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26/04/2009

Lei islâmica ganha terreno no Paquistão

El País
Ángeles Espinosa, em Teerã E Yolanda Monge, em Washington
Os taleban começaram a se retirar na sexta-feira de Buner. Sua conquista silenciosa desse distrito paquistanês havia empurrado contra as cordas o governo de Islamabad, tanto pela pressão dos EUA como de sua própria opinião pública. A suspeita de uma nova concessão aos extremistas faz temer que seu recuo não seja tanto uma vitória do crescente consenso nacional contra eles quanto um compromisso político. Parece muita casualidade que, justamente quando iniciavam sua saída, as autoridades de Província da Fronteira do Noroeste (NWFP) tenham prometido a aplicação "sem demora" da lei islâmica em Buner.

"Estão se retirando de Buner", anunciou em Peshawar, capital da NWFP, o ministro da Informação do governo provincial, Mian Iftikhar Husain. A notícia foi confirmada pelo porta-voz taleban, Muslim Khan, que disse que todos os combatentes teriam se retirado no sábado. "Nosso líder ordenou sua saída imediata de Buner", afirmou, em referência ao maulana Fazlullah Khan, que negou que a decisão fosse fruto da pressão do governo ou de um pacto.

Mas a ordem veio depois que Fazlullah se reuniu com o representante do governo no distrito de Malakand, Mohamed Javed. O detalhe é significativo, porque Javed é encarregado de supervisionar a área de aplicação do acordo feito em fevereiro entre as autoridades e os taleban para pôr fim a dois anos de confrontos no vale de Swat, em troca de instaurar a lei islâmica ou sharia.

Vários analistas paquistaneses acusaram Javed de conivência com os taleban e testemunhas citadas pela imprensa local afirmam que ele tentou convencer os habitantes de Buner a não se opor ao avanço dos extremistas.

Há duas semanas o presidente Asif Ali Zardari assinou a lei que introduz a sharia em Swat. Com seu avanço para Buner, os taleban quiseram lembrar que o pacto cobre os seis distritos do que até 2000 foi a divisão de Malakand (Chitral, Dir, Swat, Buner, Shangla e o atual Malakand), feudos que só se incorporaram em 1969 ao que era então o Paquistão Ocidental. "Os taleban nos afirmaram que vão deixar de patrulhar na região de Malakand", declarou Javed à agência de notícias France Presse. "Também prometeram não voltar a intervir nos assuntos do governo."

Os extremistas já fizeram a mesma promessa depois da promulgação da lei islâmica. No entanto, não só não entregaram as armas, como estabelecia o acordo, como proclamaram sua intenção de estender a xariá a todo o país. Apesar das declarações de firmeza pronunciadas ontem pelo primeiro-ministro, Yusef Raza Gilani, e pelo chefe do exército, general Ashfaq Pervez Kayani, o governo mobilizou apenas algumas centenas de forças paramilitares em Buner. Além disso, grupos de taleban começaram a aparecer em vários distritos vizinhos, segundo testemunhos de seus habitantes. Por isso as autoridades não conseguiram eliminar os temores de que não estão fazendo o suficiente para acabar com a ameaça extremista.

A crescente influência taleban no norte do Paquistão, junto com a perda de controle do governo de Islamabad na área, fizeram soar todos os alarmes no Ocidente sobre a estabilidade do país, o único de população muçulmana que possui uma arma atômica. As autoridades paquistanesas devem tomar medidas para "neutralizar a ameaça" taleban, disse o secretário de Defesa americano, Roberts Gates, na base de Camp Lejeune (Carolina do Norte), onde se despediu de um grupo de fuzileiros navais que partia para o Afeganistão. Gates explicou que muitos dirigentes paquistaneses têm consciência da ameaça taleban, mas acrescentou que isso não é suficiente. "Devem atuar", insistiu Gates.

"A estabilidade e a duração do governo democrático do Paquistão são fundamentais para os esforços da coalizão no Afeganistão e também para nosso futuro entendimento com o governo de Islamabad", afirmou Gates. "Queremos apoiá-los. Queremos ajudá-los da maneira que pudermos. Mas é importante que reconheçam as ameaças que enfrentam", disse o chefe da Defesa.

A gravidade da situação é tamanha que, segundo fontes da Casa Branca, o enviado especial para a região, Richard Holbrooke, manda vários relatórios diários detalhando a evolução dos acontecimentos ao Departamento de Estado. O Congresso se prepara para votar uma lei que dará ao Paquistão US$ 7,5 bilhões em ajuda civil nos próximos cinco anos. Alguns se perguntam se devem dar mais dinheiro ao Paquistão, que recebeu US$ 11 bilhões de ajuda com fins militares desde 2001.

Do Afeganistão, o chefe do estado-maior conjunto americano, almirante Mike Mullen, declarou-se extremamente preocupado com o fato de os taleban estarem cada dia mais próximos de Islamabad. "Estamos chegando ao ponto de inflexão" em que o Paquistão poderia ser tomado pelos extremistas.

Diante das críticas dos EUA, o principal diplomata paquistanês no Reino Unido reagiu com dureza à estratégia de Washington para o Afeganistão e o Paquistão, e defendeu a bênção de seu país à imposição da lei islâmica no noroeste do país.

Wajid Shamsul Hasan afirma que o plano do presidente Barack Obama para lutar contra a insurgência afegã - que inclui o vizinho Paquistão - é a "estratégia equivocada". "O Paquistão é um país semidesenvolvido e o Afeganistão não está absolutamente desenvolvido. Nunca viveu sob o domínio da lei (...) Não é possível associar os dois países", disse Hasan. E acrescentou: "Nunca permitiríamos que o território paquistanês caísse nas mãos de ninguém".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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