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05/05/2009

Transformação do Sendero Luminoso em narcoguerrilha faz Peru temer por "colombianização"

El País
Jaime Cordero Em Lima
A transformação do Sendero Luminoso em uma "narcoguerrilha" obriga o governo a revisar sua estratégia de defesa. Os "narcos" mataram 50 militares em um ano

Da guerrilha Sendero Luminoso restam o nome e pouco mais. O grupo maoísta que impôs o terror no Peru durante a década de 1980 e parte da de 90 não é mais um movimento político que pretende tomar o poder por meio da revolução; hoje ele é um bando dedicado ao narcotráfico. Onde um dia hasteou a bandeira da esquerda mais radical, hoje planta coca. A narcoguerrilha acampa à vontade em dois grandes vales na selva, o de Huallaga no norte e o dos rios Apurimac e Ene no sudeste do país. Ambas são as áreas de maior produção de coca, a base da cocaína. Dois territórios complexos que os senderistas conhecem como ninguém.

"Não há um ressurgimento do Sendero Luminoso", afirma Jaime Antezana, sociólogo especialista em temas de narcoterrorismo, que enfatiza que o que se vive atualmente no vale de Apurimac e Ene é um novo fenômeno. A partir de 2000, os remanescentes do grupo terrorista se refugiaram nos vales da coca e estabeleceram alianças com os narcotraficantes. "Primeiro foi para proteção, mas paulatinamente os senderistas foram entrando em cheio no negócio da droga", acrescenta. Os narcoguerrilheiros inclusive renegam seu líder histórico, Abimael Guzmán, que está preso. Também mudaram sua atitude em relação aos civis. Já não os aterrorizam, mostram-se colaboradores e usam seu dinheiro para ganhar o apoio de uma população muito pobre, que carece dos serviços mais elementares, como água potável e um mínimo de assistência à saúde. Os manifestos políticos, na opinião de Antezana, servem unicamente "para dar legitimidade a seus atos".

O grande terror que o Sendero Luminoso infunde hoje é que saia dos vales "cocaleiros" e o Peru sofra os níveis de narcoviolência existentes na Colômbia e no México. A impressão geral dos analistas é que a batalha está longe de ser favorável ao governo. Isso apesar de este destinar cada vez mais recursos econômicos e militares a uma região que, segundo definiu o primeiro-ministro Yehude Simon em sua recente apresentação no Congresso, "esteve abandonada nos últimos 15 anos".

"Eu não diria que estamos ganhando a guerra do narcotráfico. Diria que temos de começá-la", admite Rómulo Pizarro, presidente da Devida, o czar antidrogas do Peru. Ele propõe uma estratégia integral de intervenção na zona de conflito, que inclua um controle mais estrito da entrada dos produtos químicos necessários para processar a coca, apoio e assistência técnica aos moradores da área para que se dediquem a cultivos legais. No entanto, seu plano, denominado "de ação rápida", está parado porque o Ministério da Economia não quer desembolsar os 40 milhões de sóis (cerca de € 10 milhões) necessários para implementá-lo.

Nos últimos 12 meses, 50 soldados e policiais morreram em ataques e emboscadas do Sendero. "Se não fizermos algo, crescerão e quando percebermos teremos umas Farc", declarou na semana passada o comandante geral do exército peruano, Otto Guibovich, em entrevista ao jornal "El Comercio".

Depois da última emboscada, ocorrida há pouco mais de duas semanas e na qual morreram 14 soldados, o governo prometeu reforçar sua presença no vale e aumentar os recursos destinados à região. A batalha final contra o Sendero Luminoso é travada em um terreno agreste, no qual só se pode entrar e sair de helicóptero, e para ganhar essa guerra seria necessário muito mais que a mobilização de soldados, algo em que todos concordam, o governo e seus críticos.

Somente no vale de Apurimac e Ene há cerca de 15 mil hectares cultivados de coca, segundo cifras oficiais. Relatórios do Ministério da Defesa e do exército peruano detalham as atividades da guerrilha nessa zona e afirmam que além de manter "estreitos vínculos" com os cartéis da droga participam cada vez mais de todas as fases da produção de cocaína, do cultivo ao transporte, passando pelo processamento. Graças a isso, contam com crescentes recursos e melhores armas. O exército comprovou que têm armas antiaéreas e lança-foguetes com os quais são capazes de derrubar os helicópteros militares, muitos deles antigos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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