UOL Notícias Internacional
 

13/05/2009

O prefeito da Cidade do México contra o vírus da gripe suína

El País
Pablo Ordaz
O administrador do Distrito Federal do México tomou a decisão de paralisar a metrópole para frear o H1N1. E a cidade obedeceu. No dia em que a proibição foi suspensa, "El País" o acompanhou em seu percurso pela capital

É quarta-feira, passam alguns minutos das 7 da manhã e o que se vê através das janelas de vidro escuro é a Cidade do México. Em um carro cinza, de tamanho médio, Marcelo Ebrard, o chefe do governo (prefeito) do Distrito Federal, dirige-se ao seu gabinete na Praça do Zócalo. Vai sentado ao lado do motorista, que usa uma máscara azul. Atrás, quase encostada, vem uma caminhonete Suburban cheia de guarda-costas. Ebrard, que tem 49 anos, lembra de outro dia, quase duas décadas e meia atrás. Seria nesta mesma hora...

"Eu ia para meu escritório..." e a terra tremeu. A Cidade do México veio abaixo. Era 19 de setembro de 1985, às 7h19. Não é preciso olhar na hemeroteca. Está gravado na memória dos habitantes desta cidade junto com o abalo de 8,1 graus na escala Richter. O jovem Ebrard - não tinha nem 24 anos - já trabalhava no governo da cidade, no Departamento de Programação e Orçamentos. Acabava de voltar da Europa, onde havia completado seus estudos de relações internacionais feitos no Colégio do México. O terremoto havia deixado as ruas bloqueadas e Marcelo Ebrard, como fizeram milhares de mexicanos de forma espontânea, se incorporou a uma das cadeias humanas que removiam escombros e tentavam resgatar seus moradores do horror do terremoto...

Brennan Linsley/AP - 8.mai.2009 
Garçonete e bartender usam máscara em restaurante da Cidade do México

"Bom dia..."

"Bom dia, senhor..."

Passam alguns minutos das 7h30 da manhã. Marcelo Ebrard, 1,90 m de altura, terno preto, máscara azul, gravata clara que vai retirar em seguida para que não se transforme em um trampolim do vírus, se reúne com seu gabinete de crise contra a influenza. Como toda manhã desde a última quinta-feira, 23 de abril, este país e sobretudo esta cidade gigantesca se puseram em pé de guerra contra um vírus novo que já estava matando gente. A reunião se desenrola em um ritmo vertiginoso. O chefe de governo pergunta, censura ou concorda olhando nos olhos de seus colaboradores. Não aceita divagações. Quer saber quantos pacientes foram internados com o vírus da influenza nas últimas horas, quantos tiveram alta, como se comporta uma epidemia que parece estar controlada - há vários dias não matou ninguém no Distrito Federal -, mas na qual não convém confiar. Ebrard, a máscara azul caída na altura do pescoço, quer saber o estado dos banheiros das creches e dos colégios da cidade. Quando serão reformados? Quando? Não é possível terminá-los antes? Quer saber se as famílias das vítimas foram atendidas, se já visitaram todas... "Sim, senhor, todas."

Ebrard agradece, bate na mesa com a palma das duas mãos e se levanta. É o sinal. É preciso continuar trabalhando. Não há tempo a perder. Esta quarta-feira é um dia muito importante, vital. Depois de quase uma semana de detenção domiciliar para evitar na medida do possível a expansão do vírus - foram fechados colégios e restaurantes, cinemas e bibliotecas, empresas e bares; o México se transformou em uma cidade fantasma, incapaz de reconhecer a si mesma -, mais de 12 milhões de moradores esperam agora que seu prefeito lhes dê um alívio, uma liberdade vigiada, o retorno progressivo à normalidade. Ao longo desta quarta-feira foram-se abrindo os restaurantes, mas desde que seus donos tenham uma distância maior entre as mesas e que os comensais lavem as mãos com gel antibactérias ou com álcool antes de sentar-se. Como um preso deslumbrado na saída de uma penitenciária, como um doente que se atordoa ao descer da cama, esta cidade tenta recuperar o ritmo que a gripe lhe tirou de um golpe. A gripe e... Marcelo Ebrard.

"Foi difícil tomar a decisão de paralisar a cidade?"

"Sim, foi muito difícil. Sabia os riscos a que me expunha, mas era preciso tomá-la."

O carro do chefe do governo volta a atravessar a cidade. Não passaram nem duas horas desde que chegou ao seu escritório, mas já se reuniu com seus colaboradores, já falou com a imprensa e inaugurou, em plena Praça do Zócalo - com a catedral e o Palácio Nacional como testemunhas -, um dispositivo sanitário que levará a todos os bairros da cidade caminhões equipados com o instrumental necessário para vigiar a evolução da epidemia. Dia a dia, bairro a bairro. Não se deve confiar. Marcelo Ebrard olha pela janela uma cidade que se espreguiça. Sua cidade. Parece satisfeito...

"Todo mundo se surpreendeu com o comportamento cívico dos mexicanos durante a crise. O senhor também?"

"Esta cidade tem uma disciplina social muito grande. Tivemos um terremoto terrível em 1985 e uma crise ambiental muito grave em 1987... Uma crise ambiental que já foi esquecida nos meios políticos, mas que as pessoas continuam tendo muito presente. De repente os passarinhos da cidade começaram a morrer e houve um grupo ecológico que disse: todos vamos morrer. Pode imaginar o pânico? E agora isto..."

"E nas três crises o senhor trabalhou em diferentes cargos de responsabilidade..."

"Sim. Me marcou uma reunião da qual participei pouco depois do terremoto. Mais de 200 mil pessoas estavam vivendo na rua. Havia gente muito aborrecida, e com razão. Foi uma reunião na qual quase nos mataram, e aquele impacto me fez refletir. Pensei: em vez de se aborrecer com o aborrecimento das pessoas, é preciso tentar entender por que estão tão irritadas..."

"E a que conclusão chegou?"

"A primeira coisa que é preciso fazer é transmitir à população a informação de forma muito rápida. Ser muito transparente desde o início. Se as pessoas não acreditam em você, você tem um problema adicional muito grave. Além disso, é preciso estar com as pessoas quando passam dificuldade. Que o sintam próximo, com elas, na rua. Não se deve esquecer isso: a autoridade deve estar com as pessoas quando passam dificuldades. E então as pessoas tenderão a apoiá-lo. Se, por outro lado, você se esconder, não quiser falar... então é um desastre."

"Qual foi o momento mais crítico?"

"Tivemos a confirmação de que as mortes que estavam ocorrendo se deviam a um novo vírus na quinta-feira, 23 de abril. E os dias mais difíceis foram a sexta, sábado e domingo seguintes. Não sabia quão letal era o vírus. Você se lembra da gripe de 1919, da de 1957 e da de 1968... E então diz para si mesmo: se naqueles anos as perdas humanas foram tão altas, hoje é preciso evitá-lo por todos os meios. E decide parar a cidade. E então há uma visão conservadora que o critica: como vamos parar tudo? Vai custar caríssimo, as pessoas vão resistir... E você pensa: sim, ok, pode ser, mas se você estiver enganado o custo será brutal..."

E Ebrard deu ordem para a cidade parar. O mais surpreendente é que a cidade parou.

O chefe do governo chega à sede central do Registro da Propriedade, que acaba de reabrir suas portas. Quer supervisionar se as medidas de higiene são as corretas. E só pelo odor se vê que sim. Que, mais que corretas, são excessivas. O odor de cloro é fortíssimo. No parque em frente, a segunda entrevista coletiva em menos de duas horas. Pelo menos durante estes dias o chefe de governo do Distrito Federal é seguido por mais jornalistas que o presidente Obama. Atrás de uma grade, responde às perguntas. Uma delas é sobre o comportamento de alguns países - entre eles China e Argentina - que se apressaram a cortar as comunicações com o México.

"Estão ocorrendo reações xenófobas, decisões equivocadas, injustas para um país que foi generoso com todos. A Cidade do México se caracteriza por ter dado asilo a qualquer perseguido político do mundo. Pensem na ditadura argentina. Quantos argentinos não são como nossos irmãos? Vieram para cá, os recebemos..."

Novamente o carro cinza, a caminhonete Suburban cheia de guarda-costas, o gabinete... Ebrard tem agora uma reunião privada, e o jornalista e o fotógrafo decidem se dar de presente um café da manhã no hotel Majestic. No terraço dando para a Praça do Zócalo. Um luxo. O Majestic foi inaugurado em 1937 e ainda conserva daquela época um elevador e jornais amarelos emoldurados na parede. Em um deles, um exemplar do "Excelsior" de domingo, 6 de junho de 1937, pode-se ler: "Na próxima terça-feira passarão por esta cidade os meninos espanhóis. Cada um dos pequenos órfãos da guerra será recebido por um escolar mexicano encarregado de cumprimentá-lo em nome de nossa infância. As crianças espanholas chegarão ao porto de Vera Cruz e passarão pela Cidade do México em seu caminho para Morelia. Deseja-se que cada um dos pequenos viajantes tenha um amigo, uma criança mexicana que se encarregará de garantir em nome de seus companheiros a mensagem da infância mexicana. Depois continuarão para Morelia, onde está pronta a escola Filhos de Espanha, onde receberão alimentação, educação e roupas..."

A memória pendurada na parede, que se apresenta de improviso para deixar em ridículo os ingratos. Marcelo Ebrard continua percorrendo sua cidade. Em um desses trajetos lembra que também foi aluno do Colégio do México, onde foram parar muitos intelectuais que tiveram de fugir da Espanha absurda de Franco. Talvez aquela educação tivesse algo a ver com o fato de Ebrard ter deixado um dia o ar viciado do PRI e se transformasse em um prefeito progressista. E até que hoje seu nome represente a única esperança de que a esquerda mexicana - que existe, mas está dividida em mil pedaços - possa chegar um dia a conquistar o governo da nação. Mas essa, é claro, é outra história...

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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