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07/05/2009

Paquistaneses fogem dos choques entre o exército e os talebans

El País
Ángeles Espinosa Enviada especial a Mardan (Paquistão)
Milhares de civis que fogem dos combates em Swat se refugiam em acampamentos. Fazelwahid Sikhee tem o olhar perdido e os olhos vermelhos de quem quase não dormiu. Ainda não acredita que deixou para trás o inferno. Assim também faz a menor de suas filhas, que se agarra a ele como se fosse a única coisa que lhe resta no mundo. Em parte é verdade. Perderam sua casa, seus bens e a sensação de segurança. "Não queria que meus filhos ouvissem mais uma bomba", relata na entrada da tenda que lhes atribuíram no acampamento de desalojados de Sherkh Shehzad, nos arredores de Mardan. "Durante a noite de segunda para terça-feira houve um grande confronto entre as forças de segurança e os taleban em nosso bairro, por isso na quarta, quando suspenderam o toque de recolher por algumas horas, peguei minha família e entramos na primeira caminhonete que saiu de Mardan", explica. Mingora, a principal cidade do vale de Swat, está a apenas 100 quilômetros ao norte de Mardan, mas para o casal Sikhee e seus sete filhos é a diferença entre a vida e a morte. Os que ficaram agora estão presos no fogo cruzado.

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"Ainda temos muito medo e estamos confusos", afirma a mulher, Sabasbari, sob o calor sufocante da tenda. Inclusive nessas condições, ela e sua filha de 14 anos continuam mantendo o purdah, a estrita segregação das mulheres. Na verdade, não se queixa das imposições dos fanáticos. "Não tenho medo dos talebans, mas dos bombardeios", afirma. E a educação de suas filhas? "Nossos mais velhos são contrários a que as meninas vão à escola. Eu não estudei; minha filha foi por alguns dias e abandonou por que não gostava", afirma, enquanto a jovem se esconde atrás do xale colorido que cobre sua cabeça.

A roupa que vestem é toda a que possuem. "Saímos com a roupa do corpo", indica a mulher, mostrando duas pequenas trouxas de roupa no chão, a poucos metros de onde dorme seu bebê de dez meses. Os Sikhee foram dos primeiros habitantes de Swat a chegar a estas instalações, abertas depois das operações militares em Buner e no baixo Dir, que começaram há uma semana. De fato, a maioria dos 1.500 registrados até a primeira hora da tarde de ontem provinham desses distritos, situados a leste e oeste desse vale que todos descrevem como idílico.

Milhares de pessoas abandonaram Mingora e seus arredores desde terça-feira por temer a iminência de uma operação militar. O exército desmente, e diz que só estão respondendo aos ataques dos extremistas. No entanto, o comunicado militar de quarta-feira dava conta de confrontos em Saidu Sharif, Matta, Mingora e nas minas de esmeraldas próximas a essa cidade, que deixaram 37 rebeldes mortos. Outros dois soldados morreram devido à explosão de uma bomba na localidade de Bahrain.

Na entrada de Mardan, da estrada que vem de Islamabad, encontra-se estacionado na quarta-feira um comboio militar cujos soldados estavam aparelhados com todo o equipamento, incluindo colete a prova de balas. Também o usavam os policiais destacados no controle de acesso à cidade. As autoridades da Província da Fronteira Noroeste esperam uma avalanche de meio milhão de desalojados e estão preparando a toda pressa vários campos como o de Sherkh Shehzad nos bairros adjacentes.

Alguns, como os irmãos Afshar e Imran Khyste, nem esperaram que comecem os combates. Há três dias abandonaram Bidare, uma aldeia próxima à localidade de Matta, também em Swat. Os irmãos admitem, com o medo ainda no corpo, que fugiram dos talebans. "Vieram à nossa casa e nos pediram que nos uníssemos a eles, mas nos negamos, por isso não tivemos alternativa senão fugir", declara o mais velho, Afshar. "Não gostamos dos talebans porque nos obrigam a deixar a barba crescer e a lutar contra as forças de segurança", explica. Ele tem dificuldade para falar, é preciso lhe arrancar as frases uma a uma. Seu trabalho, cavar poços a mão, revela sua situação humilde. Mesmo assim, os dois jovens, que perderam o pai há três anos, conseguiram manter sua irmã e sua mãe. Agora, confinados os quatro em uma tenda de campanha, não sabem como vão se arranjar. Pelo menos estão aqui. Seus parentes demoraram para se decidir e agora o toque de recolher os impede de escapar.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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