UOL Notícias Internacional
 

02/06/2009

Duas mulheres à espera de asilo na Espanha relatam como fugiram da mutilação genital

El País
Por Jaime Pratts Em Valência (Espanha)
Ester chegou à Espanha vinda da Eritreia. Mary, do Senegal. A vida dessas duas mulheres foi marcada pela mutilação genital que é praticada em seus países. Agora esperam que o governo espanhol aceite seu pedido de asilo. Buscam refúgio na Espanha alegando perseguição por motivos sexuais.

Quando sua madrasta disse a Ester, de 21 anos, que tinha um marido para ela, a garota fugiu de casa e de seu país. Não só lhe causava terror o casamento com um velho desconhecido. Sabia que, como marca a tradição de sua tribo, o passo anterior à cerimônia era a ablação do clitóris. E tinha horror a esse momento: "Muita gente morre, é muito doloroso, amigas do colégio não sobreviveram".

"Iam me levar para uma mulher me mutilar", relata na sede de Valência da Comissão Espanhola de Ajuda ao Refugiado (CEAR), que encaminhou o pedido pelo estatuto de refugiada. "Então peguei o dinheiro que encontrei em casa e fugi."

Ela chegou ao Marrocos por estradas em uma longa viagem da qual não quer dar detalhes. "Não quero falar disso", comenta. Só indica que saiu para o Sudão "de caminhão". E que muitas mulheres morrem ou são violadas na estrada em sua fuga para a Europa. Também não deve ter sido nada simples sua entrada em Ceuta, pelo Marrocos. Para evitar os controles e a barreira de segurança que separa a cidade espanhola do país africano chegou a nado, como afirma em seu pedido de asilo. Agora, enquanto espera que se resolva a solicitação, assiste aulas de encanamentos, eletricidade e solda. "Espero poder trabalhar logo, ganhar um pouco de dinheiro e começar os estudos de engenharia que não pude fazer em meu país."

Ester conseguiu escapar de uma tragédia que afeta 80% das mulheres que vivem na Eritreia, Somália, Sudão e Etiópia, países onde é mais difundida essa violação. A Unicef calcula que entre 100 milhões e 130 milhões de mulheres africanas sofreram a extirpação parcial ou total de seus genitais. Cerca de 26 milhões sofreram a forma mais extrema, que inclui o clitóris, os lábios menores, parte dos maiores e a sutura da vagina, com a única exceção de uma pequena abertura para eliminar a urina e o fluido menstrual. A violência é praticada principalmente em meninas. Dois milhões de menores correm todo ano o perigo de sofrer a mutilação, e em alguns países o costume é praticado com as recém-nascidas, como ocorre com a metade das meninas eritreias que sofrem a ablação, segundo a organização humanitária.

O norte do Senegal é outra área onde a mutilação é transmitida com força, de geração em geração. Mary (nome sob o qual oculta sua verdadeira identidade) é uma enfermeira senegalesa de 46 anos que cansou de ver no hospital em que trabalhava as "barbaridades" que ocorriam com as mulheres mutiladas, "sem nenhum tipo de higiene nem instrumental adequado". "Quando não eram infecções recorrentes e dolorosas, eram partos complicados ou cesarianas repetidas em mulheres muito jovens que não podiam dar à luz de forma natural", relata. "Lembro o caso de uma jovem de 18 anos. Era seu quarto parto e sua quarta cesárea. Ela e o bebê morreram."

Então se transformou em ativista contra a mutilação feminina. Primeiro conscientizou seu entorno, "casa a casa". Com o tempo foi estendendo sua capacidade de mobilização em círculos cada vez maiores, até criar uma associação que pôs em guarda os grupos mais conservadores do país. "Chegaram a me agredir na rua por causa disso", conta enquanto mostra uma cicatriz na fronte direita e várias outras nos braços.

Há seis meses saiu de seu país de férias para a Espanha e não pôde voltar. "Recém-chegada me disseram que a polícia me procurava e que havia revistado minha casa." Ela foi acusada de um aborto que tinha praticado há muito tempo. "A única coisa que fiz foi evitar que a mãe morresse", afirma.

Agora sua preocupação máxima são seus filhos de 13 e 15 anos. "Estão com vizinhos, meu marido morreu", indica. Mas além disso essa mulher teme que, se lhe derem asilo, seja para residir em Portugal, destino para o qual recebeu o visto. A norma europeia estabelece que a permissão seja concedida pelo país que concede o visto. "Seria uma pena, porque esta mulher já criou redes com associações senegalesas em Valência, se integrou e seria muito duro para ela ter de voltar a começar de novo em outro país", afirmam no gabinete jurídico da CEAR-Valência.

Existem precedentes que deram razão a casos como o de Ester ou de Mary. O último foi publicado em 22 de maio. Uma resolução do Tribunal Supremo reconheceu a condição de refugiada de Bola O., uma nigeriana que chegou à Espanha fugindo de um casamento imposto depois de ter sido mutilada sexualmente. O caso também foi defendido pelo CEAR-Valência. O Departamento de Asilo e Refúgio do Ministério do Interior o recusou em 2004 por considerar que a mutilação genital feminina não era motivo para pedir a condição de refugiada. Depois de várias disputas judiciais o alto tribunal reconheceu o direito dessa mulher ao estimar que existem indícios suficientes para considerar que existiu "uma perseguição pelo fato de pertencer ao gênero feminino que lhe impõe um casamento indesejado e lhe mutilou um órgão genital".

Só no CEAR-Valência há uma dezena de pedidos de asilo por motivo de gênero, aos quais se somam dezenas no resto do país. E não se trata só de mulheres que fugiram da mutilação sexual. Há cada vez mais homossexuais ou transexuais perseguidos em seus países que chegam buscando refúgio.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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