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12/05/2009

Bicentenário da independência dos países latino-americanos é oportunidade para derrubar mito da desigualdade na região

El País
Fernando Gualdoni Em Madri
A desigualdade na América Latina não remonta à colônia, mas ao princípio do século 20. A região perdeu o trem do desenvolvimento no final do século passado

O rei Juan Carlos da Espanha deu na segunda-feira (11) o tiro de partida para as comemorações dos 200 anos das independências latino-americanas. Entre o que resta deste ano e o próximo, a maioria dos países da região vai comemorar o primeiro grito de liberdade da coroa espanhola. Haverá discursos revisionistas críticos, na maioria, e alguns que tentarão olhar para a frente. Em todo caso, será difícil evitar os pontos mais negros da história latino-americana: a desigualdade e a exclusão social, as crises econômicas crônicas. Mas nem a desigualdade remonta à colônia; começa sobretudo na alvorada do século 20; nem as crises que dizimaram a região são alheias, pois a região perdeu o trem do desenvolvimento há apenas 30 anos.

"Em comparação com o resto do mundo, a desigualdade não era alta na América pré-colombiana, nem o foi durante a conquista e a colonização. Nem mesmo durante grande parte do século 19. A desigualdade crônica da América Latina é um mito", afirmou Jeffrey Williamson, diretor do departamento de economia da Universidade Harvard, na conferência sobre desigualdade na história econômica organizada na semana passada em Madri pelo Instituto Figuerola e a Fundação Ramón Areces.

Jan Luiten van Zanden, vice-presidente da Associação Internacional de História Econômica, e Peter Lindert, professor na Universidade da Califórnia, entre outros, apoiaram a tese de Williamson. "É importante entender que até a industrialização a América Latina não era mais desigual que o norte da Europa. Em uma economia agrária, de trabalhadores pouco qualificados, os desequilíbrios são menores. É no século 20, cem anos depois das independências, que surge a desigualdade urbana. É quando os maiores salários pelo trabalho qualificado e a educação fazem aumentar a brecha", concluem os dois estudiosos.

"Em meados do século passado, quando Juan Domingo Perón faz sua revolução, por exemplo, os que mais se beneficiam são os trabalhadores dos sindicatos que apoiam o governo. Acontece o mesmo no Chile no tempo em que Salvador Allende pôde governar: os estivadores e os mineiros foram os mais beneficiados por suas políticas. Por isso se acentuou a desigualdade entre estes e os demais trabalhadores, especialmente os do setor informal, explica Williamson.

Nenhum dos três historiadores econômicos acredita que a desigualdade e a exclusão possam ser reduzidas à força. Hoje, na véspera do bicentenário, a maioria dos governos da América Latina se identifica com a esquerda, da mais moderada à mais radical. Qual das duas vias é a melhor para estreitar a brecha da desigualdade?

"Tomemos o exemplo de Cuba, é a revolução mais antiga. Reduziu a desigualdade, mas a ilha também empobreceu, e entre pobres as diferenças são menores. Além disso, pode ser que agora apareçam os desequilíbrios entre os que recebem dinheiro de seus parentes nos EUA e os que não recebem", conta Williamson. "A revolução de Chávez na Venezuela não só não reduziu a desigualdade como a acentuou", explica Lindert. "É um regime que só cuidou de criar clientelismo político", acrescenta.

Na história econômica da América Latina sempre houve dois cavaleiros do apocalipse: a oligarquia e o imperialismo. Nenhum historiador questiona as manobras dos latifundiários e dos industriais para manter seus privilégios em todos os países e com todos os regimes. Tampouco que os EUA intervieram na região em defesa de seus interesses, acima de tudo. Mas apesar de tudo isso o historiador britânico Victor Bulmer-Thomas, ex-diretor do Instituto de Estudos Latino-Americanos de Londres - hoje Instituto das Américas -, conclui em seu livro "A História Econômica da América Latina desde a Independência" que "as limitações externas, apesar de formidáveis, nunca foram esmagadoras. (...) As principais razões do atraso relativo da América Latina estão dentro da própria região. Nunca se aproveitaram as oportunidades. O modelo de crescimento conduzido pelas exportações ganhou impulso quase em proporção inversa às vantagens de que desfrutaram as matérias-primas. Depois a região se fechou em pleno auge do comércio internacional e por último chegou a crise da dívida dos anos 1980."

Na conferência de Madri se afirmou que a América Latina ficou atrasada nas últimas décadas do século passado. Entre outras ideias, refuta-se a dos chamados dependentistas, isto é, aqueles que afirmam que o fracasso das economias da região se deve fundamentalmente à herança colonial, se compararmos o desenvolvimento econômico latino-americano desde a independência com o clube dos países ricos da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), se observa que a região manteve o ritmo dos países mais avançados de 1860 até 1938, e que a segunda metade do século 20 muda essa tendência até que o declive se acentua entre 1980 e 2000.

"A região se fecha para o mundo com sua política de substituição das importações nos anos 80, e quando se abre nos 90 o processo é nefasto. A liberalização é feita pela metade, porque o que se chamou de privatizações representou apenas uma transferência dos monopólios públicos para os privados", explica Leandro Prados de la Escosura, professor de história econômica na Universidade Carlos 3º em Madri. "A maioria dos países da América Latina alcançou seu teto de riqueza entre o final da Segunda Guerra Mundial e 1960", afirma Branko Milanovic, economista do Banco Mundial especializado em desigualdade global. "A partir de então, houve picos e quedas, mas basicamente a criação de riqueza está estancada desde então. A única exceção é o Brasil, que há alguns anos mantém uma linha ascendente", acrescenta.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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