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27/05/2009

"Não combinei com Uribe minha candidatura à presidência", diz ex-ministro da Defesa da Colômbia

El País
Maite Rico Em Madri
Juan Manuel Santos deixou no sábado seu cargo de ministro da Defesa da Colômbia para poder aspirar à Presidência em 2010. Mas não quer se definir como candidato: o será se e quando Álvaro Uribe, por quem proclama uma lealdade sem fissuras, não se candidatar a um terceiro mandato. Em três anos de gestão, ajudado por excelentes chefes policiais e militares, esse advogado de 57 anos colheu sucessos históricos na luta contra o terrorismo e o narcotráfico, graças à modernização dos serviços de inteligência. Encurraladas e dizimadas pelas deserções, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) deixaram de condicionar a agenda do país. A morte de seu número 2, Raúl Reyes, e a apreensão de seus computadores, ou a Operação Xeque, que resgatou Ingrid Betancourt e outros 14 reféns, foram os momentos principais. Se Uribe não se candidatar, Santos se perfila como o favorito para se transformar no próximo presidente da Colômbia.

El País - O presidente Uribe acaba de dizer que seria inconveniente sua segunda reeleição. Como interpreta essas palavras?
Juan Manuel Santos -
Da mesma forma que as interpretei há muito tempo: que o presidente, no fundo, não quer a reeleição. Mas ele, e só ele, decidirá o que vai fazer.

EP - O senhor disse que tinha a intuição de que Uribe não se candidataria. Em que se baseia?
Santos -
No que essa palavra indica. É pura intuição. Não tenho mais elementos para julgar.

EP - Quais foram o melhor e o pior momento na Defesa?
Santos -
O momento mais feliz foi quando recebi a informação de que o helicóptero que levava os sequestrados da Operação Xeque já estava no ar. O pior... foram vários. Quando percebi que as acusações sobre os falsos positivos [execuções extrajudiciais de jovens que eram apresentados como guerrilheiros] eram certas. Isso me destruiu.

EP - Acredita que se superou o prejuízo que esse escândalo causou à imagem do exército?
Santos -
Há muita gente interessada em inflar o problema e apresentá-lo como uma política de Estado, o que é absolutamente falso. Atuamos com contundência e transparência. Destituímos os militares envolvidos e estamos apoiando os órgãos judiciais para que não haja impunidade. Creio que esse capítulo deve ficar encerrado.

EP - Que medidas tomaram para combater as violações dos direitos humanos?
Santos -
Nenhum exército do mundo fez tanto em tão pouco tempo para conscientizar sobre a importância do respeito aos direitos humanos. Adotamos uma política integral pela primeira vez na história, com indicadores de gestão. Em todas as divisões há unidades dedicadas aos direitos humanos. Temos advogados que assessoram em cada operação. O exército inaugurou uma escola de direito internacional humanitário... estamos conseguindo que o problema dos direitos humanos na força pública se transforme em uma força.

EP - O senhor disse que continuará a política de segurança democrática. Isso não enfraquece o argumento de Uribe para promover sua reeleição, que é dar continuidade a sua gestão?
Santos -
Não, porque minha candidatura não existe até o momento em que Uribe decida não ir. Se ele se lançar, conta com meu apoio.

EP - Mas o senhor não acredita que tanta incerteza sobre se vai ou não é negativa para a Colômbia em um momento de crise?
Santos -
Esse é um argumento válido e tem muito de verdadeiro, mas por outro lado é preciso respeitar o foro do presidente. Ele decidirá quando se pronunciar.

EP - Como candidato, o senhor proporia algum tipo de negociação com as Farc?
Santos -
Não quis deliberadamente responder a perguntas hipotéticas. Quando for candidato, mostrarei minhas cartas.

EP - Sua eventual candidatura amargará Hugo Chávez. Seus choques com o presidente da Venezuela por causa do apoio às Farc foram notórios.
Santos -
Sobre esse assunto, guardo prudência. Minha posição é conhecida, mas creio que não convém a ninguém que eu neste momento venha pôr lenha na fogueira.

EP - Imagino que o senhor se consultou com Uribe antes de deixar o cargo. O que ele lhe disse?
Santos -
Me disse que estava tomando uma decisão acertada.

EP - Isso pode ser um sinal de que não se candidatará.
Santos -
Mas disse isso a outros candidatos [risos].

EP - O senhor combinou com ele?
Santos -
Não, com Uribe não há nada combinado sobre minha candidatura. Tudo o que eu lhe disse é impressão minha. Não há nenhum pacto.

EP - A democracia corre perigo com um terceiro mandato de Uribe?
Santos -
Ente outros argumentos, cito o caso de Felipe González: esteve 14 anos no poder, fez um grande governo, promoveu a Espanha a níveis que ninguém havia suspeitado e não causou nenhum dano à democracia.

EP - Mas na América Latina, com a tradição caudilhista, a reeleição gera mais cuidados. Uribe, inevitavelmente, vai ser comparado com Chávez.
Santos -
São comparações malévolas, porque o presidente Uribe é, antes de tudo, um democrata. A Constituição de 1991 nos transformou em uma democracia participativa, e o referendo é sua expressão máxima. Aqui a oposição e a mídia gozam de plenas garantias. Há separação de poderes. Somos uma democracia estável.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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