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03/06/2009

Farc: a maior guerrilha da América Latina vive seu pior momento

El País
Maite Rico Em Madri (Espanha)
Haviam prometido um "maio negro" para comemorar os 45 anos de sua fundação, mas a celebração não foi tão sangrenta quanto pretendiam as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). As autoridades frustraram vários atentados, embora os ataques tenham deixado cerca de 20 mortos. São os estilhaços da que chegou a ser a guerrilha mais poderosa da América Latina e que hoje vive o pior momento de sua história.

As baixas e sobretudo as deserções dizimaram seus efetivos, que passaram de 18 mil para 8 mil desde 2002. Quarenta por cento das frentes estão inativas. Doze de seus principais chefes se refugiaram na Venezuela e no Equador, segundo um relatório de inteligência divulgado na semana passada. Só três dos sete membros da cúpula (o número 1, Alfonso Cano; o chefe militar, Mono Jojoy, e Mauricio Jaramillo) enfrentam a ofensiva das forças de segurança. Se em 2000 chegaram a cercar a capital, Bogotá, hoje as Farc estão escondidas em recantos da selva e recorrem a ações de baixo risco, como emboscadas e a colocação de minas, para proteger seu principal recurso econômico: o narcotráfico.

Pouco resta daquelas autodefesas camponesas que nasceram em maio de 1964, em meio a uma sangrenta repressão, para proteger as "repúblicas independentes" criadas pelas guerrilhas liberais e comunistas na região de Marquetalia, no centro andino do país.

Os comunicados conservam uma retórica de outros tempos, que hoje, alheia à realidade da Colômbia, parece extravagante. "As circunstâncias políticas são propícias para o movimento armado. Estamos coesos, atuando sobre nossa linha político-militar, que vamos atualizando à luz do marxismo-leninismo", reza um texto do último dia 16. Pedro Antonio Marín, o Tirofijo, fundador das Farc que morreu há um ano, deixou tudo "organizado e regulamentado" para tornar realidade o projeto revolucionário. "É preciso que a maioria do povo colombiano se una a nossa plataforma."

O povo colombiano se pronunciou apoiando desde 2002, com maiorias inéditas, o presidente Álvaro Uribe, artífice da estratégia que terminou por encurralar as Farc. Nas ruas, milhões de pessoas exigiram que o grupo armado ponha fim à violência. Seu sangrento históricos de atentados, matança de civis, sequestros e abusos nas áreas sob seu controle aproxima as Farc mais de um grupo mafioso do que da guerrilha que nasceu para defender "os despossuídos e os justos".

A chegada ao poder na Venezuela de Hugo Chávez e seu projeto bolivariano proporcionou oxigênio para as Farc e compensou a rejeição interna. Os computadores confiscados do número 2 da guerrilha, Raúl Reyes, morto em 2008 em um bombardeio no Equador, revelaram e ajudaram a neutralizar uma vasta rede de apoio, tanto nos países vizinhos como em grupos da extrema-esquerda latino-americana e europeia.

Mas o verdadeiro poder das Farc, consideradas terroristas pelos EUA e a UE, está no narcotráfico. A guerrilha é hoje um grande cartel. Segundo a agência antidrogas americana, DEA, cerca de 50% da cocaína que entra nos EUA passa pelas mãos das Farc, que controlam os cultivos e a fabricação da droga. O negócio lhe dá cerca de US$ 300 milhões anuais, e aí a retórica revolucionária se evapora: a guerrilha não hesitou em aliar-se com antigos chefes paramilitares, como Daniel Loco Barrera e Pedro Guerrero, o Cuchillo, para proteger o negócio da cocaína no sudeste colombiano. A droga chega aos EUA e à Europa através da Venezuela e do Suriname, principalmente.

É exatamente o narcotráfico o que complica extraordinariamente qualquer solução para o conflito. Quatro presidentes desde 1982 fracassaram em sua tentativa de buscar a paz com as Farc. O governo colombiano dá por certo que não vai acabar militarmente com o grupo armado: sempre restará um núcleo, dizem os especialistas, de perfil criminoso, ligado ao tráfico de drogas. Por isso os esforços se concentram em "recuperar" os setores mais ideológicos e as próprias bases, integradas por milicianos muito jovens, aos quais se oferecem programas de reinserção.

A estratégia de negociação de Uribe, encabeçada pelo comissário Frank Pearl, já está traçada. Não haverá mediadores internacionais, mas "gente de dentro". A discrição substitui o espetáculo político. O ex-guerrilheiro Yesid Arteta deixou Barcelona para se transformar em "instrutor de paz" e propiciar a aproximação de seus antigos camaradas. Outros comandos, como Karina e Olivo Saldaña, uniram-se a um esforço incerto que, em todo caso, não dará frutos antes das eleições presidenciais de 2010.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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