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31/05/2009

Saramago se choca com Berlusconi

El País
Miguel Mora e Jesús Ruiz Mantilla Em Roma e Madri
A editora italiana Einaudi, que publicou até agora todos os romances de José Saramago, não editará "O Caderno", o livro do Nobel português que reúne os textos políticos e literários de seu blog, que começou a escrever em setembro do ano passado - caderno.jose-saramago.org. O motivo da ruptura com a editora de Silvio Berlusconi é que o livro contém julgamentos e desqualificações críticas de Saramago sobre o primeiro-ministro italiano. O autor de "Ensaio sobre a Cegueira" diz, entre outras coisas: "Na terra da Máfia e da Camorra, que importância pode ter o fato comprovado de que o primeiro-ministro seja um criminoso?"

"O Caderno" será publicado na Itália pela editora Bollati Poringhieri, de Turim. Em uma nota oficial, a Einaudi, que faz parte do império editorial Mondadori, explicou que não publica o livro porque, entre outras coisas, ele qualifica Berlusconi de criminoso. "Trate-se dele [Berlusconi] ou de qualquer outro expoente político de qualquer partido, a Einaudi respeita a liberdade de crítica, mas rejeita assumir uma acusação que seria condenada em qualquer julgamento". Saramago, 87 anos, não poupa críticas ao "Cavaliere" em seus comentários, que acompanham pontualmente a atualidade italiana dos últimos meses. Em algum trecho chega a compará-lo com um "capo" da Máfia.

Ao ser interpelado sobre esse epíteto, Saramago respondeu: "Acham realmente exagerado? Têm certeza? Pelo menos vamos concordar que ele tem uma mentalidade mafiosa".

A Einaudi se recusou a publicar outros textos críticos nos últimos tempos, por exemplo, as poesias políticas póstumas de Giovanni Raboni ou "O Corpo do Capo", de Marco Belpoliti. Saramago considera que a censura da Einaudi se deve ao fato de ele ter escrito sem qualquer tipo de amarra sobre Berlusconi como chefe de governo e o problema é que ele também é dono da editora e de muitos outros meios de comunicação na Itália.

Segundo o autor de "Memorial do Convento", a situação seria pitoresca se não significasse que o acúmulo de tantos poderes nas mãos de um político põe em risco a qualidade da democracia italiana. No livro, que foi publicado em abril em Portugal e esta semana na Espanha pela editora Alfaguara, Saramago distribui reflexões a torto e a direito: de Bush a Blair, de Aznar ao papa, passando por Fidel Castro, Guantánamo, Israel, Davos ou Wall Street.

Em 4 de dezembro de 2008 Saramago escreveu: "Sinto-me insignificante diante da dignidade e a coragem de Roberto Saviano, um professor condenado à morte por ter escrito um livro ("Gomorra") de denúncia contra uma organização criminosa capaz de sequestrar uma cidade e seus cidadãos".

José Saramago compreende perfeitamente que a editora Einaudi, com a qual manteve uma relação de duas décadas, não publique seu livro. "É normal. Eu posso entender. Se o fizessem, seriam demitidos", afirmou na sexta-feira o prêmio Nobel português ao "El País". De qualquer forma, sente-se em paz. Prefere romper sua relação com a editora de Berlusconi. "Para mim é um alívio. Pode ser que isto acabe definitivamente minha relação com eles. Sou muito fiel a meus editores em todo o mundo, mas se eu tiver que fazer, faço, e é isso."

Assim que, segundo ele mesmo anuncia, "minha próxima novela, que será publicada no outono em Portugal, Brasil e Espanha, não sairá por essa editora. Sinto, porque por outro lado sempre me trataram com o máximo respeito e consideração".

Em seu último livro, Saramago arremete contra o primeiro-ministro italiano. Não se retrata, pelo contrário. "O que digo sobre ele é mais ou menos o que todo mundo pensa, com exceção de seus eleitores. Dizemos que a democracia é o melhor dos sistemas, e é verdade. Mas sua fragilidade é enorme. Quando aparece um senhor assim, que utiliza os piores métodos e consegue milhões de votos, o que estranho é que não se levantem vozes indignadas que protestem, que não ocorra um movimento social de rejeição pelo mero fato de que ele arruína o prestígio de seu país", afirma.

Para Saramago, o maior risco de figuras como Berlusconi está na linha fina que não deixa entrever certos limites. "Os que existem entre seus negócios privados e a esfera pública. Alguém capaz de promover subornos e comprar vontades é capaz de tudo. Berlusconi o fez. Não se pode dizer que não seja um criminoso porque não assassinou ninguém nem roubou a mão armada. Existem muitas outras maneiras de sê-lo."

As formas do primeiro-ministro italiano, para Saramago, excedem muitos limites. "Deve ser também a União Europeia que chame sua atenção. Devem lhe dizer que as suas não são maneiras de se comportar na esfera pública e que casos como o dele desacreditam a política. "Ainda mais agora, em plena campanha eleitoral. "Um cidadão médio europeu tem todo o direito de se perguntar que Europa é esta que aplaude um senhor que se comporta com tão má educação nas reuniões internacionais. Não o contiveram a tempo, e as pessoas, com razão, começam a se perguntar, como Cícero: 'Até quando continuará abusando de nossa paciência?'" A editora Einaudi, do primeiro-ministro italiano, recusa-se a publicar "O Caderno", último livro do prêmio Nobel Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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