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28/05/2009

Quanto de Bush há em Obama?

El País
Lluís Bassets
A nomeação de Sonia Sotomayor, uma portorriquenha do Bronx, para ocupar uma vaga na Suprema Corte provoca rapidamente a pergunta: nunca haveria ocorrido a George W. Bush a ideia de escolher um jurista do perfil dessa juíza de apelações de Nova York? As próximas audiências no Senado para a confirmação da magistrada, nas quais serão analisadas com lupa sua biografia e suas opiniões jurídicas, projetarão com força ainda maior uma novela de ascensão social e êxito meritocrático que só acontece com tanta força e exemplaridade na sociedade americana.

Portanto, nesse sentido não há nada de Bush em Obama. Não se pode dizer o mesmo em relação à virada que Obama iniciou em sua política antiterrorista, com o discurso que pronunciou há uma semana nos Arquivos Nacionais em Washington e que pode ser resumido em uma ideia básica: a guerra global contra o terror, declarada por Bush em 2001 depois dos atentados de 11 de Setembro, não terminou. O único detalhe que o diferencia de Bush é que não se constitui em seu caso na chave-mestra de sua política externa. Mas serve para ele justificar a manutenção das leis de guerra para combater o terrorismo, em vez do regime que garante o estado de direito utilizado pelos parceiros europeus contra uma praga violenta que consideram uma questão de segurança interna.

Enquanto durar essa disputa sem fim, Obama se considera autorizado a manter comissões militares para julgar os terroristas, e, nos casos em que não seja possível, um sistema de detenção indefinida, ambas questões seriamente impugnadas pelas associações de defesa dos direitos humanos, apesar de que o presidente quer introduzir garantias, submeter esse sistema a um controle judicial comum e fundamentá-lo em uma legislação aprovada pelo Congresso.

Tudo isso é Bush, mas corrigido. E combina com a negativa de Obama a fazer contas com o passado: seu antecessor pode ter-se equivocado, mas o objetivo era o mesmo. Embora novamente haja aí uma diferença: Bush e os seus gostariam de se cobrir pessoalmente legalizando as indignidades que estavam cometendo em nome da razão de Estado; Obama quer cobrir a Constituição e a exemplaridade dos EUA através de um sistema legal que mantenha o equilíbrio talvez impossível entre segurança e liberdade.

O ex-vice-presidente Cheney o criticou no discurso que pronunciou no mesmo dia em um centro de pensadores ultraconservadores: não há meias tintas diante do inimigo. Mas outros neoconservadores o aplaudiram, embora com não pouca ironia. Veja-se o que escreveu Charles Krauthammer, talvez o mais brilhante e cáustico dos colunistas conservadores: "As políticas de Bush na guerra contra o terror não vão esperar a reivindicação dos historiadores. Obama o está fazendo um dia após o outro. Suas recusas não significam nada. Basta olhar os fatos" ("The Washington Post", 22 de maio).

É muito preocupante a convergência entre os extremos, os defensores de Bush de um lado e a esquerda do outro. Alguns pela pomba assustada e outros pelo falcão camuflado; os primeiros por não reconhecer os méritos antiterroristas do antecessor e os segundos por não reivindicá-los, mas como delitos diante de uma comissão da verdade ou inclusive diante dos tribunais. Obama prometeu fechar Guantánamo em um ano, proibiu a tortura, fechou os cárceres secretos e anulou as ordens jurídicas que interpretavam distorcidamente as convenções de Genebra.

Mas quando quis concretizar sua política antiterrorista sofreu um revés muito sério no Congresso, onde nenhuma das duas câmaras quis aprovar as verbas para desmontar Guantánamo e transferir os presos perigosos para instalações em território americano. Os congressistas, em uma atitude de populismo "nimby" ("not in my backyard", isto é, não no meu quintal), rejeitam a transferência de presos perigosos para seus respectivos Estados devido aos prejuízos eleitorais que possa lhes causar, com grande alegria dos neoconservadores. Uns e outros, em troca, não têm problemas para pedir que os europeus aceitemos mais presos do limbo jurídico antilhano.

Na biografia, que é como dizer na classe social, nada há de Bush em Obama. O que em um é herança no outro é experiência: o que em um é privilégio no outro é mérito. Mas em suas políticas há um fundo comum que tem a ver com os valores e a tradição política compartilhada, que o primeiro forçou até a tergiversação e o segundo quer recuperar em toda a sua excepcionalidade e valor exemplar. A resposta à pergunta inicial se formula em outros termos quando se dirige a nós, europeus, como aliados que somos dos EUA: até onde a quantidade de Bush que há em Obama impedirá que se recupere o ritmo na relação transatlântica?

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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