UOL Notícias Internacional
 

29/04/2009

Em entrevista, Correa propõe unir as reservas dos países da América Latina

El País
Soledad Gallego-Díaz e Daniela Creamer Em Quito
"Há 50 mil equatorianos desempregados na Espanha e, é claro, se todos voltarem não poderemos atendê-los. Agora regressam cerca de 5 mil famílias por ano; estamos nos preparando para que essa tendência aumente para 8 mil ou 10 mil. Também tentamos lhes dar lá todo o apoio legal possível, para garantir seus direitos e que tenham na Casa Equatoriana um lugar de encontro, de vínculo com sua pátria e sua cultura. Mas evidentemente é um problema muito grave e não podemos resolver o desemprego na Espanha." O presidente do Equador, Rafael Correa, reeleito por maioria avassaladora, recebe "El País" em uma saleta do palácio presidencial.

El País - A Espanha sofre uma crise econômica muito forte, com 4 milhões de desempregados. Como isso pode afetar os investimentos espanhóis no Equador?
Rafael Correa -
Não só a Espanha está sofrendo os efeitos da crise. Graças a Deus, aqui no Equador temos uma política fiscal anticíclica. Conseguimos conter em grande parte os efeitos da crise, apesar de ela nos ter golpeado de maneira tripla. Porque não se trata só da perda de mercados de exportação, de baixo investimento e financiamento difícil, como que, devido ao desemprego na Espanha, despencaram as remessas dos emigrantes, e o petróleo também caiu. Quanto aos investimentos espanhóis no Equador, infelizmente não são muito significativos, não têm nada a ver com os investimentos na Colômbia. Espero que isso mude, porque não entendemos. O Equador é uma ilha de paz e a Colômbia é uma região bastante conflituosa. Em todo caso, creio que os maiores investimentos espanhóis não serão afetados. São empresas bastante sólidas, que inclusive apresentaram um programa de investimentos, que estão cumprindo. Refiro-me à Repsol e à Telefónica.

EP - Fala-se em um eixo entre Venezuela, Bolívia e Equador. Do seu ponto de vista, existe esse eixo?
Correa -
Qual é o problema se existisse um eixo? Temos excelentes relações com todos os países da região. Provavelmente eu viajei mais ao Brasil que à Venezuela. Viajei ainda mais para a Argentina. Se quiserem procurar eixos, que procurem. O fato de existir um não tem nada de ruim, mas explicitamente não existe nenhum. Fala-se muito e se confunde populismo com popular. Me relacionam com Chávez; qual é o problema? Zapatero não tem relações com Berlusconi? Que vergonha!

EP - Falemos sobre sua vontade de criar uma arquitetura financeira regional...
Correa -
É algo que venho propondo há tempo e já está se concretizando. O que a América Latina viveu é um completo absurdo, fruto entre outras coisas do neoliberalismo, porque nos anos 1990 tornaram autônomos todos os bancos centrais. Não existe nenhuma razão técnica, teórica, para isso, mas se empenharam para que com bancos centrais autônomos tudo andasse melhor. Foi uma grande falsidade. Eram autônomos de nossas democracias, mas muito dependentes de burocratas internacionais. Esses bancos centrais manipulam nossas reservas monetárias e as investem no exterior, no Primeiro Mundo. E a América Latina tem mais de US$ 200 bilhões para financiar os EUA e a Europa. Isso é um absurdo.

EP - O que o senhor propõe então?
Correa -
Trazer essas reservas, fazer um Fundo de Reservas do Sul que sirva para respaldar as moedas nacionais, as crises de balanças de pagamento e as crises fiscais. Além disso, com todos os países unindo reservas, são necessárias menos reservas por país e pode-se ter mais segurança. É isso que estamos propondo à América Latina. O Banco do Sul financiado com fundos da região vai entrar em operação agora mesmo. Temos de nos tornar independentes de tudo isso. Assim, os pontos da estratégia regional são: o Banco do Sul, o Fundo Regional de Reserva do Sul e uma moeda regional, que pode começar por uma moeda eletrônica, com sistemas de compensação, uma espécie de unidade contábil, como era o ECU. Isso é o que está sendo demonizado aqui. E é isso que já começamos. Assinamos há duas semanas com Venezuela, Nicarágua, Bolívia, Paraguai e os países do Caribe.

EP - A economia equatoriana continuará dolarizada?
Correa -
Eu sempre disse que vou manter a dolarização. Mas também disse que em bom momento nos chegaria uma moeda regional, como existe na UE. Isso é o melhor que poderia acontecer à América Latina. As pessoas estão assustadas, pensando que queremos sair da dolarização. Mas qual é o objetivo? A dolarização, ou o progresso de nossos países? Que melhor que conseguir uma moeda latino-americana?...

EP - Seu encontro recente com o presidente americano foi muito cordial. Acredita que melhoraram as relações com os EUA?
Correa -
Como sempre, as relações foram em um quadro de muito respeito. Sempre tive relações muito cordiais, inclusive quando Bush estava no governo. Não compartilhamos sua política externa, é claro. Mas creio que a Cúpula das Américas marcou um feito nas relações com os EUA, basicamente devido à atitude pessoal do presidente Obama. Muito aberto, cordial, muito interessado no problema da região, o que nos faz supor uma mudança importante na relação da América Latina com os EUA.

EP - Dá a impressão de que o Brasil, uma potência econômica impressionante, está adotando certa liderança na América Latina...
Correa -
Não há dúvida. Apesar de sermos países iguais, soberanos, ninguém pode duvidar da importância do Brasil na América Latina. É uma das dez maiores economias do mundo, por isso adota uma liderança. Em boa hora, desde que seja no âmbito do mais profundo respeito pelos demais países da região, que é o que sempre houve por parte do presidente Lula.

EP - Em seu discurso depois da vitória eleitoral, o senhor disse que havia a possibilidade de um acordo nacional, mas que não falaria com Lucio Gutiérrez nem com Álvaro Noboa.
Correa -
Qual é a ideologia da Sociedade Patriótica? É um amálgama de ambições pessoais. Qual é a ideologia do PRIAN? Um partido formado por um magnata equatoriano que não paga impostos. Além de não falar com esses dois partidos, não vou falar com Lucio Gutiérrez pessoalmente. Nem com Álvaro Noboa. Seria como trair meus eleitores.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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