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12/05/2009

Fiéis das três religiões convivem em Jerusalém entre pistolas e controles

El País
Ana Carbajosa e Miguel Mora Em Jerusalém
Um jovem colono judeu com a pistola carregada e o dedo no gatilho vigia do sótão de sua casa na Cidade Velha de Jerusalém. Abaixo há peregrinos espanhóis cheios de fé, cristãs ortodoxas devotas que choram quando beijam a pedra da unção de Jesus de Nazaré, mulheres israelenses com perucas que rezam com o rosto incrustado na Torá, etíopes cristãos adoradores do imperador Hailé Selassié, mães palestinas que olham para o céu e pedem clemência a Alá.

Adoradores de todos os deuses que se cruzam nas ruelas e se separam nos templos, e que têm visões opostas sobre a chegada do papa Bento 16 a Jerusalém, a cidade que venera as três religiões monoteístas. Juntos, mas divididos, aferrando-se a seu púlpito, desconfiando uns dos outros, a chamada para a paz do papa não consegue convencê-los muito. Como Bajshe, uma mulher palestina de 75 anos: "O papa está bem, mas Alá é Alá", diz. Ele vai trazer a paz ao Oriente Médio? "Não sei, mas a situação aqui é muito ruim, os judeus atiram contra nós."

Muhammed Muheisen/AP 
Policiais israelenses reforçam a segurança em Jerusalém para a visita do papa Bento 16

Do outro lado da fronteira invisível que divide muçulmanos e judeus na Cidade Velha, Sarah, uma soldado israelense entre os 80 mil encarregados de zelar pela segurança do papa, franze a testa quando lhe perguntam sobre a visita. Como muitos judeus, não vê com bons olhos que Bento 16 visite na terça-feira (12) o Muro das Lamentações adornado com a cruz romana. Junto ao muro, na parte onde os homens rezam, Moses Tenza, ruivo barbudo e aspirante a rabino de 23 anos, é um pouco mais conciliador, mas pensa que a receita para acabar com os conflitos nesta região volátil é mais religião.

"Todos somos pequenos neste mundo, só Deus é grande. Não é importante acreditar no Antigo ou no Novo Testamento, o importante é crer." Tenza acredita que é necessária uma aliança entre cristãos e judeus, mas não cita os muçulmanos. "Os judeus não gostamos de sentir que estamos lutando contra o papa. Quando você crê em Deus não luta, esse é o caminho para a paz. Se acreditarmos em Deus tudo correrá bem."

A aliança judaico-cristã também ronda a cabeça da católica María, uma médica espanhola, membro do Camino Neocatecumenal, que veio em peregrinação com 2 mil jovens espanhóis. "Isto não é uma guerra entre religiões, é uma guerra política. As três religiões sempre conviveram aqui, mas o que podemos fazer se os palestinos são governados por terroristas ou semelhantes?", declara, para depois reconhecer que em todo caso ela não sabe muito de política.

Kiko Argüello, fundador do Camino, não perde nenhuma viagem papal, e na sexta-feira se reunirá com seus seguidores, que na segunda amenizavam as longas filas diante dos controles de segurança israelenses na Cidade Velha com cânticos e aleluias. Dentro do Santo Sepulcro, dezenas de neocatecumenistas poloneses fazem ouvir sua voz. Fora, na fachada do Santo Sepulcro, descansavam três cruzes de tamanho calvário que os peregrinos deixam estacionadas depois de percorrer a Via Dolorosa.

As autoridades calculam que a visita do papa trará 15 mil peregrinos à Terra Santa, o que também trará benefícios turísticos de US$ 22,5 milhões a Israel. Não longe dali, Bob Kunst, líder de um grupo de radicais judeus americanos e israelenses, protesta com cartazes como "Tire suas mãos de Jerusalém". "Não há nada que negociar, nem Mapa do Caminho nem propostas sauditas! É uma mensagem para a ONU, o papa, a UE, Obama e Hillary Clinton. Não podemos ter dois Estados." O grupo exige a devolução do candelabro e das escrituras judaicas que, segundo eles, o Vaticano tem em seus porões desde que o imperador romano Tito os levou, há 2 mil anos.

Kifa, um comerciante muçulmano do bazar, queixa-se de que judeus e cristãos façam frente comum. "O papa está mais perto dos judeus do que dos muçulmanos", mas acrescenta que "em Jerusalém católicos e muçulmanos nos damos bem". Oitenta por cento dos cristãos que vivem em Israel são árabes e a maioria vive submetida às mesmas restrições que os muçulmanos palestinos. Talvez por isso Kifa se aferre à esperança. "Espero que [o papa] traga a paz. Quando João Paulo 2º veio em 2000, pouco depois surgiu a segunda intifada, espero que desta vez seja diferente." Assim como Rana, uma doce avó palestina. Haverá paz? "Inshallah!", diz, sentada na sala de sua casa, olhando para os netos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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