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02/06/2009

A esquerda chega ao poder pela primeira vez em El Salvador

El País
Por Pablo Ordaz Enviado especial a San Salvador
Esta segunda-feira é dia de festa aqui, mas na terça, justamente no momento em que os mandatários convidados para a posse do primeiro presidente esquerdista da história de El Salvador forem embora, Mauricio Funes ficará só diante de um país em vertigem, golpeado pela desigualdade e o crime. E "só" não é nenhum exagero. Este jornalista de 49 anos, pai de quatro filhos e casado três vezes, terá de escolher entre a rota da Venezuela e Cuba que lhe indicam os velhos comandantes guerrilheiros da Frente Farabundo Marti para Libertação Nacional (FMLN) ou tomar a sua própria, que tem em Luiz Inácio Lula da Silva seu modelo ideal e em Barack Obama seu aliado necessário.

Primeira-dama brasileira

  • Vanda Pignato e Mauricio Funes comemoram com simpatizantes vitória nas eleições salvadorenhas

  • Vanda esteve sempre presente na campanha eleitoral de Funes

Não se deve esquecer que um terço dos sete milhões de salvadorenhos trabalha nos EUA e que suas remessas (mais de R$ 7,5 bilhões por ano) representam o segundo pilar da economia do país, depois das exportações.

Passaram dois meses e meio desde aquela noite histórica de 15 de março. O candidato do FMLN acabava de ganhar as eleições por uma margem estreita, 52,2% dos votos contra 48,7% do partido de direita, a Arena, que vinha governando El Salvador sem interrupção desde 1992, quando terminou uma guerra civil na qual se perderam 12 anos e mais de 75 mil vidas.

Naquela noite, assim que soube da vitória, Funes - paletó escuro e camisa branca sem gravata - compareceu em um hotel ladeado pelos velhos comandantes com suas "guayaberas" vermelhas. Funes parecia feliz; os comandantes, sérios. Era um símbolo. Do afortunado coquetel que os levou ao sucesso eleitoral, mas também das dificuldades de se colocá-lo em prática. Essas dúvidas ainda não desapareceram.

Além disso, houve momentos nos últimos dois meses e meio nos quais parecia que o perfil de Funes - um homem cujo discurso se cruza continuamente com a palavra "diálogo", mas cujo caráter é forte e, às vezes, apressado - se chocava de forma frontal com as aspirações dos dirigentes da FMLN, uma formação cuja ideologia se mantém praticamente intacta desde o fim da guerra.

"Depois de ganhar as eleições", explica um dirigente da FMLN, "houve dez dias em que tememos o pior. Mauricio foi praticamente sequestrado por seus colaboradores de fora do partido e não atendia o telefone quando lhe chamávamos. Então demos um soco na mesa. Dissemos a ele: nós não teríamos ganhado sem você, mas você também não sem nós. A FMLN não pode ser um elemento decorativo no governo. Se você fracassar também será nossa responsabilidade". O momento mais tenso ocorreu quando Funes, de férias no Brasil, mandou publicar um anúncio pago nos jornais em que criticava um dirigente da FMLN por declarações feitas sobre política econômica: "O único autorizado a falar é o presidente eleito".

Com esse panorama, Mauricio Funes se dirigiria ontem pela primeira vez à nação como presidente. Escutando-o na primeira fila estaria Hugo Chávez, mas também Hillary Clinton. Daniel Ortega, mas também Álvaro Uribe. A transição política em El Salvador - realizada de forma requintada pelos dirigentes de direita e esquerda - provocou uma tal expectativa que 62 mandatários assistiram. Além de Clinton, Chávez e Lula, o novo presidente terá reuniões bilaterais com os príncipes de Astúrias e com o presidente do México, Felipe Calderón.

Nas últimas semanas Funes foi visto apertando a mão do presidente da Venezuela com a mesma força com que apertou, na recente cúpula de Trinidad e Tobago, a do presidente dos EUA. A velha guarda da FMLN está desejando - e assim o expressou - estabelecer relações com Cuba, mas um importante empresário salvadorenho afirmou no domingo a este jornal: "Mauricio nos tranquilizou sobre o futuro. Garantiu que não haverá alianças exóticas com a Venezuela ou com Cuba, e que manterá o entendimento com os EUA. Em troca, nos pede um esforço fiscal, e estamos de acordo. Ele quer se parecer com Lula e nós gostaríamos que El Salvador fosse parecido com o Brasil..."

Pranto pelo filho assassinado em Paris
Mauricio Funes mandou seu filho Alejandro estudar fotografia em Paris. Queria que se formasse, mas também desejava - como tantos outros pais salvadorenhos - salvá-lo do perigo das "maras", dos assaltos de rua, da extorsão e do crime. El Salvador, com 12 homicídios por dia, é o país mais violento da América Latina. E Paris não parecia um mau lugar para colocá-lo em segurança.

Mas em 2 de outubro de 2007, poucos dias depois de ser designado oficialmente candidato da FMLN à presidência de El Salvador, Mauricio Funes recebeu uma ligação da França. Seu filho de 27 anos acabava de ser agredido perto do Museu do Louvre. Encontrava-se em coma em consequência de um traumatismo craniano grave. Sete dias depois Alejandro Funes morreu.A esquerda chega ao poder pela primeira vez em El Salvador

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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