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22/05/2009

Escândalo no Reino Unido abre debate sobre a compra de informações pela imprensa

El País
Walter Oppenheimer Em Londres
O escândalo dos gastos dos deputados britânicos de Westminster abriu um debate quase tão antigo quanto a imprensa: as bondades e maldades do chamado jornalismo de talão de cheques, de grande tradição no Reino Unido. Comprar informação é algo que os tabloides britânicos fazem constantemente e que a chamada imprensa de qualidade faz quando lhe convém. Na Espanha é prática habitual que a imprensa romântica ou os programas de fofocas das televisões rasguem o bolso para conseguir exclusivas. Na maioria das vezes, o que se encontra são inocentes batizados ou tormentosos divórcios. Nos veículos generalistas não são comuns (que se saiba) essas técnicas. O jornal britânico "The Daily Telegraph" conseguiu um grande êxito ao publicar em detalhe os gastos dos deputados, que têm direito a passar para o Estado boa parte dos custos de manter uma segunda residência para cumprir sua obrigação de viver entre Londres e sua circunscrição eleitoral para assistir às sessões do Parlamento e atender aos cidadãos que diretamente representam.

O "Telegraph" (como é conhecido popularmente), um jornal conservador e em aparente decadência, o único rotativo nacional de informação geral que manteve o formato grande, não só conseguiu se transformar no protagonista da vida política britânica arrastando à ruína política um punhado de políticos encabeçados por Michael Martin, o presidente da Câmara dos Comuns (o primeiro a se demitir depois de 300 anos de história parlamentar); também conseguiu aumentar sua circulação em quase 55 mil exemplares diários desde que começou a publicar os gastos dos deputados, em 8 de maio.

A decisão do "Telegraph" foi controversa não só por seus efeitos políticos ou seus benefícios econômicos, mas porque existe a suspeita generalizada, para não dizer a certeza, de que pagou para obter os CDs com toda a informação sobre os gastos dos deputados dos últimos cinco anos. E não só isso, mas também existe quase total certeza de que essa informação teria sido roubada por um funcionário do Parlamento, e portanto o jornal incorreu em delito ao comprar material sabendo que procedia de um roubo.

O jornal parece ter calculado de antemão todos os riscos e defendeu sua atuação em nome do interesse público. Apesar de o Parlamento ter-se disposto a publicar em julho o detalhe dos gastos, os deputados haviam combinado que fosse ocultado o detalhe de seus endereços por razões de segurança. Mas o jornal teve acesso a esses endereços, o que lhe permitiu divulgar um dos pontos mais escandalosos do comportamento abusivo dos deputados: as constantes mudanças na designação de seu segundo domicílio, para assim poder maximizar as ajudas públicas. Tratava-se de mobiliar, ou redecorar ou acabar de pagar um imóvel e depois designar outro como segunda residência - talvez a que até então figurava como a primeira, ou talvez um novo investimento imobiliário - com o que o deputado podia voltar a decorar, mobiliar ou continuar descontando os juros hipotecários.

A Scotland Yard, a polícia britânica, acabou dando razão aos estrategistas do "Telegraph" ao renunciar a investigar a procedência da informação, apesar de reconhecer que esta parece ser consequência da "violação da obrigação pública". A polícia chegou à conclusão de que o apelo do jornal ao interesse público da informação é tão claro que dificilmente seria condenado nos tribunais.

Outros jornais poderiam ter marcado o gol que o "Telegraph" conseguiu. Segundo vários veículos, "The Times" recebeu em março uma oferta de um intermediário mas não quis pagar os € 340 mil que lhe pediam pelo disco rígido com os 2 milhões de recibos dos parlamentares. Então o intermediário se dirigiu ao "The Sun", que não quis pagar mais de € 23 mil por uma parte dos dados. Estima-se que o "Telegraph" tenha pago entre € 80 mil e € 340 mil, provavelmente muito mais perto da quantia menor. Os especialistas acreditam que se os detentores da informação conhecessem melhor o mundinho da imprensa londrina teriam se dirigido ao "The Daily Mail", um jornal profundamente conservador, a meio caminho entre o jornalismo tabloide e o de qualidade e com muito poucos escrúpulos, se é que tem algum.

É lícito o que fez o "Telegraph", à margem do resultado de sua campanha? Em seu trabalho "Groping for Ethics in Journalism" [Sondando a ética no jornalismo], o professor Ron F. Smith, da Universidade da Flórida Central, expõe quatro razões contra o jornalismo de talão de cheques. Primeiro, porque algumas pessoas se dispõem a exagerar ou mentir se lhes pagarem por isso. E dá como exemplo que depois que o tabloide "Star" pagou 150 mil a uma mulher chamada Jennifer Flowers para explicar um caso sexual com Bill Clinton nas eleições presidenciais americanas de 1992, várias mulheres se ofereceram a um repórter do "Washington Times" para inventar histórias sobre Clinton se lhes pagassem bem.

Segundo, porque as pessoas podem ocultar informação a menos que lhes paguem. O exemplo dado é o de um funcionário que se ofereceu como intermediário entre a imprensa e um bando de gângsteres de Los Angeles para que falassem em troca de dinheiro. "O dinheiro não é para pagar as entrevistas, mas para demonstrar respeito aos membros do bando", afirmou o funcionário. Mas se não pagasse não revelariam o que sabiam.

Terceiro, porque é um potencial para reduzir a qualidade do trabalho jornalístico. Por exemplo, é difícil que um repórter faça perguntas delicadas se o veículo pagou por uma entrevista. E quarto, é financeiramente perigoso porque pode provocar uma espiral de gastos nos veículos que competem pelas exclusivas.

O jornalismo de talão de cheques se move nos EUA com mais má consciência do que no Reino Unido e os veículos preferem ocultá-lo. Smith explica que tanto a rede de televisão CBS quanto a CNN mostraram um vídeo em que militantes do grupo terrorista islâmico Al Qaeda envenenam um cachorro com gás para fazer um teste. A CNN primeiro negou que tivesse pagado e depois reconheceu que havia desembolsado o equivalente a € 22 mil. A CBS disse que tinha pagado "uma quantidade mínima".

Outro caso citado pelo professor americano é uma entrevista para a rede ABC com Tom Burrell, o controverso mordomo da falecida princesa Diana. A rede pagou US$ 220 mil pelos direitos do vídeo-diário do mordomo, mas um porta-voz da rede afirmou: "Não pagamos por entrevistas".

A mídia britânica nunca fornece cifras, mas tem menos pudor na manipulação do dinheiro em troca de informação em um mercado em que a concorrência é absolutamente feroz. Alguns casos são legendários, como o que provocou em 1992 a queda do ministro conservador David Mellor em plena campanha de retorno aos velhos valores morais promovida pelo primeiro-ministro da época, John Major. O publicitário Max Clifford conseguiu que o tabloide "The People" pagasse € 35 mil para convencer Antonia de Sancha, de origem espanhola, atriz desempregada e amante de Mellor, para instalar câmeras ocultas no ninho de amor do casal. O ministro teve de se demitir.

Clifford, que teria inventado um dos detalhes mais picantes dessa história - que Mellor se excitava ao vestir a camisa de seu time de futebol favorito, o Chelsea, quando fazia sexo com Antonia - acabou se transformando no personagem chave na compra e venda de fofocas de que se alimentam os tabloides. É por exemplo o homem que esteve por trás da venda da exclusiva da recente morte de Jade Goody, doente de câncer. Ou da queda em desgraça de lorde Archer, um romancista multimilionário que negou ter-se deitado com uma prostituta. Ganhou o caso contra "The Sun", mas depois se soube que era verdade e acabou sendo preso por ter mentido no tribunal.

Max Clifford também estava por trás de uma das histórias mais lucrativas que se conhecem: "News of the World" e "Sky" pagaram € 800 mil à babá Rebecca Loos em 2004 para que explicasse os detalhes de suas noites de sexo com David Beckham quando o jogador vivia em Madri e sua mulher, Victoria, preferia continuar em Manchester. O jornalismo de talão de cheques tem um aspecto especialmente polêmico: sua capacidade de interferir na administração da justiça. Um dos casos mais célebres remonta a 1979, quando o até pouco antes líder do Partido Liberal Jeremy Thorpe foi absolvido da acusação de ter conspirado para assassinar seu antigo amante, o modelo Norman Scott. Um dos fatores que facilitaram sua absolvição foi que uma das testemunhas de acusação tinha vendido a história a um tabloide com a promessa de que o pagamento seria dobrado se Thorpe finalmente fosse condenado.

Mais recentemente, em janeiro de 2002, uma professora de 26 anos, Amy Gehring, foi absolvida da acusação de manter relações sexuais com vários alunos de 14 e 15 anos quando se soube que estes tinham cobrado por suas declarações aos tabloides contando sua versão dos fatos. Depois desse caso a Comissão de Queixas da Imprensa (PCC na sigla em inglês) introduziu no Código de Ética com o qual a imprensa britânica se auto-regulamenta um parágrafo que especifica que os veículos não oferecerão dinheiro às testemunhas - ou prováveis testemunhas - de um caso judicial, a não ser que possam demonstrar que a publicação dessa informação é de interesse público.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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