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21/05/2009

Exploração sexual na Espanha: as redes de tráfico

El País
Álvaro de Cózar e Mónica Ceberio Belaza Em Madri
Benim City é um conglomerado de casas empoeiradas de chapa oxidada, fios pelados cruzando as ruas e estradas cheias de buracos. Mas é um lugar perfeito para fazer negócios. A cidade no sudoeste da Nigéria é um lugar de gente empreendedora e comerciante, capaz de vender na rua desde uma antiga peça pré-colonial de grande valor até uma máquina de lavar imprestável. Se se perguntar a qualquer jovem ocioso dos que passam o dia todo sentados na rua a que se dedica, o mais provável é que o rapaz puxe um celular e diga com certa arrogância: "Sou um homem de negócios. Este é o meu 'call center'". O político nigeriano Bola Ige, assassinado a tiros em 2001, descrevia esse dom de seus compatriotas para os negócios com uma frase eloquente: "Se você souber empacotar merda, poderá vendê-la na Nigéria".

Quase todas as mulheres africanas que exercem a prostituição na Espanha procedem de Benim City. Durante o século 18 a cidade foi o centro da costa dos escravos, lugar de onde partiam milhares de africanos para serem explorados nas colônias. Negócio e exploração de pessoas, as duas faces da prostituição séculos depois. Quem a controla em Benim City tem meio negócio montado se souber utilizar o desejo de milhares de mulheres de sair da pobreza, prosperar na Europa e enviar dinheiro para suas famílias.

Sobre esse sonho se erguem as redes de tráfico de pessoas na Nigéria e no resto dos países exportadores de mulheres. Estudos indicam que na Espanha há prostitutas de mais de 50 nacionalidades, mas a grande maioria procede de um punhado de países, nos quais estão instaladas redes organizadas: Brasil, Romênia, Paraguai, Colômbia, República Dominicana, Rússia, Moldávia, Bulgária, Nigéria e China. Também há marroquinas no sul da Andaluzia, sobretudo perto da fronteira.

O lugar de origem da mercadoria muda segundo a dificuldade ou facilidade que tenham para introduzi-la na Espanha e segundo a moda estética do momento. Como quem decide deixar de comprar café na Colômbia e o procura no Quênia. Na América Latina, o país que mais exporta mulheres é o Brasil. O segundo é o Paraguai, que é novo no setor. O acesso é fácil - nem as brasileiras nem as paraguaias precisam de visto - e suas mulheres são muito apreciadas na Espanha. Nosso país não importa garotas de traços mais indígenas, como bolivianas, equatorianas ou peruanas.

Junto com o Brasil, a Romênia se transformou no outro grande provedor de mulheres para a Espanha. As jovens romenas são brancas, louras e bonitas, e desde que o país faz parte da União Europeia podem entrar livremente na Espanha. As redes buscam garotas nas áreas rurais pobres em que, como em Benim City, é fácil convencê-las de que se atrevam a viajar à Espanha com um desconhecido em busca de uma vida melhor. Não têm nada a perder.

As redes são heterogêneas e de difícil controle, segundo explica Carlos Botrán, comissário chefe da Brigada Central da UCRIF (Unidade Contra as Redes de Imigração Ilegal e Falsificações de Documentos da Polícia Nacional): "Podem ser formadas por um casal, um grupo de quatro amigos ou podem ser organizações complexas e estruturadas, que operam em vários países com mais de cem pessoas trabalhando. Uma autêntica multinacional".

O captador é o primeiro elo da cadeia, e um dos mais importantes. Em todas as histórias de mulheres exploradas ele é o encarregado de encontrar a mercadoria, sem a qual não há negócio. Deve escolher e convencer as mulheres até conseguir tirá-las do país. Com uma mentira e uma meia verdade. Quando lhes oferecem diretamente trabalhar como prostitutas, lhes falam de uma situação de liberdade que depois não existe.

O captador, às vezes com a ajuda de uma terceira pessoa (o intermediário), arranja os passaportes, o visto, a passagem de avião ou ônibus e dá a mulher um pouco de dinheiro para que mostre na fronteira e a deixem entrar como turista. Ele cuida de tudo e ensina a garota a se vestir e atuar.

"Um truque que as redes costumam empregar para entrar é utilizar um país intermediário de entrada que pertença ao espaço Schengen, como Portugal, França ou Itália", explica um inspetor chefe da UCRIF. "Se no aeroporto de Paris veem que o destino final da mulher não é a França, mas a Espanha, os controles são relaxados." Algumas redes, como as nigerianas, as russas ou as chinesas, utilizam métodos muito sofisticados para falsificar documentos.

Vejamos uma dessas histórias, a de uma das milhares de mulheres que todo ano entram na Espanha para trabalhar como prostitutas. Vamos chamá-la de Hope. Há dois anos - tinha então 18 - contou a uma amiga as dificuldades econômicas que ela e sua família estavam passando em Lagos, no sul da Nigéria. "Vou colocá-la em contato com um primo meu que precisa de uma secretária para trabalhar na Espanha", disse a garota. A oferta era um presente e Hope não duvidou um segundo em dizer sim. Poucos dias depois conheceu um homem. Este lhe vendeu um futuro cômodo na Espanha, onde ganharia dinheiro para ela e sua família. Eles a ajudariam com os papéis e a ensinariam a passar pela fronteira. Pagariam todos os gastos da viagem e depois, quando ela ganhasse seu abundante salário de secretária na Europa, lhes devolveria o dinheiro aos poucos. Para cruzar a fronteira lhe deram o passaporte da mulher que a esperava na Espanha, uma nigeriana para a qual ia trabalhar.

Dias depois ela pegou um avião em Cotonou (República do Benim) rumo a Casablanca para aterrissar pouco depois no aeroporto de El Prat em Barcelona. Outro homem a pegou em um táxi e a levou para a casa de sua nova patroa. "Me lembro muito desse caminho. Ia vendo a cidade de Barcelona, tão bonita, com gente tão distinta, e me senti uma mulher com muita sorte", lembra a garota no escritório da ONG Projeto Esperança.

Essa sensação de ter pela frente grandes oportunidades é compartilhada por todas as mulheres que chegam com as redes. Uma mistura de nervosismo e esperança, até que vem o balde de água fria. No caso de Hope, aconteceu quando lhe mostraram sua nova roupa de trabalho: tangas e sutiãs. "Me disseram o que eu teria de fazer e me neguei, mas o marido da mulher me ameaçou, me bateu e me disse: 'Se não fizer isso eu a atiro pela janela agora mesmo e digo para a polícia que você se suicidou'."

Os métodos de coação para dobrar a vontade da vítima são diferentes segundo o país de origem da rede e as vítimas. "As redes romenas são as mais violentas", explica Botrán. "Eles dão surras, socos, há violações em grupo, não hesitam na hora de exercer a violência física para assustar e dobrar a vontade das mulheres." Como a maioria das vítimas é captada em pequenos povoados e o traficante conhece a família, é muito comum que ameacem matar seus pais ou seus filhos, se os tiverem. Além disso, quando chegam lhes tiram as passagens de volta, o passaporte e o dinheiro e as vigiam de perto a cada minuto. Algumas não falam espanhol e não têm como sair.

No caso da Nigéria, um dos métodos de controle mais eficazes é o vodu. "Dias antes de pegar o avião me levaram a um curandeiro", lembra Hope. "Tinha de fazer o que ele me dissesse para que eles tivessem segurança de que eu ia pagar minha dívida." Cortaram pêlos de suas sobrancelhas e do púbis, os colocaram em um envelope e os misturaram com sangue. "Senti muito medo. Então acreditava que com o vodu podem controlar o que você faz e inclusive você pode morrer. Fui muito inocente. Acreditava em tudo pela vontade de vir à Espanha."

As dívidas que as mulheres se comprometem a pagar - € 2 mil, € 3 mil, € 4 mil ou € 5 mil, dependendo do país de origem, do custo do trajeto e do que podem abusar da situação da necessidade da mulher - põem a vida da vítima nas mãos da rede durante meses ou inclusive anos, porque algumas redes vão aumentando a dívida com enganos. As nigerianas são as mais exploradas: costumam se comprometer desde o início a pagar quantias exorbitantes, US$ 40 mil ou US$ 50 mil.

Para pagar, as mulheres têm de trabalhar todo dia 13 ou 14 horas. As redes se encarregam de colocá-las no mercado, como se fossem laranjas: clubes, apartamentos e rua. A Universidade de Oviedo, que elaborou um dos estudos de campo mais completos sobre o tema, indica que em Astúrias 72% das prostitutas trabalham em casas noturnas, 35% o fazem em apartamentos e só 2,6% na rua - parques, terrenos baldios, bairros industriais, centro urbano. Esses dados não podem ser extrapolados para todo o país, mas a polícia e a Guarda Civil fazem cálculos semelhantes.

Como muitas outras, Hope acabou dando voltas por várias províncias espanholas, de clube em clube. A cada três semanas a mudavam de local. Não tinha ideia de onde estava em cada momento. Não sabe em que lugares viveu. "Me davam surras se eu não fizesse € 3 mil por mês", relata. Nunca viu um euro de seus ganhos.

"As redes de exploração sexual são muito cruéis e refinadas em seus métodos de coação", diz Carlos Igual, da Guarda Civil. "Das mais duras que eu vi em minha carreira. Se aproveitam da ignorância, de que se encontram isoladas e desamparadas. É o que as redes querem. Por isso as trocam de lugar a cada pouco tempo. Para que não peguem confiança com os clientes e não se tornem amigas entre elas."

A rede de Hope era mínima, formada por quatro pessoas: dois casais de nigerianos que haviam feito do tráfico de mulheres sua forma de vida e tinham diversos contatos com empresários do sexo espanhóis. Ela não sabe qual era o acordo econômico entre seus captores e os donos dos clubes. A que cobrava por cada serviço sexual não era ela, mas sua "mami". As mamis, ou controladoras, são outro dos pilares fundamentais das redes. Vigiam e controlam as garotas de perto. São as encarregadas de que não escapem e também de tranquilizá-las e fazê-las crer que sua situação não é tão horrível. Costumam ser ex-prostitutas, mulheres que passaram pela mesma situação e que depois ascenderam dentro da organização ou se casaram com algum empresário.

Hope decidiu acabar com tudo isso um ano depois de aterrissar em Barcelona. Conseguiu sair graças à polícia, à ONG Projeto Esperança e à ajuda de pessoas que se preocuparam com ela. Denunciou seus captores. A polícia conseguiu reunir as provas para levá-los ao tribunal e o caso ainda está pendente.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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