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23/04/2009

Crise abre a oportunidade para se mudar o padrão de educação

El País
Ana Pantaleoni
"Vamos ensiná-los a viver. Haverá menos presentes, mas mais fantasia." O economista Leopoldo Abadía explica assim o que ensinará a seus netos sobre a crise econômica, que eles também sentem em casa e no colégio.

Existe uma oportunidade? A crise servirá para mudar o padrão de consumismo infinito que marcou as últimas gerações de adolescentes das classes média e alta? "Essa é a expectativa que temos no âmbito da psicologia, que a crise econômica sirva como modelo de aprendizagem e que os indicadores de bens e marcas não podem ser aspectos sobre os quais o sujeito baseie sua autoestima", explica Marina Romeo, doutora em psicologia social na Universidade de Barcelona. Romeo projeta a ideia de que a satisfação se torne menos material, isto é, erradicar o "eu sou mais porque tenho esta marca".

A crise poderá ver nascer uma nova geração de menores mais conscientes do valor das coisas e nos quais o desejo volte a ter uma voz. O psicólogo Enrique García Huete explica que a crise é uma oportunidade para transformar o desejo em motivação e esforço.

Gene J. Puskar/AP 
Garoto descansa diante de loja de calçados em shopping center nos Estados Unidos

Viver com menos. Essa parece ser a lição que devem aprender os estudantes de classe abastada e todos os demais. "A necessidade nos obriga a ser sóbrios, embora ainda haja pais inconscientes que não abrem os olhos das crianças para que realmente vejam o que as coisas custam", diz Nuria Chinchilla, professora do IESE e diretora do Centro Internacional Trabalho e Família.

"Os pais podem aproveitar a crise para educar seus filhos, e os adolescentes podem aprender a viver como sempre. Não é obrigatório ter um MP3", explica Abadía, a caminho de Valencia para assinar livros. Sua obra "La crisis Ninja y otros misterios de la economía actual" está na nona edição.

O que se deve contar à criança? "Toda a confusão que eu conto não lhe contaria, mas sim diria que temos de nos propor a gastar menos; que é um momento em que as coisas em todo o mundo vão pior, que em todos os países há menos dinheiro que antes", diz Abadía.

A mãe mostra uma linda blusa que acaba de comprar. Seu filho Pepe, de 5 anos, que ultimamente não para de ouvir em casa palavras como aluguel, hipoteca, créditos ou propriedade, pergunta: "Mamãe, mas é sua ou alugada?"

Aos 11 anos, Roger sabe muito sobre a crise econômica. Lê tudo, escuta tudo. "Estou muito preocupado com a Islândia", explica o menino. "Era um dos países mais ricos e agora não é mais. Está empobrecendo." Roger quer ser astrônomo, lê os jornais diariamente e vê os noticiários na televisão. Seus amigos não. Apesar da profundidade da crise, Roger está contente. "Tenho o cofre supercheio. Quase não gasto."

A crise econômica chegou às classes das escolas e até ao jardim de infância. As crianças sentem a crise, a desenham, escrevem e sofrem. Se o tema não aparece em casa, o veem na televisão ou escutam no pátio do colégio; mas a maioria vive a crise em casa.

"Muitas vezes não pensamos que a criança faz parte do núcleo familiar. Os adultos, às vezes inconscientemente, as deixamos de lado", critica Encarna Salvador, secretária-geral da Confederação Espanhola de Associações de Pais e Mães de Alunos (Ceapa). "É preciso lhes contar a verdade, mas também tentar que o clima em casa não fique irrespirável."

Com um índice de desemprego de 13,91%, muitas crianças veem que algum parente está desempregado, que seu pai ou sua mãe ficaram sem trabalho ou os dois (em um ano há 385.500 lares a mais com todos os seus membros desempregados, de um total de quase um milhão). Todas as crianças ouviram que é preciso apertar o cinto.

"Sanitariamente essa crise afetará pouco, porque estamos em um país que tem as necessidades cobertas", diz o médico de família Pedro Cañones. "O que há é um certo problema sociossanitário. Estamos em uma sociedade com muito pouca tolerância à frustração, e os adolescentes são o exemplo vivo. Muitos deles, diante da frustração de não ter o que podiam ter antes, podem ter comportamentos anômalos."

A cadeira de História do Mundo Contemporâneo hoje pula o tema do livro. Josep Maria Pérez, professor de primeiro ano de bacharelado e diretor do Instituto Infanta Isabel de Aragón, de Barcelona, anuncia: "Hoje falaremos sobre a crise". Silêncio. "Queremos saber o que vocês pensam da crise que estamos vivendo." Silêncio. "Também vamos sofrer a crise aqui. Vocês não vão notar na calefação, mas pode ser que no próximo ano sejam suprimidos alguns grupos de matérias minoritárias." Agora isso toca seus corações. "Minha mãe não me diz tanto para irmos às compras", conta Irene, sentada na terceira fila da classe. "Para ir ao cinema ela me deixa € 20", queixa-se Lorena. "A crise é uma merda", sussurra uma colega. Albert dá argumentos acadêmicos e todos escutam: "Os bancos deram hipotecas e empréstimos para pessoas que sabiam que não podiam pagar e estas fizeram casas que não podiam pagar". É a tese Ninja.

Com crise ou sem ela, um filho é uma fonte inesgotável de gastos. É o que reflete o estudo "O que custa um filho" (2006), da Confederação Espanhola de Organizações de Donas de Casa, Consumidores e Usuários. Um exemplo: a compra de fraldas e de cosméticos para o bebê representou em 2000 um custo médio anual de 102 mil pesetas (€ 613). Se aplicarmos o aumento do IPC, o gasto atual deveria ser de € 766; no entanto, o que as famílias destinam hoje a esses mesmos produtos são € 1.200. Isso só quando é um bebê. Calcula-se que um filho custe desde o nascimento até completar 18 anos entre € 100 mil e € 300 mil.

Não é preciso sair de casa para avaliar a situação. Os pais aplicaram o efeito euro em parcelas mais ou menos voluntárias. No pagamento é onde os adolescentes mais notam a crise. Francisco Iniesta concorda em falar como professor da escola de economia IESE, mas acaba falando como pai de seis filhos: "Me surpreende como são conscientes; é um tema diário de conversa, embora é claro que também os aborreça. Os filhos mais velhos são capazes de entender o esquema das hipotecas lixo".

Segundo Iniesta, as crianças viram nos últimos tempos como a lista de gastos era reduzida, como se adiava a reforma da casa, de que forma se prolongava a vida das roupas e se passava a consumir alimentos mais simples.

Desde o início do curso, só na Catalunha, uma em cada cinco crianças de creches privadas deixou de comer no centro. A comida e a merenda em casa representam para os pais uma economia de aproximadamente € 150 mensais.

Dolors Petitbo, chefe de seção no Departamento de Psicologia do Hospital Sant Joan de Déu de Barcelona, explica que por enquanto não chegam consultas específicas sobre o tema porque a sociedade é suficientemente madura para enfrentar a situação. "Provavelmente haverá um pouso na realidade que será positivo. Os adolescentes o veem como um toque de alerta e se queixam porque os pais lhes dão menos dinheiro", explica a doutora.

A televisão é a principal fonte de informação que os jovens têm sobre a crise, mas também a internet. "É dessas coisas que ouvem continuamente, mas internamente não têm a ressonância de tragédia." Até que o desemprego entra em casa. "Notamos que muitos pais estão desempregados. Há crianças com inquilinos em casa, com dificuldades para pagar o material escolar, embora a crise não seja um tema de conversa entre eles", afirma Alejandra Calvo, monitora de integração do Instituto Pío Baroja de Madri. "Se a família se desestrutura é quando repercute no rendimento escolar da criança", acrescenta Jacinta Herreros, professora técnica de Serviços à Comunidade na mesma escola.

Por enquanto não há estudos que mostram como a crise afeta os estudantes. "Embora não seja o único, o fator econômico é fundamental para o bem-estar das crianças. Quando um dos pais fica desempregado gera uma situação de incerteza. As famílias se readaptam e o clima familiar também é afetado", explica Juan Ruiz-Canela, presidente da Associação Espanhola de Pediatria de Atenção Primária.

Crise é oportunidade. Nem todo mundo concorda com a frase ou, no mínimo, há especialistas que indicam que não está sendo aproveitada. "A crise acaba impondo uma situação para se apertar o cinto, mas isso não deve ser confundido com uma vontade de viver com uma cultura de consumo diferente", opina Víctor Renes, responsável pelo Serviço de Estudos da Cáritas.

Para Cañones, os adolescentes não são conscientes do que está acontecendo. "Também não creio que funcione como ideia coletiva; meus pais viveram o pós-guerra e todas as dificuldades do mundo, e a geração dos meus filhos já se esqueceu. O ser humano não aprendeu essas coisas." A professora Chinchilla considera que a época do pós-guerra não é comparável à situação atual: "Na época as pessoas passavam fome. Agora seremos pobres, mas não miseráveis".

A psicóloga Petitbo e o economista Abadía concordam em prognosticar que a crise é um regulador que servirá para dar valor às coisas. "Há crianças que continuam pensando que o dinheiro sai do caixa automático bastando apertar um botão. Antes as crianças sabiam o que seus pais faziam e o esforço que o trabalho representava. Agora se fala pouco desse esforço, só nas famílias separadas se ouve falar de gastos e dinheiro", explica a psicóloga.

"Em muitas conversas entre adolescentes, fala-se da crise como algo distante deles, mas que têm de suportar como tantas outras coisas dos adultos", argumenta o psicólogo e escritor Xavier Guix. "É preciso lhes explicar a realidade familiar, mas sem dramatismos nem culpabilidades. Isso não significa poupá-los da preocupação e fingir que não acontece nada." Abadía é a favor do otimismo recalcitrante: "Da Guerra Civil espanhola tenho uma boa recordação graças a meu pai. Quando tocavam as sirenes dos aviões, me pegava a cavalinho e descíamos para o abrigo cantando. Para meu pai certamente era um momento amargo".

Carol é das mães que martelou seus filhos com o tema. Tem dois, e são pólos opostos. Pepo, de 10 anos, "introvertido, nada consumista, nunca pede nada". Violeta, de 8, "nasceu consumista". E Carol aproveitou a crise para reduzir essas atitudes consumistas. A resposta de Carol era sempre "peça aos reis magos".

Ao voltar das férias de Natal, a mãe de Violeta recebeu uma ligação do colégio. Sua filha tinha escrito uma redação sobre a noite de 24 de dezembro com o título "Chegará o Natal?" Contava a história de três irmãs que iam dormir muito preocupadas porque, por causa da crise, Papai Noel provavelmente não viria.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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