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30/04/2009

Qual a possibilidade de usar remédios "amnésicos" para eliminar recordações?

El País
Javier Sampedro
Utilizar remédios "amnésicos" para eliminar recordações parece possível, pela primeira vez. Uma molécula demonstrou em ratos que é capaz de fazê-los esquecer tudo, desde experiências prazerosas até as desagradáveis

Talvez não seja possível mudar o passado, mas por que não negá-lo? Todo mundo já tentou. Os imperadores chineses, destruindo a arquitetura da dinastia anterior; Newton, riscando todas as referências a Hooke de seus próprios livros; os vencedores escrevendo os livros de história. Utilizar medicamentos amnésicos para apagar as lembranças traumáticas não é uma ideia nova, mas até agora nunca houve uma molécula como a ZIP.

ZIP é um inibidor de uma enzima (catalisador biológico) cerebral chamada PKM z. Nas provas com ratos, uma única dose de ZIP se mostrou capaz de eliminar completamente a lembrança concreta que o animal tinha reativado naquele momento. Pode se tratar de uma habilidade motora prazerosa, uma associação emocional desagradável ou um conhecimento espacial sem maiores implicações emocionais. O ZIP a apaga.

Os últimos trabalhos acabam de ser publicados [Science 323: 1492 (2009); Learn Mem 29:122 (2009); Phil. Trans. R. Soc. B 364, 1255 (2009)], mas partem de uma longa colaboração entre os pesquisadores da memória Todd Sacktor, da Universidade Estadual de Nova York, no Brooklyn, e Yadin Dudai, do Instituto Weizmann de Rehovot, Israel. Os cientistas acreditam que o mecanismo seja idêntico no ser humano.

O que você apagaria de sua memória? Talvez um fato repulsivo e traumático, como uma violação; talvez uma associação inconveniente, como um vício. Mas então por que não cortar direito e apagar toda a recordação desagradável? Os castigos que sofreu quando criança. Os golpes, os reveses, as decepções. Os delitos, se a pessoa for criminosa, e as condenações subsequentes. Ou talvez fosse melhor usar o ZIP para apagar as lembranças dos outros, as do censor irritante e da testemunha inoportuna.

"As memórias amadurecem com o tempo, como os órgãos", afirma Yadin Dudai. Esse processo se chama consolidação de trajeto, e até pouco tempo atrás era considerado um fenômeno irreversível. Uma vez consolidadas, as lembranças são consideradas estáveis e muito resistentes a ataques de qualquer tipo.

Mas nos últimos anos o dogma caiu sob o peso da evidência. "O ponto majoritário no campo neste momento", diz Dudai, "é que as lembranças arquivadas se tornam vulneráveis a diversos agentes amnésicos pelo menos em dois momentos muito definidos: imediatamente depois de codificá-los na memória de longo prazo e imediatamente depois de decodificá-los para recuperá-los dela". Se o atacam em um arquivo, certamente é a entrada ou a saída.

ZIP é um agente altamente específico. Ataca só a memória chamada "declarativa", por oposição à "implícita". A memória declarativa arquiva fatos, dados a que podemos nos referir com uma oração declarativa. É o que costumamos entender por memória na linguagem comum. A memória implícita, pelo contrário, refere-se a procedimentos, habilidades, ritmos, emoções, e é completamente imune ao efeito apagador de ZIP.

O jornal "The New York Times" resenhou há alguns dias o trabalho dos cientistas do Brooklyn, e o experimento recebeu algumas críticas curiosas. Os argumentos contra alegam, por exemplo, que as causas justas costumam se basear no sofrimento comum das pessoas que as adotam; se as pessoas se fazem apagar essas memórias de dor, acabou-se a causa. Outros preveem que o apagamento será utilizado para a corrupção, o lucro e a manipulação sexual. Seria possível?

Uma mulher que viu sua filha morrer de uma doença lenta e penosa se pergunta: "Foi traumático? É claro que sim. Eu gostaria de apagar essa memória do meu cérebro? Não, por nada no mundo". A maioria das pessoas evitaria a dor no presente, mas não necessariamente a eliminaria de seu passado.

As experiências dolorosas são uma parte essencial da formação e da biografia de um indivíduo. Uma vida é a mesma depois de eliminar sua recordação? Sem ir mais longe, como lembraríamos as experiências agradáveis sem dispor dessa referência? E outra coisa: ao apagar o rosto de quem o enganou, a pessoa lhe dá permissão para voltar a enganá-la. Sobretudo se ele também tomou ZIP.

Mas apagar memórias é algo muito mais habitual do que parece. O psiquiatra austríaco Eugen Bleuler, nas primeiras décadas do século passado, baseou-se em seus pacientes amnésicos e nos experimentos da época com animais de laboratório para propor que a gravidade da perda da memória não dependia do lugar do dano cerebral, e sim do tamanho global do dano. É o que depois foi chamado, um tanto pomposamente, de "lei de massas" da neurologia: que a memória não está localizada em nenhum lugar concreto, mas distribuída por amplas áreas do córtex e outras regiões cerebrais.

Em um tipo comum de amnésia - a retrógrada -, o paciente esquece os fatos anteriores ao dano cerebral, isto é, dados que foram arquivados quando o cérebro funcionava bem. A causa da amnésia, portanto, não tem qualquer relação com o sistema de armazenagem (ou codificação) na memória, mas com o de recuperação. O mesmo que o ZIP atacaria, só que em geral danificado, e não para uma só lembrança.

Na realidade, tanto este como outros tipos de amnésia são interpretados atualmente como uma aceleração do mecanismo natural do esquecimento. E o mecanismo natural do esquecimento ocorre no mesmo ponto crítico onde o ZIP atua: no momento da decodificação, a saída do arquivo.

Todos experimentamos conscientemente esses momentos de decodificação: é quando temos algo "na ponta da língua". São momentos de inquietação. Temos a garantia de que nosso cérebro pode arquivar certas informações durante décadas. Mas não temos nenhuma de poder retirá-las do arquivo no instante preciso.

Que a pasta se digne ou não a sair do arquivo depende muito do contexto, incluindo o entorno físico. "Mas será possível que não me lembro do nome dessa pessoa?", é uma situação que costuma ocorrer fora de contexto: dois vizinhos que se encontram em um museu, por exemplo. Faltam pistas sensoriais, que são as que distinguem uma lembrança concreta de seus milhares de concorrentes, todas feitas de elementos muito parecidos. Essas pistas são as "marcas de recuperação" da lembrança.

O neurologista Endel Tulving, da Universidade de Toronto, desenvolveu essas ideias estudando um famoso paciente de amnésia anterógrada, que não lembra as coisas que lhe ocorrem desde que sofreu o dano cerebral em 1981, em um acidente de moto quando tinha 30 anos.

A memória é instável, maleável e muito mais manipulável do que gostaríamos de pensar, e do que os cientistas acreditavam até poucos anos atrás. A líder reconhecida nesse campo é a psicóloga Elizabeth Loftus, da Universidade da Califórnia em Irvine. Loftus se especializou em implantar falsas memórias nas pessoas: consegue de forma rotineira que os estudantes de seus experimentos lembrem que se perderam quando pequenos durante compras, foram internados por causa de uma infecção no ouvido, fizeram ridículo em um casamento da família ou presenciaram uma possessão diabólica. E sem medicamentos.

A técnica é sempre semelhante. Consiste em recrutar os estudantes com alguma desculpa, talvez um estudo sobre a memória, mas isso é o de menos. Às vezes os psicólogos manobram para se inteirar, através dos pais dos voluntários, de alguns dados sobre sua infância, para depois misturá-los com os dados falsos e ganhar credibilidade. Mas Loftus demonstrou que isso também não é necessário. Basta misturar as falsidades com dados verossímeis válidos para todo mundo.

Em geral, durante uma primeira entrevista com os cientistas, todos os estudantes desmentem as falsas lembranças, como é natural. Depois os psicólogos lhes mostram a mistura de mentira e verdade, ou de mentira e trivialidade, com qualquer pretexto. E alguns dias depois lhes fazem uma segunda entrevista. Uma porcentagem espantosa, próxima de 30% em muitos experimentos, lembra a história falsa na segunda entrevista. Segundo Loftus, o segredo para implantar uma falsa memória em uma pessoa é acrescentar marcas de tato, sabor, odor e som, as pistas que identificam uma recordação entre suas concorrentes.

Loftus também analisou a confiabilidade das testemunhas em casos judiciais, tanto nos tribunais da Califórnia quanto em situações experimentais. Seus dados mostram que a memória de uma testemunha pode ser distorcida pelo mero fato de ler um jornal com fotos de um suspeito.

A lembrança da notícia e a do homem que a testemunha tinha visto se sobrepõem em sua mente como um objeto coerente e vívido, com todo o realismo. Inclusive a forma como uma testemunha é interrogada pode afetar sua memória dos fatos, segundo os dados da psicóloga americana.

O saber ocupa um lugar. Parece que recordar "Byron, Bécquer e Baudelaire" deveria ser mais difícil que lembrar "casa, noite e pedra", mas acontece exatamente o contrário. "Poetas que começam pela mesma letra" é um presente que o pesquisador nos faz para nos ajudar a arquivar a lista. Os três poetas, no entanto, logo depois perdem essa vantagem se na continuação nos apresentarem Coleridge, Cocteau e Cernuda, depois Machado, Marlowe e Mallarmé, depois Hugo, Hughes e Hernández... E não é mero cansaço, porque se logo aparecerem Chekov, Chandler e Chesterton, nossa capacidade de retenção recupera todo o seu poder inicial.

Em geral, todo novo aprendizado interfere com a retenção das velhas memórias (inibição retroativa). E as coisas memorizadas no passado interferem com a retenção do novo aprendizado (inibição proativa). Os dois fenômenos são muito acusados: a capacidade de retenção de uma lista de nomes, medida ao se repetir o exercício durante dez dias consecutivos, pode chegar a cair de 80% no primeiro dia até 20% no décimo dia.

No ano 471 a.C., o poeta grego Simonides de Ceos estava jantando com 30 ou 40 pessoas na casa de um importante ateniense quando o edifício desmoronou. Simonides conseguiu compilar de memória uma lista impecável das 30 vítimas graças a um truque: lembrar onde cada uma estava sentada durante o jantar. Assim inventou a mais célebre estratégia mnemotécnica: a rota, ou o passeio mental, que consiste em imaginar um trajeto que a pessoa conheça muito bem e colocar cada palavra em um de seus pontos mais notáveis.

Os traços associados às lembranças são esquecidos em velocidades muito diferentes. Os auditivos são os mais efêmeros e os visuais, os mais robustos. As pessoas com uma memória excepcional são uma ilustração inesperada desse fenômeno. Londres realiza todos os anos um campeonato mundial de memória, cujos ganhadores poderiam perfeitamente ganhar a vida em um circo, sem nenhum problema. Eleanor Maguire, do University College dessa cidade, aproveitou a circunstância para analisar dez deles e compará-los com os sujeitos comuns.

Os vencedores do concurso não têm uma inteligência excepcional nem qualquer capacidade cognitiva extraordinária, seja ou não do tipo verbal. Mas quando os cientistas registraram o funcionamento de seu cérebro enquanto estavam memorizando listas de palavras, puderam ver uma diferença clara dos indivíduos de controle: eram ativadas três zonas chamadas córtex parietal medial, córtex retrosplenial e hipocampo posterior direito. As três têm funções essenciais na memória, mas não na memória verbal e sim na espacial. O passeio mental de Simonides.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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