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21/04/2009

Cúpula das Américas: Obama põe em evidência a atrofia da classe política latino-americana

El País
Antonio Caño Enviado especial a Port of Spain
A participação de Barack Obama na Cúpula das Américas permitiu uma comparação desoladora para o continente. A imagem renovadora e vital do novo presidente americano multiplicava a sensação de atrofia de uma classe política latino-americana que, por natureza e salvo exceções, resiste a mudanças.

Casa Branca anula o
"efeito Hugo Chávez"

Um dos possíveis êxitos desta cúpula foi o de anular o "efeito Chávez". O presidente da Venezuela vem sendo o protagonista de todas as reuniões internacionais de que participou desde que está no poder. Sua extravagância e seus dotes cênicos não só conseguiram a atenção prioritária da mídia como serviram para minar o sistema multinacional da região: as cúpulas, a Organização de Estados Americanos, o Banco Interamericano de Desenvolvimento...

Isso mudou em Port of Spain, talvez para sempre. A presença de uma estrela nova e mais brilhante eliminou ou pelo menos reduziu o fator de distorção que Hugo Chávez costuma representar. Ele teve seu minuto de glória, claro, quando se levantou de sua cadeira e se aproximou de Barack Obama para lhe presentear o livro "As Veias Abertas da América Latina". Mas fora isso seu destaque se reduziu a alguns gestos de reconciliação com o presidente americano e algumas ausências.

Chávez chegou a Trinidad e Tobago como grande defensor da causa de Cuba e com o sucesso de ter somado o pequeno país de San Vicente e Granadinas a sua Alba (Alternativa Bolivariana para as Américas). Mas saiu daqui um tanto debilitado em ambas as funções, tanto em seu pretenso papel de novo Fidel Castro como no de líder continental alternativo. Sua aliança continua e talvez continue durante algum tempo até que o equilíbrio de forças no continente se reacomode mais claramente. Mas se Chávez for obrigado pela popularidade de Obama a se aproximar de Washington seus atuais parceiros não ficarão atrás.

Quanto a seu papel em Cuba, está obviamente irritado com a possibilidade de um diálogo entre Washington e Havana. Se Raúl Castro decidir falar com Barack Obama, vai querer fazê-lo sem Chávez no meio.



Repassando o mapa de sul a norte, encontramos a mulher de um ex-presidente governando a Argentina, um partido no governo do Chile que já supera no poder os 17 anos da ditadura de Augusto Pinochet, um ex-presidente no Peru, um presidente na Colômbia reeleito depois de uma reforma constitucional sob medida, um presidente semivitalício na Venezuela, o filho de um ex-presidente no Panamá, um ex-presidente na Nicarágua e outro ex-presidente na Costa Rica. Vários outros ex-presidentes e parentes de ex-presidentes esperam sua oportunidade para convocações eleitorais imediatas. Um exemplo: no país mais inovador e democrático da região, o Chile, o ex-presidente Eduardo Frei é o favorito à vitória, exatamente porque outro ex-presidente, Ricardo Lagos, desistiu de se candidatar à eleição. Os dois estão à beira dos 70 anos.

As sociedades latino-americanas se modernizaram por dentro e mudaram consideravelmente suas condições e seus estilos de vida nos últimos anos, mas seus dirigentes se revezam na porta giratória do poder, sem importar que no caminho tenham sido condenados por corrupção, por incesto ou tenham tido de fugir de seu país perseguidos pela justiça ou pela ira popular. Nada estranharia que um dia Alberto Fujimori recuperasse a faixa presidencial peruana, como conseguiram alguns antigos ditadores. Por esse motivo, a figura de Luiz Inácio Lula da Silva emerge cada dia mais poderosa como o farol para o qual Washington dirige seu olhar.

Essa falta de renovação sanguínea faz os dirigentes latino-americanos suspeitarem do novo discurso que escutam em Washington. Durante décadas foram educados em uma cultura política hipócrita que recomendava, por um lado, criticar os EUA nas praças públicas, enquanto por outro procuravam acordos com o império e até lhe ofereciam vantagens vergonhosas.

Deve ser difícil mudar isso devido ao diálogo franco e à defesa aberta dos interesses nacionais que essa nova Casa Branca reclama hoje nas relações com a América Latina. Foi o que se viu nesta cúpula de Port of Spain. Obama ofereceu uma nova linguagem. A maioria dos latino-americanos respondeu com desconfiança e desconcerto, repetindo os roteiros clássicos sobre o levantamento do embargo a Cuba e as culpas de Washington em quase tudo, observando a jogada com prevenção, calculando quais são as consequências de Obama para eles, que efeitos pode ter sua popularidade na sorte política de cada um dos que o escutavam.

Obama representa uma grande oportunidade para a América Latina. Com ele, esse continente tem a oportunidade de construir um novo modelo de relações e embarcar em um trem reformista que lhe permita ter algum destaque internacional nesse difícil início de século.

Mas não é essa a aposta que se fez em Port of Spain. Esta cúpula foi silenciosa, sem os exageros dialéticos tradicionais, uma cúpula cheia de bons modos, mas também de receios sobre o novo ar que vem do norte, com medo de que ganhe tanta força que acabe derrubando os velhos caudilhos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Declaração de Obama leva esperança à Cuba

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