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28/04/2009

Gripe suína: o medo aterrissa no México

El País
Pablo Ordaz No México
As autoridades cogitam a possibilidade de paralisar a cidade, incluindo o metrô, os ônibus e o aeroporto

A Cidade do México está em silêncio, escutando a si mesma, sentindo o ritmo de sua respiração por baixo dos pedaços de pano azul. Nessa cidade, que não se amedronta com nada e com ninguém, começa-se a notar o medo nos olhos. Somente nos olhos. Porque o sorriso, que é seu orgulho e chamariz turístico, há dois dias está sepultado embaixo de máscaras usadas por quase todos, desde os guardas de trânsito até os imutáveis mariachis noturnos da praça de Garibaldi.

O medo vai aumentando não apenas junto com o número de mortos, mas também à medida que os mexicanos vão vendo na televisão que o mundo inteiro está preocupado com o que está acontecendo aqui, pela propagação do maldito vírus da gripe suína.

Os mexicanos - é o que dizem as pesquisas e o que qualquer um que saia na rua pode atestar - têm uma desconfiança congênita diante da informação oficial. Não é culpa do governo atual. Ou pelo menos não somente dele. O fato é que, nos primeiros momentos, o anúncio do surto foi deixado de lado por boa parte da população. Na sexta-feira (24), somente algumas horas depois que a palavra "influenza" [gripe, em inglês] chegou para ficar, as pessoas continuaram tocando suas vidas como se nada estivesse acontecendo.

Mas no domingo já foi diferente. O chefe do governo do Distrito Federal, Marcelo Ebrard, não era capaz de disfarçar sua preocupação. Anunciou que nas últimas horas haviam ocorrido mais cinco mortes em diferentes hospitais da cidade. E que, em uma escala de 1 a 10, o estado de alerta já estava no número 8. E isso, só na parte da manhã...

O presidente do México, Felipe Calderón, apareceu muito sério na televisão para pedir mais uma vez por calma. Insistiu que o governo federal dispõe de vacinas suficientes - serão suficientes um milhão de vacinas em uma cidade de 20 milhões de habitantes, em um país com 100 milhões? - , mas em seguida se pôs a detalhar as medidas de precaução como se fosse um médico. Uma a uma, sem pular nenhuma. Lavar as mãos, usar máscara, evitar aglomerações, limpar com cuidado as maçanetas das portas e as torneiras. É claro, nada de beijos ou de dividir a colher ou o garfo com um possível transmissor do vírus. Algo também fundamental: "Procurar um médico assim que perceber os primeiros sintomas. Foi provado que há muitas chances de salvar aqueles que procuram ajuda logo".

Mas, como poderiam procurar ajuda logo aqueles que, uma semana atrás, se sentiram mal sem saber que um vírus assassino andava à solta pela cidade? Os vizinhos do México estão começando a juntar as peças e deduzir que algumas estranhas mortes ocorridas há 15 ou 20 dias podem ter sido consequência da gripe. Mas até quinta-feira passada à noite, ninguém avisou nada. Somando-se a isso o fato de que a cifra oficial de baixas inclui apenas os falecidos a partir do dia 13, então qual o real alcance da epidemia?

O que se sabe é que o grupo de risco, que inicialmente as autoridades haviam limitado às crianças e aos idosos, inclui toda a população. As poucas identidades que se vão conhecendo correspondem, na verdade, a pessoas jovens, cheias de saúde até que foram atingidas pela gripe suína.

Um deles se chamava Jorge Francisco Guzmán Juárez, de 24 anos. Passou menos de uma semana desde que começou a se sentir mal até que faleceu, ontem (27). Sentiu dor de estômago, calafrios e febre. Foi atendido por um médico que só lhe receitou um remédio para dor de barriga. Quando seus familiares o levaram ao hospital, ele já chegou inconsciente.

À espera de novos dados dos falecidos, o que já parece claro é que o chefe do governo do Distrito Federal, Marcelo Ebrard, está cada vez mais inclinado a paralisar a cidade por completo. Seria a primeira vez na história. O metrô e os ônibus podem deixar de funcionar nas próximas horas, e as autoridades federais cogitam a possibilidade de fechar o aeroporto. Os colégios estão fechados até o dia 6 de maio. Os aviões já chegam quase vazios. Mas, se de repente pararem de chegar, esta cidade conhecerá um medo novo, impensável. O de ficar isolada de um mundo que, bem ou mal, sempre faz escala aqui.

Tradução: Lana Lim

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