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04/05/2009

50 anos de discos para ilhas desertas

El País
Íñigo López Palacios Em Madri
A lendária gravadora Island, que descobriu Bob Marley e o U2, completa meio século de reinado pop

Na primeira vez que Chris Blackwell cruzou com um rastafári, sua visão sobre os praticantes da religião caribenha mudou, lembra-se com tranquilidade o fundador da Island Records, em seu refúgio jamaicano.

A gravadora, que tem a discografia mais importante da história do pop, completa este ano seu 50º aniversário como descobridora infalível de talentos como os de Bob Marley, U2, Nick Drake ou Amy Winehouse. "Meu barco ficou sem gasolina e eu estava prestes a bater contra os recifes", continua. "Apareceu um pescador numa canoa, e ele não só me salvou a vida, mas também me acolheu em sua cabana. Até então eu acreditava naquilo que diziam deles: que eram assassinos e ladrões, uma reputação injustificável, mas enraizada tanto entre a população branca quanto entre a negra".

Anos depois, em 1972, em seu escritório em Londres, recebeu uma visita surpresa. Um homem chamado Bob Marley. "Ninguém queria trabalhar com ele. Tinha fama de rebelde, de incontrolável. Queria gravar um disco comigo. Eu dei a ele quatro mil libras. Nunca pensei que alguma coisa sairia daquilo, mas quatro meses depois ele voltou com "Catch on fire". Aquele clássico do reggae foi o começo da carreira do homem que logo seria o rastafári mais famoso do mundo, com mais de 50 milhões de discos vendidos. Um ícone revolucionário do século 20, à altura de Che Guevara. "Havia magia nele. Era muito calado e muito sério, mas tinha uma aura poderosa. Ele me impressionou. Mas a princípio seus discos não vendiam muito. Entretanto, a reação das pessoas quando os viam ao vivo era incrível. Foi nos shows que eles fizeram sua reputação".

Blackwell se desfez da Island Records em 1989, na época em que a gravadora já havia se tornado lendária. "Não foi uma decisão fácil vendê-la à Universal, mas ela havia se transformado em algo grande demais. Nunca gostei das estruturas corporativas. Eu montei a Island em 1959 porque gostava de música e de tudo o que a rodeia. Não entrei nisso como um homem de negócios, mas como um fã".

Estas são as palavras da pessoa mais influente da indústria musical do Reino Unido nos últimos 50 anos, segundo a prestigiada revista Music Week. "É gratificante, mas não merecido". As escolhas de Blackwell são lendárias e seu catálogo interminável. Além de ser um grande selo de reggae com Jimmy Cliff, Burning Spears ou Black Uhuru, a gravadora incluía nomes como Cat Stevens, Fairport Convention, Nick Drake, Traffic, Tom Waits, Robert Palmer, B 52's e uns jovens irlandeses chamados U2. "Bono também tinha aura. Lembro claramente que sua música não me convenceu, mas ele tinha uma determinação de vencer tão forte que não me restavam dúvidas de que chegariam muito longe. Nem sempre se acerta: Mike Scott, do Waterboys, tinha muito talento, mas seu caráter era tão difícil que ele o desperdiçou".

Filho de um irlandês e uma costa-riquenha de origem sefardita, Blackwell não oculta suas raízes espanholas. "A família da minha mãe era de judeus espanhóis que vieram às Índias ocidentais no século 15. Ela nasceu na Costa Rica, mas não falava espanhol porque seus pais e avós eram jamaicanos", conta.

Nascido em 1937 em Londres, depois de uma primeira infância caribenha, aterrissou no Reino Unido para estudar em 1945. "Ser uma criança na Jamaica nos anos 40 era muito bonito. A Inglaterra era um lugar frio. Logo após o fim da 2ª Guerra Mundial, lembro de tudo em branco e preto". Decidido a não pisar na Universidade, voltou à Jamaica, onde teve os empregos mais variados: desde professor de esqui aquático até ajudante do governador da ilha. ("Eu me limitava a abrir a porta do carro e coisas assim".)

Em 1962, quando a Jamaica declarou independência, mudou-se para o Reino Unido. Tinha nacionalidade britânica. "O que fiz foi vender discos jamaicanos na Inglaterra". Um golpe de sorte transformou um deles, "My boy lollipop", de Millie, num sucesso. "Fiquei conhecido no ambiente comercial. Uma coisa levou à outra e de repente eu estava no meio da cena cultural britânica".

Então começou sua idade de ouro. Retirado numa chácara em Kingston, Blackwell não sente falta da indústria. Nem sequer tem muito interesse em participar da comemoração que os novos donos planejaram para o 50º aniversário, que incluem uma semana de concertos em Londres, a partir de 26 de maio, com cantores e bandas que ele lançou como Cat Stevens e Toots & The Maytals, e também outros nomes contratados depois de sua saída como Amy Winehouse ou Keane. "A Island ainda é um nome comercial e tenho orgulho disso, porque já faz muito tempo que a vendi. Mas na verdade, preferiria uma celebração mais privada e simples".

Tradução: Eloise De Vylder

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