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25/04/2009

Filho de Raúl Alfonsín prevê que Cristina Kirchner perderá maioria nas eleições legislativas

El País
Soledad Gallego-Díaz Em Buenos Aires (Argentina)
A maciça manifestação cívica que se viu no velório e enterro de Raúl Alfonsín em Buenos Aires nos primeiros dias de abril deve ser interpretada como uma amostra do novo interesse da sociedade argentina pelos valores republicanos que o ex-presidente representou historicamente e pelo radicalismo, em oposição ao peronismo.

"Esse processo de consolidação do radicalismo dependerá do que nós formos capazes de fazer agora." Ricardo Alfonsín, filho do ex-presidente e dirigente da União Cívica Radical (UCR), crê que a frente eleitoral lançada no domingo passado entre seu partido, a Coalizão Cívica dirigida por Elisa Carrió e os socialistas representa um passo importante nesse caminho de recuperação institucional. "Cristina Kirchner vai perder a maioria nas eleições legislativas do próximo dia 28 de junho, e isso será muito bom para a Argentina porque os obrigará a dialogar e a respeitar o funcionamento das instituições deste país", afirma Alfonsín em entrevista a "El País".

Ricardo Alfonsín, que tem uma semelhança assombrosa com seu pai, não só física como também na maneira de falar e de se expressar, crê que a sociedade argentina foi muito severa com o radicalismo, muito mais do que com o justicialismo [movimento político de Cristina Kirchner, herdeiro do peronismo]. Reconhece que a UCR não foi capaz de enfrentar a crise que o país sofreu nos anos 1990 e ainda estremece ao lembrar da saída apressada do poder de Fernando de La Rúa (o último radical que foi presidente) e a terrível etapa de instabilidade política, social e econômica que se seguiu.

"É verdade que qualquer presidente que tivesse de herdar a situação econômica que se gerou durante a fase Menem teria encontrado os mesmos problemas que a UCR. Tivemos de cuidar do governo durante a pior crise que a Argentina sofreu, em 2001, mas não soubemos enfrentar corretamente os problemas e a sociedade nos castigou muito por isso", admite. "Talvez exijam mais de nós que do justicialismo, apesar de termos causado infinitamente menos prejuízo a este país que o PJ, porque somos um partido que fez da seriedade um valor fundamental e da ética, uma questão central da política."

O dirigente radical acredita que a tendência de recuperação da UCR é muito firme porque a sociedade, recuperada uma certa estabilidade econômica e institucional, hoje é mais exigente com o governo. "Há coisas que foram toleradas do ex-presidente Kirchner que a sociedade não está disposta a tolerar, me parece, na presidente [Cristina Kirchner]."

Alfonsín avalia muito positivamente a aproximação do vice-presidente Julio Cobos, que foi expulso da UCR por se candidatar nas eleições na chapa de Kirchner. "Cobos tomou uma decisão importantíssima quando votou contra o governo durante o conflito no campo porque a paz social estava em risco, e a sociedade deu um suspiro de alívio quando comprovou que o vice-presidente aliviava a situação", explica. Para Alfonsín, uma parte da sociedade atribuiu o êxito à UCR. "Cobos fará parte da frente eleitoral radical, encabeçando o espaço que criou, o Confe [Consenso Federal]", afirma o dirigente da UCR.

"Eu creio que Cobos deve se demitir da vice-presidência em consequência de seu desencontro com a presidente." Alfonsín reconhece que a situação é atípica (os dois mandatários máximos do país não se falam). "Não creio que esteja em nenhum manual de ciência política", comenta com um sorriso sossegado, idêntico ao de seu pai. "Mas a responsabilidade real é a do ex-presidente Kirchner. Creio que o vice-presidente atuou com muito decoro e dignidade, submetido como está à tentativa de tornar sua vida impossível." Cobos não participou da cúpula convocada pela UCR porque nestes dias exatamente substituía de maneira oficial Cristina Fernández de Kirchner, em viagem a Trinidad e Tobago.

O dirigente radical (que se apresenta nas eleições de junho pela importantíssima província de Buenos Aires) se nega a aceitar a possibilidade de que a presidente da República renuncie ao cargo se obtiver resultados muito fracos nas eleições legislativas. "Não, não creio nessa possibilidade. Isso não vai acontecer. Creio que vai atuar com seriedade. Temos problemas muito sérios na Argentina e os resultados eleitorais vão permitir debater publicamente, à maneira dos pactos de La Moncloa, um projeto de desenvolvimento nacional. Definir o que nós argentinos queremos fazer do ponto de vista econômico e social com o país."

É possível pensar em uma reunificação de todo o radicalismo? Ricardo Alfonsín acredita que se deve deixar passar um pouco mais de tempo. "Essa possibilidade me agrada, trabalho nessa direção, mas não depende somente do que pense e deseje a UCR, senão do que pensem e desejem os que saíram da UCR e hoje estão construindo essa frente eleitoral conosco."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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