UOL Notícias Internacional
 

17/05/2009

Multimilionário vira "o rei" do Panamá

El País
Francisco Peregil
Um multimilionário conservador desbancou a esquerda do poder com um apoio eleitoral sem precedentes. A campanha mais cara do país conseguiu transformar em um homem simples o dono da maior cadeia nacional de supermercados


No inverno passado, Juan Carlos Varela, colaborador do Opus e líder do Partido Panameñista, a principal formação de direita no Panamá, repreendeu Ricardo Martinelli, um multimilionário conservador que havia apresentado sua candidatura à presidência do país com um partido fundado em 1998.

"Senhor Martinelli: o senhor poderá comprar muitas coisas neste país com ajuda dos governos dos quais participou. Poderá comprar engenhos, concessões hidrelétricas..., mas tenha a certeza de que algo que o senhor não poderá comprar é o Partido Panameñista e a dignidade de um povo. Estamos diante de um milionário com fome de comprar o poder".

Poucas semanas depois, em 27 de janeiro de 2009, Varela surpreendeu o país inteiro ao integrar sua formação sob a coalizão de quatro partidos que Martinelli encabeçava e ao se juntar à lista do milionário que não podia comprar "a dignidade de um povo"como candidato a vice-presidente. No domingo passado, Martinelli, 57, conseguiu desbancar do poder o esquerdista Partido Revolucionário Democrático (PRD) com 23 pontos de diferença sobre a candidata do governo, Balbina Herrera, algo que nem as pesquisas mais otimistas previram.

Martinelli conseguiu em apenas cinco anos que boa parte dos 3,5 milhões de habitantes do país vissem como branco o que antes parecia preto. Nas eleições presidenciais de 2004 só conseguiu 5% dos votos, e no domingo passado, 63%, uma cifra sem precedentes na história recente do Panamá.

"Depois que perdeu em 2004", comentou em conversa telefônica Mario Rognoni, ex-ministro social-democrata, "Martinelli criou uma fundação para conceder bolsas para as famílias mais necessitadas. Ele sabia que o eleitorado da classe alta estava do seu lado; tinha que conquistar os pobres. E cada bolsa que concedia o promovia ao máximo. É um homem de direita tradicional, que usa iates, aviões particulares, vive como um rico e se relaciona com ricos. Mas, por razões de oportunismo eleitoral, usou uma linguagem de centro-esquerda".

Martinelli prometeu reformar o sistema de saúde e de educação, mas, sobretudo, erradicar a crescente criminalidade e construir um metrô na Cidade do Panamá. Seu salto definitivo nas pesquisas veio das mãos de Jimmy Papadimitriu, um panamenho formado nos Estados Unidos e ex-membro da campanha eleitoral de George W. Bush.

Martinelli investiu vários milhões de dólares (seus adversários arriscam a cifra de 30 milhões) em uma propaganda eleitoral como o Panamá nunca viu. Ele entrou com o dinheiro, e Papadimitriu, com a estratégia. "Caminhando com os sapatos do povo" foi o lema escolhido para retratar uma figura que obteve o título de perito mercantil no colégio particular de La Salle, que fez o ensino médio na Staunton Military Academy (Virginia) e marketing na Universidade de Arkansas como se fosse um homem simples; que, além de ser o dono de 35 supermercados, é presidente de indústrias de açúcar, de plástico, de matadouros e de moinhos.

Nos anúncios de televisão aparecia empurrando carrinhos nos supermercados, trabalhando com pedreiros, varrendo ruas de madrugada junto com os garis, assando pão com os padeiros, envernizando móveis, cozinhando, cortando cana... "Caminhando com os sapatos do povo".

"Seus inimigos diziam que nesses anúncios ele nunca era visto suando. Ele só trabalhava os minutos suficientes para que a câmera o registrasse", recorda o cientista político Raúl Leis. Mas a mensagem ficou. "Martinelli não é grandiloquente. Sempre que fala, se refere a elementos muito práticos da vida, nada a ver com o clássico líder populista latinoamericano de grandes discursos nos palanques. Ele costuma ir direto ao ponto. E isso passa uma imagem de eficácia", ele acrescenta.

O PRD concedia voz e credibilidade a seus antigos empregados, como Eliseo Flores Pineda, que perdeu uma perna trabalhando em uma propriedade de Martinelli. O milionário não quis indenizá-lo, o jovem recorreu aos tribunais e por fim ganhou a causa. Mas essa propaganda foi anulada pelas divisões internas da esquerda e pela própria campanha do milionário.

Martinelli seguiu construindo seu personagem. Ergueu-se como o homem da mudança, afastado das políticas dos dois partidos tradicionais que governaram o país durante décadas. Havia sido diretor da Previdência Social no início dos anos 1990 com os social-democratas, e ministro de Assuntos do Canal do Panamá na gestão da presidente conservadora Mireya Moscoso (1999-2004). Mas Martinelli alegava que ele "estava na dança e tinha que dançar", e que, assim como "milhões de panamenhos", ele também fora enganado pelos dois grandes partidos. Os anúncios do PRD insistiam em seu passado: "Ele diz que é a mudança, mas não lembra quando aplaudia e ria com aqueles que hoje ele critica". Faz vinte anos que nenhum partido no Panamá consegue governar por dois mandatos seguidos. O povo queria mudança, e Martinelli soube se apoderar da palavra mágica.

Durante a campanha, os socialdemocratas alegavam que Martinelli havia encarecido a cesta básica, contribuindo para elevar a inflação graças a seus supermercados. Mas seus adversários não criticaram a excessiva concentração de poder que podia acontecer, com um dos homens mais ricos do país ocupando a presidência. Em nenhum momento a esquerda buscou paralelismos com o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi. "Os panamenhos não acompanham nada da política europeia, às vezes acompanham algo da espanhola", admite Rognoni.

Rico, mas não de alta linhagem. Martinelli não é um "rabiblanco", que é como se chamam no Panamá as grandes fortunas fundadoras do país em 1903, as dinastias dos Arango, Arias, De la Guardia, Linares... sua mulher - Marta Linares, descendente de espanhóis -, sim, é "rabiblanca". Seus dois filhos trabalham em suas empresas e sua filha estuda nos Estados Unidos. "Ao contrário de Berlusconi, Martinelli nunca foi questionado sobre sua vida pessoal", diz Leis. "O que se prima é seu sucesso com o dinheiro, sua eficácia. Assim como no Peru as pessoas votaram em Alberto Fujimori porque associavam o japonês com o símbolo de progresso, aqui associam Martinelli aos valores do imigrante trabalhador e determinado".

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,32
    3,157
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    0,56
    63.760,62
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host