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21/04/2009

Cúpula das Américas: Obama planta semente da reconciliação com Cuba e Venezuela

El País
Antonio Caño Enviado especial a Port of Spain
A 5ª Cúpula das Américas termina com a promessa dos EUA de respeitar todos os países, acima das diferenças políticas

A 5ª Cúpula das Américas terminou domingo (19) na capital de Trinidad e Tobago com a reconciliação formal entre os EUA e todos os seus rivais na região, incluindo a Venezuela. Barack Obama disse que eles não representam uma ameaça para os interesses dos EUA e lhes prometeu respeito acima de suas diferenças ideológicas. Ao mesmo tempo, para o conjunto da América Latina, o presidente americano declarou terminado o tempo em que Washington se limitava ao uso de seu poderio militar.

Livro presenteado se transforma em best-seller

O grande beneficiário da cúpula de Trinidad e Tobago foi um livro escrito em 1971: "As Veias Abertas da América Latina". Ele foi presenteado na sexta-feira (17) por Hugo Chávez a Barack Obama. "Eu pensei que fosse um de seus livros", comentaria depois, jocoso, o presidente americano. "Eu ia lhe presentear um dos meus."

Ele não foi escrito por Chávez, mas pelo uruguaio Eduardo Galeano, e é um dos textos de cabeceira do presidente venezuelano. E seu gesto serviu para que esse manual anti-imperialista tenha se transformado, na versão em inglês, em um repentino best-seller, passando do 60.280º lugar na livraria virtual Amazon.com para o 5º.

O livro denuncia os "cinco séculos de saque" no continente e foi texto de culto para a esquerda latino-americana. Não faltam os que questionam seu rigor e o consideram um expoente da retórica do vitimismo. Um alto funcionário americano não quis confirmar se Obama folhearia o ensaio. "O presidente é um homem muito lido, mas não sei quais serão suas prioridades", disse.



A cúpula terminou com uma declaração final com diversos compromissos em questões energéticas, ambientais e de imigração, que a Venezuela e quatro de seus parceiros da Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba) se negaram a assinar por não incluir uma condenação expressa do embargo americano a Cuba.

Mas esse dado, previsto havia dias, não prejudicou absolutamente o valor da cúpula quanto ao possível ponto de partida para uma nova era nas relações continentais, uma era "na qual não há sócios pequenos ou sócios grandes, mas sócios em igualdade de condições", como disse Obama no domingo em uma entrevista coletiva. Não houve acordos concretos nesse sentido. Como ocorreu na recente turnê de Obama pela Europa, sua presença nesta reunião serviu mais para plantar uma semente que ainda não se sabe se dará fruto. Grande parte disso depende da resposta que a nova política americana encontrará nos países latino-americanos.

Em Cuba em primeiro lugar. O presidente americano lembrou que "a população cubana não é livre e esse é o nosso norte", mas confiou em que sua oferta de diálogo feita nesta cúpula seja seguida "de outras iniciativas que permitam explorar se é possível obter progressos".

Obama insistiu em que "assuntos como os presos políticos, a liberdade de imprensa ou a democracia não são temas que podem ser deixados à margem". Mas acrescentou que há outras coisas que o governo de Havana pode fazer para mostrar sua boa vontade, como eliminar os obstáculos legais para que seus cidadãos recebam remessas de familiares no exterior. Avaliou como um passo positivo a recente declaração do presidente cubano, Raúl Castro, em que se mostrou disposto a conversar sobre qualquer problema, mas advertiu que agora é preciso transformar essas intenções em ações e que "os fatos valem mais que as palavras".

Talvez tão importante quanto tudo isso, Obama, em um insólito reconhecimento, colocou o trabalho dos médicos cubanos no Caribe, o maior orgulho da revolução castrista, como um exemplo com o qual os EUA precisam aprender. "Esse é um exemplo de vias de interação com os povos da região que também podem ser benéficos para os interesses dos EUA... O poderio militar é só uma parte de nosso poder, que temos de complementar com mais iniciativas diplomáticas e de caráter humanitário", declarou o presidente.

Obama defendeu sua aproximação nesta cúpula com rivais de discurso furiosamente antiamericano, como os presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, da Nicarágua, Daniel Ortega, e da Bolívia, Evo Morales. "Temos muitas diferenças em relação a vários assuntos, mas na medida em que pudermos respeitar as regras democráticas poderemos encontrar o que temos em comum", defendeu.

Sobre Morales, teve inclusive palavras de reconhecimento como "o primeiro indígena que chega ao poder em um país de maioria indígena". Obama garantiu ao presidente boliviano, que horas antes tinha acusado os EUA de estar por trás de uma tentativa de assassiná-lo, que seu governo jamais tentará derrubar um diligente que não lhe satisfaça e que será respeitoso "com todos os governos eleitos, mesmo que não esteja de acordo com eles". O presidente americano admitiu suas diferenças com Chávez, "que se referiu de forma exaltada aos EUA e se intrometeu nos assuntos de outros países de forma preocupante". Mas lembrou que se trata de um país com um orçamento militar infinitamente inferior ao americano, "que dificilmente pode representar uma ameaça para os interesses estratégicos dos EUA".

Obama estimou que essa cúpula foi a oportunidade de mudar a visão que os EUA têm de seus vizinhos do sul. Afirmou que, em sua melhor versão, seu país representa "os melhores valores e ideais". "Mas é preciso aceitar que outros têm diferentes culturas e outros valores" com os quais se pode conviver. "Outros países têm boas ideias também, e devemos escutá-las", afirmou.

Encerra-se assim uma cúpula fraca em resultados específicos e cheia de apertos de mãos e boas intenções. Já é um sucesso, se lembrarmos o confronto com que terminou há quatro anos a cúpula de Mar del Plata, na Argentina. Mas se apagará rapidamente da memória se não houver progressos identificáveis em breve. Como ocorreu depois de seu giro europeu, Obama pisa em terreno perigoso, uma política externa "branda" com a qual corre o risco de ser criticado em seu país por pôr em perigo os interesses nacionais, uma política que, no entanto, ele defendeu domingo como a mais adequada neste momento para ressuscitar a liderança americana.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Declaração de Obama leva esperança à Cuba

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