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01/06/2009

Hannah Montana substitui Bambi no universo da Disney

El País
Juan Diego Quesada
Hannah Montana, Jonas Brothers, High School Musical? A Disney criou um novo universo que toma conta do mundo infantil e adolescente do século 21. Este é o seu segredo

No quarto de um hotel cinco estrelas no centro de Madri, pouco antes da entrada de Miley Cyrus - a atriz de 16 anos que interpreta Hannah Montana -, quem aparece é seu pai, o conhecido cantor de country Billy Ray Cyrus. Maquiado e sorridente, a primeira coisa que ele faz é esclarecer que o líquido avermelhado balançando dentro do copo que leva nas mãos é suco. Ele está lá para apresentar o filme que protagoniza junto com Miley. Ele fala de fé, de superar os obstáculos que a vida apresenta e várias outras coisas. Antes de sair, já com um pé para fora, o interrompem:

- Qual é o segredo do seu sucesso mundial, Billy Ray?

- Seja você mesmo e faça as coisas com o coração, com pureza.

Os que o escutam ficam em silêncio. Ou não entenderam nada ou acham que Billy Ray foi embora com o segredo dentro do bolso.
  • Michaela Rehle/Reuters - 25.abr.2009

    Miley Cyrus dá autógrafos em Munique, Alemanha

  • Eduardo Anizelli - 24.mai.2009

    A banda Jonas Brothers se apresenta em SP

  • Chris Pizzello - AP 14.abr.2009

    Vanessa Hudgens integrou o High Music School



Nem Bambi nem Mickey Mouse, símbolo da Disney durante décadas, estão no tapete vermelho hoje em dia. A geração "tween", de crianças entre 8 e 12 anos de idade, idolatra uma fornada de artistas adolescentes (de carne e osso) que fazem de tudo. Cantam, dançam e emprestam seu rosto a mercadorias como copos ou tubos de pasta de dente. Não usam piercings nem têm tatuagens. Ao contrário: leem a Bíblia, recebem um salário mensal e alardeiam que ainda são virgens. Falamos dos Jonas Brothers, uma banda pop formada por três irmãos de quinze anos de Nova Jersey; da própria Miley Cyrus, e de Zac Efron e Vanessa Hudgens, os protagonistas de High School Musical (HSM). Eles movimentam US$ 2,9 bilhões por ano. O mundo se rendeu a esses jovens com acne e ares de que acabaram de tirar o aparelho dos dentes, que sem dúvida seriam os amigos favoritos para os pais de muitos adolescentes.

Há 58 anos, Bob Iger nasceu numa família de classe média em Long Island (Nova York). O pai, trompetista de jazz, trabalhava como publicitário. Iger lembra de ter visto, ainda pequeno, os desenhos animados do Mickey, sentado na frente de um velho televisor na sala de sua casa. Há pouco tempo, confessou à revista Fortune que havia baixado aquela série em seu Ipod. É a nostalgia, talvez porque não lhe reste outro remédio. Iger, estudante exemplar e funcionário metódico, presidente da Disney desde 2005, dirige uma companhia mastodôntica que passou por momentos difíceis. Com Mickey e Minnie longe dos holofotes, os adolescentes são agora a imagem e a marca da Disney. O segredo de Iger, segundo os analistas, consiste em tirar o máximo de rendimento de todas as divisões da companhia, usar a versatilidade dos artistas, que cantam, dançam e atuam, para fazer filmes, séries, shows, musicais, turnês promocionais... Todos se lembram de Inger, em meio à uma tormenta na bolsa de valores, anunciando que a terceira parte de HSM estava prestes a estrear. Era um aval.

Billy Ray é descrito como o homem que se esconde por trás da menina que transforma tudo o que toca em ouro. Ele não se preocupa em excesso, nem mesmo quando disseram a ele em Madri que esse mundo cor de rosa que ele apregoa não existe. "Não somos perfeitos", responde, "mas a religião e os valores são muito importantes para nós". O filme que ele promovia foi campeão de bilheteria durante seu primeiro fim de semana (€ 2,7 milhões de arrecadação) e a trilha sonora ocupa o primeiro lugar nas vendas.

Billy Ray, compositor quase anônimo de uma música que chegou à Espanha com o título "No rompas más mi pobre corazón", lembra-se de uma tarde há quatro anos, quando se apresentou com uma guitarra, junto com Miley, diante dos executivos da Disney. A companhia planejava lançar, em seu canal a cabo, uma série sobre a vida de uma cantora adolescente de sucesso (Hannah) que, durante o dia, com outra identidade, tenta levar uma vida comum. Os dois foram escolhidos, a série arrasou; a história deu o salto para o cinema em 2009 e os discos que gravaram são sucesso em todos os países. Miley, a quem a revista Forbes situa agora entre as vinte estrelas mais poderosas abaixo dos 25 anos, acumula uma fortuna pessoal próxima de € 1 bilhão.

E a própria Disney foi pega de surpresa com tanto sucesso, o de Hannah e dos demais artistas adolescentes. Constrangidos, os executivos da empresa quase não tinham palavras para explicar o fenômeno. Mas não perderam nenhum minuto e colocaram a máquina para funcionar. Além de discos e filmes, sua vida inteira poderia girar em torno de Hannah, HSM ou dos Jonas Brothers: pijamas, pentes, maletas, MP3 e um gigantesco etc. Você pode dançar como eles, vestir-se como eles e, quando eles chegarem à sua cidade, ir correndo comprar ingressos para o show.

José Vila é vice-presidente e diretor-geral do Disney Channel na Espanha e Portugal e também se surpreende com a forma como a companhia está explorando essas franquias para adolescentes. "Hoje em dia oferecemos algo mais atual, que combina música e dança com histórias mais próximas das crianças. São histórias universais", diz ele. E assinala que a força da Disney está em sua flexibilidade, no fato de que um produto feito para televisão pode se transferir para a indústria musical, para os DVDs ou para os produtos de consumo.

Assim como milhões de pais, Antonio Del Valle, comerciante de 36 anos, se pergunta: "Que raios posso fazer?". Enquanto isso, Irene, sua filha de 11 anos, devora o menu infantil da lanchonete. "No Natal comprei para ela a roupa de Hannah Montana e as joias. No aniversário, o videogame e o disco. Até assinamos a TV a cabo", relata Antonio. Irene ri como um ratinho e conta que suas amigas também são fanáticas.
"Hannah tem os mesmos problemas que nós com os meninos", acrescenta.
Os pais, agora mais do que nunca, consultam os filhos sobre o que comprar, e os publicitários consideram que a geração tween abre um novo mercado apetecível, superinflado por pais generosos e avós carregados de presentes. Susan Linn, professora da Universidade de Harvard, acha que os pais se veem obrigados a acreditar que seus filhos "tem que ter experiências adultas logo", como ir a um grande show, por exemplo. A autora do livro intitulado "Crianças Consumidoras" explica que os pais têm um medo excessivo de decepcionar seus filhos e não suprir suas expectativas.

Os jovens da Disney já estão há três anos nas capas das revistas. Uma delas é a Bravo, uma publicação juvenil de grande sucesso. Para sua diretora, Katrin Senne, nada disso a tomou de surpresa. "Estrelas adolescentes que fazem sucesso? Não é nada novo. A novidade é que agora elas envolvem também a nós, adultos, que acompanhamos nossos filhos nos cinemas ou em shows. E no dia seguinte comentamos isso no trabalho". José María Castillejo, um dos criadores de Pocoyo, uma série espanhola de qualidade para crianças pequenas, concorda e diz que eles, que em muitos casos tomam a Disney como referência, são obcecados em satisfazer os pais. "Tem de ser algo divertido, para toda a família", acrescenta.

O sucesso desses adolescentes, para o especialista em psicologia Ramón Soler, se deve ao fato de que, antes, nas sociedades tradicionais, os adolescentes tinham que superar uma série de provas para se transformar em adultos. Os ritos "hoje desapareceram, e as crianças suprem essa perda projetando-se em seus ídolos", disse Soler. Há outros que são muito críticos, como José Manuel Errasti, professor de psicologia da Universidade de Oviedo, que chama atenção para o fato de que esses personagens são cantores, e não trabalhadores metalúrgicos ou desempregados. "A Disney cria uma vida fictícia na qual os jovens se sentem seguros, mas que é irreal", comenta. Errasti acredita que a companhia vende um conjunto completo com roupa, música, cinema, discos, e... ideologia. "É a ideologia conservadora americana, que obriga a deixar as coisas como estão. As crianças vivem num universo onde o que importa é saber de que menino você gosta e como você penteia o cabelo".

No eBay já chegaram a pagar cerca de € 1.500 pelo ingresso para um show desses jovens, quando a média de grupos como o U2 ou Springsteen está em torno dos € 250. Kevin, Joe e Nick são os três irmãos que formam a banda The Jonas Brothers e que assinaram com a Disney para gravar o filme Camp Rock, no qual interpretavam um grupo convidado para um acampamento de aspirantes a cantores. O pai dos meninos é músico e pastor, e a mãe é atriz e cantora. Eles são o produto perfeito para a companhia. Educados e gentis, os três enaltecem a sua castidade. "Eles são pessoas", disse o pai deles em várias ocasiões, "não foram fabricados em um laboratório de produtos Disney".

Os críticos de música chegaram a comparar o furor causado pelos jovens da Disney com o sucesso provocado nos anos 70 por quatro rapazes que atendiam pelo nome de The Beatles. Quem são esses adolescentes, como se atrevem? Muitos se perguntam. Aparentemente eles não são nada arrogantes e fogem da aura de jovens ricos e malditos.

Britney Spears, outra garota da companhia que se desviou do bom caminho, é tudo o que eles não querem ser. Há alguns dias, Miley Cyrus escreveu em seu Twitter que as pessoas não deveriam perder tempo chamando-a de gorda, depois que ela mesma fez piada com suas coxas.
"Leiam a Bíblia", aconselhou aos seus críticos.

Tradução: Eloise De Vylder

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