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15/05/2009

Opinião - "Narciso Sarkozy"

El País
Lluís Bassets
A egocracia é o regime político de Narciso: eu, meu, mim, comigo. Mas monarquia, despotismo, tirania ou ditadura não são as palavras mais adequadas para definir uma forma de poder na qual um só homem pode decidir tudo, através de uma frase transformadora que costuma encabeçar muitas de suas longas entrevistas: "Eu quero". A expressão é obra de um importante político francês, candidato presidencial de centro em 2007 e também homem de letras, François Bayrou, em seu livro "Abuso de Poder", recém-lançado e dedicado integralmente a diluir o aniversário de dois anos de Nicolas Sarkozy na presidência da República.

O argumento é tão claro quanto bem fundado: desde maio de 2007, quando ganhou a eleição presidencial, o governo e seu primeiro-ministro foram apagados do mapa. "Não tenho lembrança de ter visto um governo tão maltratado e depreciado pelo presidente que o nomeou", escreve Bayrou. O mesmo vale para o Parlamento e inclusive para a função presidencial, "um poder que deve estar acima dos partidos, as querelas e os clãs" e foi ocupado, em troca, por um presidente partidário. Poucos discutem hoje na França essa tese, nem mesmo Sarkozy, que nunca escondeu seu ansioso desejo de destaque.

Bayrou afirma que para o egocrata não é um obstáculo que seja reconhecido como tal. Ao contrário: o aproveita "para dar medo a quem deve ter medo". Mas "por trás dessa prática há uma derrota de nossa ideia francesa de democracia e de República", até agora regidas, segundo o autor, pela meritocracia do funcionalismo público, que dá os cargos aos melhores, e não pelo "spoil system" à americana, que coloca em todos os cargos públicos os seguidores do vencedor.

Bayrou tem motivos pessoais de sobra para atacar Sarkozy, que o venceu nas eleições presidenciais e dizimou as fileiras do centrismo, levando um punhado de seus colegas de partido da União por um Movimento Popular (UMP) e inclusive do governo. Mas não são unicamente as paixões inferiores que lhe atribuem do Elisée que o levaram a lançar um ataque furibundo contra o presidente. O motivo principal da investida a toda regra, justo ao começar a campanha para as eleições europeias, é sua ambição presidencial. Bayrou encontra-se hoje praticamente em igualdade de intenção de votos com que Ségolène Royal foi candidata socialista (20%, contra 21% dela); enquanto em abril de 2007, no primeiro turno, obteve 18,5% dos votos, a 7 pontos de Royal, depois de subir nas pesquisas que lhe davam só 8% seis meses antes. Abuso de poder é na forma um ataque contra Sarkozy, mas como mensagem eleitoral é uma operação hostil contra a esquerda e o socialismo.

Com esse panfleto, bem escrito e trufado da sabedoria literária própria do professor de línguas clássicas que é seu autor, Bayrou conseguiu a bandeira mais disputada e flamejante que flutua hoje nas ruas da França: o anti-sarkozismo. Sua iniciativa tem um antecedente, salientado por muitos comentaristas: François Mitterrand publicou um livro muito semelhante durante a campanha presidencial de 1964, na qual enfrentou o fundador da Quinta República, Charles de Gaulle, e o pôs em "ballotage", quer dizer, o obrigou a passar a um humilhante segundo turno à falta de uma maioria absoluta que o glorioso militar considerava certa. A comparação com Bayrou não é tanto o livro, intitulado "O Golpe de Estado Permanente" e dedicado também a denunciar o personalismo e os abusos de poder, quanto o ataque de um Mitterrand, que também vinha do centrismo, às fileiras dizimadas da SFIO (Seção Francesa da Internacional Socialista), transformadas rapidamente sob suas ordens no atual Partido Socialista.

Foi o que entenderam todos os que têm de entender. A aposta de Bayrou foi recebida com preocupação por uns e outros. Sarkozy quer para as eleições de 2012 uma esquerda dividida e Royal como candidata. Esta e a secretária geral do Partido Socialista, Martine Aubry, temem um primeiro turno presidencial em que Bayrou derrube o candidato socialista, seja quem for, e se transforme ele mesmo no candidato de centro-esquerda contra o sarkozismo. As pesquisas oferecem boas razões para esses temores: 41% dos franceses aprovam uma aliança entre Bayrou e o PS, número que sobe até 56% entre os que votam na esquerda.

Narciso Sarkozy só sabe fazer política com a declinação da primeira pessoa do singular: eu, meu, mim, comigo. Bayrou quer transformar esse uso possessivo da política na alavanca para tirá-lo do Elisée.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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