personagens exemplares", explica Carlos García Gual, professor de filologia grega da Universidade Complutense e um dos grandes especialistas espanhóis sobre o mundo clássico.

"Eles também têm algo de telenovela, prendem as pessoas, assim como a série Lost prende [o espectador]. Algumas séries se prolongam há décadas", diz David López, que mora em Zaragoza e desenha super-heróis para a DC Comics e a Marvel (as duas grandes companhias do setor). "Isso tem muito a ver com os deuses gregos e romanos. A cultura ocidental está cheia de super-heróis, que funcionam com os mesmos arquétipos, com os mesmos modelos", prossegue o desenhista de 33 anos.

"Os super-heróis já existiam na Ilíada. Em vez de deuses, criamos super-heróis, que também formam uma espécie de panteão divino", diz Salvador Larroca, valenciano de 44 anos e desenhista consagrado da Marvel, principalmente do X Men e Patrulha do Destino.

Os anti-heróis dos quadrinhos, como Corto Maltés, erram, têm dúvidas e sempre se apaixonam por uma mulher que os deixa plantados. Os super-heróis, por sua vez, são irresistíveis, sempre sabem o que fazer, sempre tomam a decisão adequada, não envelhecem e vão de façanha em façanha, enfrentando vilões quase tão poderosos como eles.

São heróis épicos que, diferentemente dos heróis das comédias, não mudam, não amadurecem, não sofrem, não duvidam, são perfeitos. Bom, pelo menos no princípio, quando foram criados, porque a partir dos anos 70 eles foram se humanizando, começaram a sofrer, a duvidar, a envelhecer, embora continuassem sem cometer erros.

Em meados de março, um exemplar do primeiro gibi do Super-Homem foi leiloado em Nova York por 317 mil dólares. Quando foi lançado, em junho de 1938, custava dez centavos, e hoje só restam 100 cópias em circulação.

Com esse quadrinho escrito por Jerry Siegel e desenhado por Joe Shuster, que contava a história de Kal-El, o filho de Jor-El e Lara, que acaba salvando os habitantes da terra de todo o tipo de vilões e catástrofes, nasceu o mercado e o mundo dos super-heróis contemporâneos. Agora a Marvel e a DC Comics vendem centenas de milhares de exemplares por ano na Espanha de séries e subséries com preços que vão desde 1,95 euro por um gibi em formato brochura, com 24 páginas. Nos Estados Unidos, uma das companhias subiu o preço para
3,99 dólares, e a Marvel fará o mesmo em junho. Em todo caso, trata-se de um entretenimento popular e de massa.

"O Cavaleiro das Trevas", quarto episódio cinematográfico da série Batman, foi o filme que rendeu mais bilheteria em 2008 (só na Espanha arrecadou 11 milhões de euros), enquanto que "Watchmen", filme baseado na série de Alan Moore que mudou a história dos quadrinhos e dos super-heróis, tem sido uma das estréias mais comentadas dos últimos anos. O último filme de super-heróis, "X-Men Origins: Wolverine", foi pirateado um mês antes de sua estréia e colocado na Internet no começo de abril, quando ainda não estava terminado ("É como uma Ferrari sem uma camada de pintura", disse seu protagonista, Hugh Jackman). Em poucas horas, mais de um milhão de pessoas havia baixado o filme.

Mas o conceito é muito mais antigo do que esta explosão na era do consumo de massa, mais velho do que a cultura pop. Os deuses dos gregos e dos romanos tinham superpoderes e os heróis clássicos, sem eles, venciam todo tipo de obstáculos com sua imaginação, força e engenho. "Eles são sem dúvida os antecessores", diz Francisco García Jurado, professor de filologia latina da Universidade Complutense de Madri. "Todos nós precisamos ter heróis, mesmo que sejam os gregos e os romanos que lhes deem nomes.

Os romanos tinham dois grandes heróis, Enéas e Hércules. De fato, no Museu Arqueológico Nacional há um mosaico dos trabalhos de Hércules, no qual já aparecem os quadrinhos", acrescenta o especialista em literatura comparada. "O importante desse mosaico é que demonstra que os heróis não podem existir se não houver uma representação coletiva", prossegue. "Stan Lee, um dos grandes criadores, já foi chamado de Homero dos quadrinhos", aponta Alejandro Martínez Viturbia, diretor editorial da Panini Comics, empresa espanhola que distribui os títulos da Marvel.

"No fundo, os super-heróis são a personificação dos sonhos do ser humano, de perfeição imediata, em certo sentido até os santos da tradição cristã são super-heróis", afirma o escritor Rafael Martín, novelista, roteirista de quadrinhos e autor de vários ensaios sobre esses seres extraordinários, o último deles "W de Watchmen". O especialista também considera que a origem do mito remonta aos clássicos, mas questiona se antes da aparição do Super-Homem, no começo da 2ª Guerra Mundial, quando os totalitarismos eram um perigo claro e iminente, eles já não existiam em personagens como Popeye, de 1939, ou o Fantasma, de 1936.

"Dois jovens conseguem criar um personagem que encarna tudo o que os Estados Unidos queriam ser depois da Grande Depressão. É um personagem que representa também uma esperança exógena, logo antes da 2ª Guerra Mundial", explica Álvaro Pons, crítico de quadrinhos e autor do blog "La cárcel de papel" (www.lacarceldepapel.com), sobre o nascimento do Super-Homem, personagem com o qual se inicia a chamada Idade de Ouro dos quadrinhos, que se estende desde os anos 40 até os 50. Foi nessa época que nasceram Batman e Robin, Mulher-Maravilha, The Flash, que as bancas ficaram repletas de entretenimento barato em forma de tiras, principalmente da companhia DC, enquanto a Timely Comics (precedente da Marvel) colocou em circulação personagens como o Capitão América. Também naquela época, Will Eisner, que revolucionaria as graphic novels, criou The Spirit.

Com os anos 60, chegaram novos tempos e também novos super-heróis, muito mais humanos e complexos. Personagens como o Homem-Aranha, X Men, Hulk, Patrulha do Destino, por trás dos quais estão nomes fundamentais da história dos quadrinhos como Stan Lee ou Jack Kirby, movem-se num mundo mais realista, com problemas mais terrenos (superpoderes à parte). Alguns se tornam super-heróis de forma acidental, a seu pesar, encarcerados por sua própria força.

A última volta ao realismo acontece com Watchmen, para muitos o melhor quadrinho de super-heróis (ainda que só apareça um personagem com superpoderes), que Alan Moore e Dave Gibbons começaram a publicar em 1986. "É muito importante porque reflete sobre as coisas que aceitamos no mundo dos super-heróis, mas que na vida real dariam muito medo, porque queira ou não, são pessoas que o salvam", explica o historiador dos quadrinhos Rafael Martín. O que acontece quando o exército dos EUA conta com um super-herói em suas tropas durante a guerra do Vietnã?

Ele vence a guerra e a história é diferente. Como disse Alan Moore, a idéia era começar com a morte de um super-herói para demonstrar que as coisas não são como parecem.

Há séries, como o Super-Homem, que estão há sete décadas no mercado e continuam encontrando milhões de compradores. É uma autêntica indústria, que emprega centenas de desenhistas, roteiristas, coloristas, e que mês a mês coloca seus produtos nas bancas de jornais e lojas. "Uma das coisas que melhor funciona é o aspecto de telenovela", explica o desenhista David García. "Batman teve um filho há alguns anos. Elas prendem a atenção porque são histórias épicas que se prolongam por anos, mas também são familiares. Gostamos porque os personagens se relacionam uns com os outros. Em alguns casos, quando são personagens que seguimos desde crianças, eles chegam a importar de fato. Ao construir ficções, transformamos os personagens em pessoas", acrescenta. "O gênero de super-heróis é um balaio de gatos no qual cabe desde as histórias sombrias até as aventuras ou histórias de amor", afirma Alejandro Martínez Viturbia.

Para outros especialistas, a continuidade é uma das chaves do sucesso: assim como acontece com as séries de televisão, uma vez que capturam sua atenção, transformam-no num espectador ou comprador para sempre. Na realidade, a origem também é anterior: a continuidade das séries é o princípio usado na criação dos folhetins com os quais autores como Alexandre Dumas fundaram a novela contemporânea. "O grande achado foi dar uma continuidade como nas tragédias gregas", afirma Rafael Martín.

Por outro lado, a continuidade e a duração têm uma contrapartida, que para alguns explica a diminuição dos leitores na última década (além da maior presença desses personagens na tela dos cinemas). Séries muito longas, como Friends, não são tão fáceis de acompanhar quanto as médias. Mas existem quadrinhos que estão no mercado desde os anos 40, complicando-se e complicando-se, e não é fácil continuar nesse ritmo. "Cada vez acontece mais o que se chama de 'crossover', quando um quadrinho se relaciona com outros", explica Álvaro Pons. Para alguém que não bebeu dessa cultura desde pequeno, isso pode parecer uma confusão monumental ou uma série absurda.

Para um neófito no mundo dos super-heróis, navegar nas páginas da DC Comics (www.dccomics.com) ou da Marvel (www.marvel.com) na internet é um encontro com a terceira fase dos quadrinhos. Na página de personagens da Marvel, existem centenas de nomes, cada um com seu link, com seu desenho e sua história, e o fã também pode baixar e instalar um buscador especial do Universo Marvel. O mesmo vale para a DC Comics.

O problema é que, mesmo antes dos cruzamentos entre as diferentes séries, há uma grande confusão para os que não estão acostumados a este universo infinito, que se prolonga e ramifica como um relato de Borges. Talvez o mundo inteiro não seja contado em duas histórias, e existam mais lendas do que a dos guerreiros que lutam por uma mulher e do homem que volta para casa, ainda que em todas as demais histórias apareçam personagens com capas e superpoderes.

Tradução: Eloise De Vylder

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