UOL Notícias Internacional
 

06/05/2009

O diário de Myrna: uma turista mexicana narra seu calvário em Pequim

El País
Em Madri
Meu voo foi Houston-Pequim, com escala em Newark... o voo em que cheguei aqui em Pequim é o 89 da Continental. Ao aterrissar nos pediram que continuássemos sentados e que passariam para medir nossa temperatura em nossos lugares. Entram totalmente cobertos e começam a passar pelos lugares pedindo nossos passaportes e uma folha que preenchemos durante o voo. Ao chegar a mim, nem sequer tiram minha temperatura, olham meu passaporte e me pedem que desça e me detêm na porta para tirar fotos e vídeos para a mídia local. Foi totalmente humilhante, na frente de todos os passageiros, que os chineses me vejam e tratem como uma empesteada... me fazem descer e me colocam em uma ambulância e me dão um tapa-boca; estive esperando que terminassem de revisar o voo e baixassem outro mexicano e mais tarde um americano. Levam a nós três na ambulância para um laboratório móvel ali mesmo, no estacionamento do aeroporto, e os demais passageiros do avião para o terminal e a saída.

Deixaram-nos ali das 15h30 até as 20h30 e não nos diziam nada, só nos passaram um termômetro (eu tinha 36 graus e meus dois companheiros, 37) e nos fizeram perguntas do tipo: Para que vinham? De onde são? Notam algum sintoma?

Enquanto isso, nós conversamos. O outro mexicano nem sequer foi ao México, ele vive e trabalha aqui há dois anos, esteve nos EUA durante três dias, mas do mesmo modo o fizeram descer porque seu passaporte é mexicano (também não tiraram sua temperatura). Ele conseguiu o telefone da embaixada mexicana em Pequim e nos comunicamos e informamos que nos detinham sem qualquer informação.

De repente vinha alguém (nos separava um vidro) e verificava os papéis e ia embora de novo. Embora tentássemos lhe falar, não nos entendiam, quase ninguém falava inglês, sequer. O americano é um rapaz de 20 ou 22 anos e em sua folha pôs que havia tido tosse há duas semanas, por isso o fizeram descer (dele sim, tiraram a temperatura).

Mantiveram-nos trancados e ninguém vinha nem nada, exceto quando o mexicano batia no vidro com força para que alguém viesse. Depois de um momento vieram e tiraram o mexicano e depois o americano, pensei que os haviam deixado ir (pois de certa forma eu era a única que vinha do Distrito Federal do México, embora não diretamente), mas depois de um momento escutei outra vez que alguém próximo tocava um vidro à distância e contatei por telefone o mexicano; era ele. Só a nos haviam separado de todos.

Às 20:30, aproximadamente, vieram nos buscar e nos colocaram em uma ambulância que foi escoltada por uma patrulha, e o mexicano telefonou de novo para a embaixada, onde lhe disseram que nos levavam para um hotel onde estavam outros em quarentena.

Antes de sair do aeroporto chegamos a outra unidade móvel e dali tiraram outro mexicano, que veio em outro voo diferente do nosso. Levaram a nós quatro para um hotel e depois não nos deixavam entrar. Passamos 30 minutos esperando autorização não sei de quem, e graças a Deus nesse tempo chegou o representante do cônsul mexicano para nos explicar. Acontece que ao lado do hotel há um hospital que é como um centro epidemiológico; nos disse que tinham trancado ali uma família e um casal (todos mexicanos), eles vinham no voo da pessoa que estava infectada em Hong Kong e os buscaram e trouxeram. Por não apresentarem nenhum sintoma, os puseram em quarentena aqui no hotel. Que o governo mexicano estava fazendo todo o possível e que a China queria nos manter sete dias em quarentena. Entramos e ele já não teve autorização para nos acompanhar, nos deu seu celular e desde então está em contato conosco. Está próximo, nos traz comida, um kit de costura, água, gel sanitário, máscaras, nos telefona e conta os avanços e possibilidades etc. Se não fosse pela embaixada mexicana, através dele como contato direto, estaríamos totalmente desinformados.

Deram um quarto para cada um e voltaram a medir nossa temperatura e fizeram mais perguntas. Nas duas vezes que me checaram eu tive 36 graus, e eles a mesma coisa que antes, 37. Entramos e reconhecemos os outros mexicanos que haviam mencionado e graças a Deus também estavam saudáveis, embora mais cansados, é claro, que nós. O hotel está vazio, só estamos os dez mexicanos, periodicamente vêm nos tirar a temperatura e limpar os quartos. Estamos tranquilos, embora incomodados pela forma como fizeram as coisas e o tratamento arbitrário no aeroporto; entregaram meu visto no dia 29 e no Distrito Federal não me informaram sobre uma possível revisão nem nada. Anteontem nossa dúvida era se passaríamos esses sete dias trancados aqui e se depois dessa quarentena nos enviariam para o México ou permitirão continuar nossos itinerários.

Hoje, terça-feira

Continuamos trancados os mexicaninhos, acontece que na segunda-feira levaram o rapaz americano, em princípio acreditamos que o haviam deixado partir, mas acontece que o levaram ao hospital porque tinha "febre" de 37,4. Pobre, que Deus o proteja, porque segundo me contaram os mexicanos que já estiveram no hospital é totalmente sujo (em sua experiência viram sangue em um corrimão, secreções na parede, o banheiro sem papel, cabelos na cama, e lhes deram para comer dois ovos cozidos e uma fatia de pão). Bem... há jornalistas de várias mídias que estiveram nos telefonando para perguntar nossas diferentes experiências, um deles comentou que tentou contatar nossos quartos e as ligações não se completam (por isso espero que as companhias de celulares sejam compassivas conosco na hora dos recibos, rsrs). Graças a Deus a embaixada mexicana, através da mesma pessoa que se portou incrivelmente conosco aqui e a quem estamos muito agradecidos, nos atendeu e manteve informados sobre o que vão sabendo e o que estão fazendo por nós. Na segunda-feira começamos a ver através da Internet como iam acontecendo as coisas no México e o interesse por nosso bem e o tratamento discriminatório que recebemos. No pessoal, e creio que como o resto dos adultos que estão aqui, finalmente você se resigna e pede que tudo passe depressa, entende de certa forma a intenção da China de proteger seu país devido a experiências anteriores, mas não entendemos sua forma de agir tão arbitrária e discriminatória; mas como explicar a um menino de 4 ou 8 anos que precisa ficar trancado? Na segunda-feira fiquei doente de tanto escutar a voz de uma das meninas perguntando a sua mãe: "Hoje vamos poder ver a muralha, não é?" Como explicar a uma criança totalmente saudável que não pode sair do quarto, que precisa ficar com a boca coberta, que não brinque, não corra, não...

Na segunda-feira à tarde fomos caminhar no espaço que não está cercado (porque todo o hotel tem uma cerca ao redor da qual há policiais ou militares cuidando para que ninguém passe para dentro nem para fora), e nisso nos abordou um grupo enviado pelo governo chinês no qual vinha um médico para nos explicar. Nesse momento eu estava atendendo uma ligação de uma rádio mexicana e explicando um pouco minha experiência, quando ele se aproximo e escuto que diziam que por estar no avião em que vinha a pessoa "confirmada" com o vírus deviam passar sete dias em quarentena e observação (que é o que, segundo seus especialistas, o vírus demora para incubar). Então começou minha discussão com eles:

Eu: Então por que eu, se meu voo é diferente?

Médico: Porque você não sabia, mas em seu voo tinha alguém com febre ao seu lado.

Eu: Do meu lado havia um canadense e uma chinesa; qual dos dois tinha febre? O que vi é que estavam muito bem.

Médico: Ou seja, ao seu redor havia um americano e por ora investigamos se está infectado ou não.

Eu: E por que, se há uma possibilidade de contágio, só fizeram descer e trancaram a mim, e não o voo todo, assim como o deles?

Médico: Nem todas as pessoas do seu voo estão em Pequim, estão em diversas cidades da China, mas as colocamos em hotéis e hospitais.

Eu: Mas no meu voo vinham amigos meus e eles não estão em nenhum hotel em que vocês os tenham posto, nem no hospital.

Médico: Onde estão seus amigos? Em que cidade?

Eu: É óbvio que não vou dizer, vão caçá-los e prendê-los como a nós.

Médico: Não existe discriminação para com vocês mexicanos, não sintam isso e tentem nos entender.

Eu: Então em resumo, por que eu tenho de ficar sete dias trancada se o caso do "possível" doente no meu avião não é determinante e por que só eu e não todo o meu avião?

Médico: Não temos todos os dados clínicos, mas lhe informaremos logo.

Eu: Supondo que permanecerei, quando vocês determinarem se essa pessoa tem algo ou não, mas já passaram meus sete dias e não demonstrei nada, poderei continuar meu itinerário de passeio aqui? Ou vão continuar me parando em todos os lugares? (mesma pergunta da família)

Médico: Vocês serão livres na China para passear no tempo que restar de seu visto.

Eles trouxeram brinquedos de presente para as crianças, mas na verdade nem deram atenção, a embaixada mexicana até nesses detalhes se preocupou com eles e já têm muitos brinquedos e filmes, a única coisa que as crianças querem é sair e passear e conhecer (como eu: a bela viagem inesquecível que nos prometeram, rsrs). Seu pai foi muito amável e compreensivo (na minha maneira de pensar, porque não sei se qualquer um teria tido a paciência de ainda agradecer a atenção de vir nos informar e dizer que meus filhos continuarão trancados por vários dias mais) e nos despedimos deles.

Depois, ao voltar e pensar bem nas coisas, há vários pontos que não me convencem:

1. Eu não estava na primeira classe, mas em um dos primeiros assentos da turística, quando vieram até mim, não mediram minha temperatura nem a das pessoas ao meu redor, só viram meu passaporte e me pediram para acompanhá-los: em que momento perceberam que alguém ao meu redor "tinha febre"? Se se supõe que acabávamos de aterrissar.

2. Por que da minha área só fizeram descer a mim, e não aos canadenses, americanos, chineses que estavam perto?

3. Por que, se há uma "possibilidade de contágio" (certamente não confirmada em meu voo), deixam o resto do avião sair e andar por toda a China?

4. Se o americano que se supõe a "possibilidade de contágio" é o rapaz que fizeram descer, entre nós havia uma distância de 15 ou 20 fileiras, ele estava muito atrás, inclusive estava mais para trás que o outro mexicano que fizeram descer do meu voo, por que não fizeram descer os que estavam em volta dele? Ou seja, em volta do outro mexicano havia outro "possível"? E por que só fomos baixados os dois mexicanos e esse americano do meu voo?

5. O outro mexicano que conhecemos na ambulância no trajeto aeroporto-hotel vinha em um voo diferente do nosso, com ele também vinha um "possível" infectado? Ou por que fizeram descer só ele de todo o seu voo?

6. Eles têm certeza de que não há discriminação ou fobia contra os mexicanos? Ou parte de seu protocolo de prevenção contra o vírus inclui o tratamento humilhante de tirar você diante de todo o avião sem sequer avisá-la, fazê-la parar na porta do avião enquanto é fotografada e gravada para a televisão local, trancá-la durante várias horas em uma unidade na qual o banheiro está adaptado como quarto de despejo, não lhe dizer ou explicar nada (Por quê? Quanto tempo? Onde?) ver que até os sacos de lixo que põem em seu quarto são "especiais", não sabem lhe dizer (porque "sobre isso não estão informados"). Quanto tempo mais ficaremos trancados aqui e o que acontecerá depois? Por que não deixam nosso contato da embaixada nos ver? Por que de repente as linhas telefônicas para nossos quartos não recebem ligações do exterior? Por que, se somos só os dez mexicanos no hotel, não há algum tradutor que fale inglês? Por que nos deram vistos um ou vários dias antes de sair para cá e depois de perguntar na embaixada no México se está tudo bem chegar e ser detido?

A verdade é que já não sei se estou revoltada ou o cansaço está ganhando: a única coisa que queremos é sair; não estamos doentes, ninguém tem febre, tosse, gripe, nada!

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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