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05/05/2009

Gripe suína mede a desigualdade mundial

El País
Javier Lafuente Em Madri
Países em desenvolvimento sofrerão mais a pandemia

Algo se propagou em todo o mundo muito mais depressa do que o vírus H1N1: as dúvidas, as incógnitas de todo tipo. Uma delas é saber se o mundo está preparado para uma pandemia. Em geral, acontecerá o óbvio: os países ricos encaram melhor esta crise. No entanto, o caso do México e, em menor medida, por enquanto, de algumas economias poderosas da Ásia, evidenciam que é preciso aprofundar-se muito em melhorar a cultura sanitária nas áreas de maior desigualdade.

O trabalho realizado entre 2003 e 2005 depois da ameaça de pandemia da gripe aviária viu seus frutos cinco anos depois. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estabeleceu as linhas básicas a partir das quais se deveria proceder. Os países que a seguiram contam com protocolos para atuar nesses casos. Uma preparação, no entanto, que continua em falta no Terceiro Mundo e em países em desenvolvimento. Ou pior, que mesmo tendo essa disposição não contam com um sistema de saúde capaz de enfrentar a pandemia.

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  • Gregory Bull/AP

    Mulher e criança usam máscara de proteção em estação de metrô na Cidade do México



Na última quinta-feira, o jornal "The Wall Street Journal" afirmou que, em termos materiais, o Reino Unido é um dos países melhor preparados para enfrentar a pandemia. Em conjunto, conta com antivirais suficientes para tratar 33 milhões de pessoas, 54% da população. A França também conta com reservas para atender a uma porcentagem semelhante da população. A ministra da Saúde espanhola, Trinidad Jiménez, confirmou que a Espanha conta com uma provisão de 10 milhões de antivirais.

Na Ásia, é o Japão, com um estoque de medicamentos suficiente para tratar 24% da população, o país que encabeça a lista. Mesmo assim, especialistas consultados creem que se a virulência do vírus for maior, inclusive os sistemas sanitários dos países mais desenvolvidos poderiam ser insuficientes e ineficazes.

A questão não é, portanto, quem tem mais ou menos antivirais. "O número de existências não é necessariamente equivalente ao grau de preparação", adverte a espanhola María Neira, diretora do Programa de Saúde Pública e Meio Ambiente da OMS. A Índia, por exemplo, poderia ter uma capacidade econômica suficiente para enfrentar a pandemia, mas carece de infraestrutura para atender a milhões de pessoas.

Alguns países da Ásia, os da África subsaariana e certos grupos populacionais da América Latina serão os mais afetados. No domingo, o governo colombiano confirmou o primeiro caso de um afetado na América do Sul. Nessa região geográfica, a mais desigual do mundo, alguns países deram ou podem dar uma resposta rápida e eficaz a uma situação como a vivida. Mesmo assim, poucos governos divulgaram suas reservas de antivirais. "Não têm o que oferecem. Só dizem que é suficiente para tranquilizar a população, mas estão jogando com a sorte. É muito grave", afirma Rafael Orihuela, ex-ministro da Saúde da Venezuela, especialista em medicina preventiva.

A América Central, por sua proximidade com o México e porque costuma enfrentar em maio épocas de chuvas torrenciais, teme o que possa acontecer. Na Nicarágua, onde 60% da população não têm acesso à água potável e muitas famílias vivem isoladas, os alarmes soaram desde o primeiro momento. O país é um claro exemplo de como o vírus pode ser devastador se chegar a lugares pobres. Seu presidente, Daniel Ortega, admitiu que só tem tratamentos para 3 mil pessoas. Silvio Morales, especialista em epidemiologia e diretor de um hospital de Manágua, afirma que se o vírus se propagar pelo menos 20% dos afetados teriam de ser hospitalizados, criando uma espiral perigosa: a capacidade dos hospitais transbordaria e o número de mortes dispararia. "A Europa pode nos mandar antivirais, material médico... agradecemos eternamente, mas não nos enganemos, esse não é o problema. Transformar a educação sanitária é uma questão cultural."

No caso da Espanha, a Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (Aecid) não prevê por enquanto uma ajuda estratégica, quer dizer, enviar profissionais para as partes do mundo que necessitem. "Mas não o descartamos; estamos esperando", explica Elena Madrazo. Diretora da Aecid. Até agora a Espanha enviou ao México 65 mil máscaras e 6 mil óculos de proteção individual. Também aprovou uma remessa de € 80 mil solicitada pela Organização Pan-Americana de Saúde (Opas). "Não há um limite estabelecido para a cooperação", salienta Madrazo.

Embora ainda não tenha sido registrado qualquer caso possível da nova gripe, o continente africano é o mais vulnerável. Por isso alguns países tomaram medidas preventivas radicais. O Egito, por exemplo, mandou sacrificar todos os porcos, uma decisão que acarretou graves distúrbios em cidades como o Cairo.

Na África, o escritório regional da OMS conta com aproximadamente um milhão de tratamentos, embora se dê por certo que, caso chegue o vírus, será preciso recorrer às reservas dos países mais desenvolvidos. A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) pediu que se dê ênfase às pessoas que já sofrem alguma doença - desnutrição, malária -, pois seriam as primeiros afetadas.

Que o vírus sofra mutação e tenha uma virulência maior é o pior cenário possível. "Não é momento para previsões. É preciso trabalhar com diversos cenários, mas com precaução e evitando especulações", pede Neira.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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