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31/05/2009

Facilidade na circulação de armas ilegais provoca alto índice de mortes na América Latina

El País
Fernando Gualdoni e Javier Lafuente Em Madri
Os recentes julgamentos contra dois dos mais conhecidos traficantes de armas, o russo Víktor Bout - aliás O Mercador da Morte - na Tailândia (pendente de extradição para os EUA para agosto) e o sírio Monser al Kassar (condenado em fevereiro a 30 anos de prisão em Nova York) revelaram como é simples colocar armas ilegalmente na América Latina, o papel crucial que desempenha a América Central, especialmente a Nicarágua, nesse negócio e a ameaça que representa o fato de um país como a Venezuela fabricar seus próprios fuzis e munições.

Para deter Bout e Al Kassar, a agência antidrogas americana alegou que ambos tentaram vender lança-mísseis portáteis terra-ar russos SAM para as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). A rota prevista para as duas operações era semelhante: as armas partiam da Romênia ou Bulgária e entravam pela Nicarágua. Do país centro-americano iam cair de paraquedas em território colombiano.

"Não há provas de que o governo de Ortega seja cúmplice do tráfico, mas sem dúvida o país tem enormes lacunas legais que facilitam o tráfico", diz Roberto Orozco, especialista nicaraguense do Instituto de Estudos Estratégicos e Políticas Públicas. "É verdade que não se pode afirmar que Manágua esteja diretamente envolvida, mas deve-se lembrar que Ortega deu abrigo a narcoterroristas das Farc", retruca o colombiano Alfredo Rangel, diretor da Fundação Segurança e Democracia em Bogotá.

Os portos nicaraguenses estão entre os maiores escoadores de armas da região, segundo fontes da Defesa dos EUA. "Especialmente o porto de Corinto", indica Orozco. "É o único de águas profundas e está controlado pelo exército e a polícia, que fazem vista grossa. Não há estatísticas confiáveis sobre a quantidade de barcos que atracam ali, mas não é preciso pensar em 20 ou 30; dois ou três bem carregados são suficientes para abastecer o mercado de milhares de armas", acrescenta.

Há mais de 80 milhões de armas ilegais na América Latina, segundo o Centro para a Informação de Defesa (CID) de Washington. Qualquer criminoso, até o mais imbecil, tem acesso a uma pistola e até um fuzil. Nem falar das narcoguerrilhas e do crime organizado; estes carregam lança-foguetes como qualquer espanhol leva um pão.

Os dados são brutais. O índice de homicídios - 140 mil por ano, segundo o Banco Mundial - é mais que o dobro da média mundial. Vários países têm um índice de crimes por 100 mil habitantes mais que alarmante: Brasil, 28; Colômbia, 65; El Salvador, 45; Guatemala, 50; Venezuela, 35. A violência também golpeia a economia latino-americana. O custo dessa praga é estimado em 14,2% do PIB regional, segundo o relatório "Crime e Violência no Desenvolvimento Social" do Banco Mundial.

Além disso, o tráfico ilícito de armas está cada vez mais estreitamente ligado ao narcotráfico. No Peru há alguns meses tocaram todos os alarmes quando o exército comprovou que os resquícios da guerrilha maoísta Sendero Luminoso, hoje dedicada à produção e venda de cocaína, tinha em seu poder lança-foguetes RPG-7, metralhadoras pesadas e fuzis Kalashnikov, todos de origem russa. O rearmamento senderista já custou a vida a cerca de 500 soldados peruanos em 12 meses.

No final de abril os senderistas tentaram derrubar um helicóptero em que viajava o comandante em chefe das Forças Armadas, general Francisco Contreras. O coronel Jorge de Lama estava no aparelho. "Dispararam contra nós duas granadas de RPG, mas por sorte caíram longe. Não creio que soubessem que nele ia o general Contreras, simplesmente apontaram para um helicóptero militar que estava em sua área", relata De Lama, referindo-se ao vale dos rios Apurimac e Ene, a inacessível área de Ayacucho onde o Sendero está desde sua criação nos anos 1980.

O exército peruano resiste a revelar as rotas de abastecimento de armas dos senderistas, mas não se atreve a negar que o porto amazônico de Iquitos é um buraco negro para a segurança do país. A esta cidade estavam destinados os 50 mil Kalashnikov que Vladimiro Montesinos, o sinistro ex-chefe do serviço secreto peruano no governo Fujimori, comprou na Jordânia. Mas 10 mil dessas armas acabaram nas mãos das Farc. O restante nunca foi entregue porque Amã deteve a operação.

Iquitos e a fronteira entre os países andinos e o Brasil, o golfo de Urabá, que une a Colômbia e o Panamá, a tríplice fronteira entre Paraguai, Brasil e Argentina - região onde o Hizbollah tem uma forte influência -, são alguns dos principais pontos de contrabando na região. A América Central e em especial Guatemala e Nicarágua adquiriram nos últimos anos especial relevância como porta de entrada dos carregamentos.

Rangel lembra que assim como a Nicarágua já é chave no comércio ilegal, a Venezuela desempenha um papel relevante. Como boa parte das armas que acabam no mercado negro procede da polícia e do exército - roubadas ou vendidas pelos próprios agentes ou militares -, há sérios temores de que parte dos 100 mil Kalashnikov que Caracas comprou da Rússia acabe nas mãos dos narcos. No entanto, o maior perigo, aponta Rangel, será constituído pela fábrica venezuelana sob licença de armas e munições russas.

Enquanto as armas abundam na região, as munições são escassas. O calibre 7.62 mm, usado pelos fuzis russos AK-103 adquiridos pela Venezuela, é o mais desejado pela região e especialmente pelas Farc, que ainda possuem pelo menos 5 mil armas que precisam dessa munição. Hoje se consegue no Peru e na Bolívia, mas em pequena quantidade. A fabricação desse calibre na Venezuela oferecerá às narcoguerrilhas uma fonte ilimitada de munições dentro do continente.

Fora os canais de tráfico de armas que remontam à época do auge das guerrilhas, nas décadas de 70 e 80 do século passado, se fortaleceram na região os controlados pelo crime organizado. Os intercâmbios de droga por armas que os cartéis da droga colombianos inauguraram em meados dos anos 90 com a máfia russa proliferaram. Assim como a cocaína sai da Colômbia, Peru e Bolívia para a Europa através da Venezuela, Equador e Brasil, as armas percorrem o mesmo caminho em sentido inverso.

Adelaida Vásquez e Carolina Gabea são testemunhas quase diárias desse tráfico. Ambas são fiscais de Ciudad del Este, a cidade paraguaia colada ao Brasil e à Argentina e um dos maiores focos de contrabando de armas na América do Sul e passagem do tráfico do Brasil para Peru e Colômbia. Têm uma queixa em comum: poucos recursos e o inimigo em casa. "A polícia nacional não só não nos ajuda como nos boicota. Temos um grupo de agentes especiais, mas são poucos diante de tanto crime", explica Vásquez, que sobre drogas e armas já viu de tudo. "Uma vez confiscamos uma metralhadora antiaérea de uns narcos... eu não podia acreditar", acrescenta. Vásquez é de Ciudad del Este, mas Gabea está na cidade há quatro anos e é de Assunção. "É perigoso ser legal e trabalhar aqui, mas se a pessoa se mantém limpa o narco não costuma se meter. Faz parte do jogo", diz Gabea.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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