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14/05/2009

Partido Republicano enfrenta uma crise depois de perder o poder nos EUA

El País
Antonio Caño Em Washington
Mais que uma prova de seu próprio prestígio, o destaque recente de Dick Cheney como principal flagelo do governo de Barack Obama é o reflexo da profunda crise que atravessa o Partido Republicano, incapaz de se desligar de suas velhas lealdades e de apresentar uma frente alternativa contra a popularidade incontível do presidente.

Apesar de ainda estarmos na ressaca das últimas eleições presidenciais, resta só um ano e meio para um novo encontro nas urnas nos EUA (as eleições de meio de mandato) e, se não houver novidades logo, a oposição vai chegar a esse encontro sem mensagem, sem liderança e destinada a uma mensagem estrepitosa.

"Os republicanos sabem que têm de mudar, mas parecem presos por antigos princípios que já não têm eco entre a população", afirma o influente colunista conservador de centro David Brooks.

Entre esse desconcerto, ressoa com força a voz do ex-presidente Cheney, que reivindica sem descanso os méritos do desprestigiado governo para o qual trabalhou (ou dirigiu) e defende um conservadorismo mais próximo do famoso apresentador de TV de direita Rush Limbaugh que o do moderado ex-secretário de Estado Colin Powell.

"Se eu tiver de escolher, fico com Limbaugh", disse recentemente em uma entrevista na televisão. "Tenho a impressão de que Colin (que apoiou Obama no ano passado) já deixou o partido, não creio que continue sendo um republicano."

Enquanto o apoio a Obama continua em alta (66% na última pesquisa Gallup) e o apoio aos republicanos, em baixa (34%), Cheney abriu a única via de ataque ao governo que nestes momentos encontra impacto nos meios de comunicação: o país está em perigo.

"A decisão do governo de suspender as políticas de segurança da era George Bush significa que no futuro não vamos contar com os mesmos instrumentos de proteção que tivemos nos últimos oito anos", advertiu o ex-presidente, que defende os métodos de interrogatório denunciados como torturas pelos atuais responsáveis políticos.

Diante da falta de uma voz mais autorizada que a sua, Cheney também se posiciona como vigilante dos valores conservadores. "Eu não compro a ideia de que ganharemos as eleições quando formos parecidos com os democratas. Ganharemos as eleições quando concorrermos com um programa que reflita sólidos princípios conservadores", afirma.

Essas palavras constituem uma desautorização do último candidato republicano, John McCain, que hoje oscila entre o centro e a direita com crescente irrelevância, e de outras figuras que tentam mover o partido para posições menos radicais.

A espécie dos moderados está totalmente no ostracismo há dez dias, desde que o senador Arlen Specter mudou de lado. Os convidados habituais nas reuniões políticas são representantes do passado do partido, e algum que tente abrir caminho discretamente, especialmente o congressista da Virgínia, Eric Cantor, tem de enfrentar o poder imperativo das antigas ideias.

"Creio que nossas propostas políticas e nossos princípios são tão viáveis hoje como foram no passado", afirma McCain. "Tenho uma profunda desconfiança de que os princípios de Ronald Reagan, os princípios de Margaret Thatcher, os princípios de Abraham Lincoln têm futuro. Não sou partidário da nostalgia, mas considero necessário aprender com o passado para encontrar uma solução para o Partido Republicano", opina o ex-congressista Newt Gingrich, outro dos velhos caudilhos que se nega a desaparecer.

Paradoxalmente, é Jeb Bush, o irmão do último ex-presidente, quem falou nestes dias na necessidade de "superar a nostalgia por Reagan" e apresentar uma nova proposta à nação. "Não se pode vencer algo com nada, e o outro lado oferece algo. Eu não gosto, mas é algo, e nós temos que ser respeitosos e inteligentes em relação a isso", advertiu o ex-governador da Flórida.

A necessidade dessa oferta se torna premente na medida em que entramos em um novo ciclo eleitoral. Os republicanos perderam 50 assentos no Congresso nas últimas duas eleições. Estão a ponto de perder a minoria de bloqueio no Senado (há uma cadeira pendente de decisão judicial em Minnesota), e outra derrota dele no próximo ano colocaria nas mãos de Obama e dos democratas um poder desconhecido em Washington há décadas.

Jeb Bush não parece, em todo caso, o nome mais adequado para encabeçar uma oferta renovadora. Cantor é quem foi mais longe nesse sentido, com a apresentação em 30 de abril passado de um grupo chamado Conselho Nacional para uma Nova América, que tenta ser um aglutinador das diversas sensibilidades que convivem na oposição.

"O Conselho Nacional para uma Nova América se comprometerá com o desenvolvimento de soluções inovadoras para os sérios problemas que nosso país enfrenta", disse o próprio Cantor, 45 anos, no lançamento de sua iniciativa.

O Partido Republicano não tem, no entanto, só um déficit de ideias inovadoras, mas de conexão com o país real. A escassa porcentagem de mulheres em seu grupo parlamentar - não chega a 9% - é o reflexo de suas dificuldades para se comunicar com esse setor do eleitorado, que votou democrata no ano passado por quase 15% de diferença. Sua decisão recente de nomear um negro, Michael Steele, como presidente do partido (um cargo de pouco poder) é uma triste compensação pelo fato cada dia mais claro de que o Partido Republicano se transformou em um partido exclusivo para brancos.

"Às vezes o partido parece ter-se desligado das relações imediatas com os cidadãos. Tornou-se tanto o partido do individualismo e da liberdade que deixou de ser o partido da comunidade e da ordem", opina Brooks.

É muito, portanto, o que têm pela frente os conservadores para reconquistar o controle da vida política. Só um fracasso de Obama - possibilidade com a qual sempre conta um partido de oposição - pode acelerar esse difícil trânsito.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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