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11/05/2009

O "rei da fuga"

El País
Antonio Jiménez Barca
Fugiu até cinco vezes da prisão, uma delas em um helicóptero pilotado por sua mulher. Michel Vaujour, um famoso criminoso francês em liberdade desde 2003 passa em revista sua vida vertiginosa

Michel Vaujour é um sujeito realmente duro e de poucas palavras. Tem 58 anos, dos quais passou 27 na prisão. A maioria em celas de isolamento absoluto, de segurança máxima, reservadas para presos viciados em fugir, nas quais a luz de uma lâmpada nunca se apaga nem de noite nem de dia. Alto e forte, Vaujour arrasta a perna direita. Tem cabelos louros com corte escova e um olhar longo e seco. Enrola um cigarro e conta entre sussurros que fugiu da prisão cinco vezes. Sua quinta escapada, em 1986, deu a volta ao mundo.

Sua companheira na época, Nadine, depois de passar alguns meses em cursos de pilotagem, alugou um helicóptero e se apresentou certa manhã sobre o pátio da prisão de La Santé em Paris. Michel e outro preso, Pierre Hernandes, a esperavam lá embaixo. Ela lhes atirou um saco que continha um fuzil e uma corda amarrada a um gancho. Com ela, Vaujour e seu companheiro escalaram até o telhado, enquanto Nadine situava o helicóptero sobre ele, a poucos metros. Os guardas não se atreviam a disparar porque se o aparelho caísse poderia ser pior. Os outros presos (e alguns familiares que aguardavam na entrada porque era domingo, dia de visita) animavam com seus gritos Vaujour e o outro preso.

Ambos chegaram ao telhado e conseguiram incorporar-se e manter o equilíbrio, apesar do nervosismo e do redemoinho de ar que a hélice levantava. Michel saltou, se colocou a cavalo no patim do helicóptero e se abraçou a uma barra; Hernandes ficou no telhado agarrado a uma chaminé; ninguém esclareceu se por covardia ou porque no último momento o helicóptero se elevou alguns metros. Os viu desaparecer no céu azul dessa manhã em Paris.

E não teve medo lá no alto, enquanto se afastava voando?

"Ao contrário. É um dos momentos mais belos da minha vida", diz Vaujour, sorrindo e fumando ao mesmo tempo. "Foi um pico de adrenalina. Sabe a primeira coisa que fiz lá?"

O quê?

"Coloquei um capacete para que minha mulher me ouvisse e lhe recitei um poema dali. O que você acha?"

Que poema?

"Não me lembro mais, homem!"

Vaujour nasceu em 1951 em San-Quentin-le-Petit (Ardenas). Foi um mau estudante, apesar de possuir um coeficiente intelectual de superdotado, segundo vários relatórios psiquiátricos. Trabalhou como operário em uma fábrica até que em um fim de semana, quando já tinha 18 anos de idade e um filho, roubou um carro para se divertir. Foi condenado a 12 meses de prisão e os cumpriu. Ao sair, roubou outro carro para ver sua mulher e seu filho, que então tinham se mudado para o sul da França. Em um controle, a polícia pediu os documentos do carro. Ele fugiu. Escapou à pé, atravessou um bosque, entrou em um túnel ferroviário. "Chegou o trem, me joguei no chão e ele passou por cima de mim", explica. Saiu do túnel, chegou a um rio, atirou-se para atravessá-lo a nado. Cansou-se tentando dominar a correnteza, que afinal acabou por arrastá-lo para onde os policiais o esperavam. "Só precisaram me colher, como quem arranca uma flor", lembra.

Nova condenação, desta vez a 30 meses. Começa então uma fuga para a frente que no fundo é um círculo vicioso: fuga, roubo, prisão, condenação por mais anos; outra fuga, outro roubo...

Em seis anos escapou quatro vezes: a primeira por uma porta descuidada; a segunda serrando os barrotes; a terceira com uma chave fabricada por ele mesmo depois de conseguir um molde graças à cera vermelha da embalagem dos queijos Babybel que lhe davam para jantar. Foi encerrado em módulos cada vez mais vigiados, em calabouços de segurança, isolado, sem poder falar com ninguém. Um livro de autoajuda que lhe chegou por acaso lhe serviu para descobrir a ioga e não enlouquecer. Tornou-se apaixonado pelo xadrez. Aprendeu a desenvolver algo vital para um obcecado pela fuga: "Disciplina mental", conta. "Com ela analisava qualquer possibilidade de fuga. A repassava milhões de vezes em minha cabeça. Assim, quando chegasse a oportunidade, a aproveitaria."

E fez isso. Em 1979, em uma visita ao juiz, sequestrou um magistrado ameaçando-o com uma pistola falsa feita de sabão pintado com betume. Passou dois anos em liberdade: operou o rosto para que não o reconhecessem, casou-se com Nadine, teve dois filhos com ela, se transformou em assaltante de bancos; e uma tarde, quando ia subir em seu carro, um grupo de policiais à paisana, que seguia sua pista, voltou a trancá-lo. Cinco anos depois, em um domingo de maio de 1986, abandonou a prisão pelo ar, sentado no patim do helicóptero pilotado por sua parceira. Em setembro desse ano, em uma sucursal do Crédit Lyonnais perto da Porta de Bagnolet, no leste de Paris, feriu três policiais no tiroteio que ocorreu depois de um assalto. Um quarto agente lhe acertou um tiro na cabeça.

Entrou em coma. Quando despertou comprovou com horror que tinha meio corpo paralisado. Recuperou a mobilidade sozinho na prisão, depois de se arrastar durante meses pelo chão. Daí a perna manca e o sussurro ao falar. Conheceu outra mulher. Decidiu não voltar a tentar outra fuga. Em 2003, depois que um relatório carcerário aconselhou "agora ou nunca" sua libertação por boa conduta, Michel Vaujour, chamado na França de "o rei das fugas", saiu da prisão por seus próprios pés.

"Não creio que tenha desperdiçado minha vida", diz com sua voz minguada, olhando do fundo de seus olhos aquosos. "Nunca penso no passado. Aprendi a viver no presente. Sem me preocupar com o que passei ou o que possa acontecer."

Escreveu um livro e hoje é protagonista de um documentário (Não me liberte, eu cuido disso) baseado em sua vida tumultuada. Quando lhe perguntam se aconselharia a um preso que escapasse, responde: "Essa decisão é dele. Ninguém pode lhe aconselhar isso. Não importa a ninguém".

Logo enrola outro cigarro. Levanta-se. Carrega sua mochila no ombro. Na têmpora direita há um caroço apreciável, como um gânglio ou uma marca: é a bala que o policial lhe disparou em seu último assalto e que ficou incrustada em seu cérebro para sempre, porque nenhum médico se atreveu a removê-la.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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