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03/06/2009

"Gritou 'Sou médico' e atiraram nele": lembranças do massacre da Paz Celestial

El País
José Reinoso Em Pequim (China)
Shao Jiang estava há quatro anos como estudante na Universidade de Pequim (Beida), a mais renomada da China, quando eclodiram as manifestações. Transformou-se em um de seus líderes, fez greve de fome e foi um dos últimos a sair da praça na madrugada de 4 de junho. O que ele viveu naqueles dias marcou sua vida para sempre. Incluído pela polícia na lista dos manifestantes mais procurados, foi detido depois de três meses em fuga e passou um ano e meio na prisão.

1989

  • AP

    Wang Dan, estudante, um dos líderes do movimento pela democracia, na praça Tiananmen chamando a população para uma marcha pela cidade.

Depois de ser libertado, foi submetido a prisão domiciliar, interrogado diversas vezes e seguido pela polícia secreta por continuar pedindo reformas políticas. As autoridades tentaram suborná-lo sem sucesso para que renunciasse a sua dissidência. Quem ia lhe dar trabalho era ameaçado. Em 1997 exilou-se na Europa; primeiro na Suécia, depois no Reino Unido. Atualmente é pesquisador na Universidade de Westminster (Londres) e continua seu ativismo em defesa dos direitos humanos na China. É especializado em transição de regimes totalitários e autoritários na antiga União Soviética, nos países do Leste Europeu e da Ásia oriental. Tem 42 anos. Assim conta ao jornal EL PAÍS o que aconteceu naqueles dias.

"1989 era meu quarto ano como estudante em Beida, e como muitos outros estudantes e pessoas comuns na cidade e outras partes da China pensava que nosso país estivesse preparado para uma mudança. A morte de Hu Yaobang em 15 de abril desencadeou os protestos em Pequim. Dois dias mais tarde, cerca de 200 universitários fizeram uma manifestação sentados diante da Assembleia Nacional. Eu fiz o rascunho do documento chamado 'Demandas em Sete Pontos' e o cotejei com outros estudantes antes de entregá-lo ao Congresso.

Pedimos democracia, liberdade e luta contra a corrupção. Cada vez mais gente se unia ao movimento pró-democrático, que rapidamente se estendeu pelo país. Dezenas de milhões de pessoas saíram às ruas.

Mas quando chegou a noite de 3 de junho havia dezenas de barracas na praça Tiananmen e alguns manifestantes estavam em greve de fome. Então não sabíamos, mas os acontecimentos que iam ocorrer nas horas seguintes mudariam a China para sempre.

Desconhecíamos que os líderes do partido tivessem dado ordens estritas ao exército: limpar a praça de manifestantes antes do amanhecer. Para tanto, as tropas primeiro tiveram de abrir caminho nas ruas próximas, derrubando as barricadas que bloqueavam sua passagem e matando os que resistiam ou se colocavam em seu caminho.

Uma das rotas levou os soldados ao longo da parte oeste da avenida Changan. Quando chegaram as notícias à praça Tiananmen sobre os terríveis acontecimentos que estavam ocorrendo, alguns amigos e eu fomos tentar ajudar. Corremos ao longo da avenida. Quando chegamos ao hotel Yanjing era por volta das 11 da noite. Ali eu vi os tanques e os caminhões do exército cheios de soldados disparando contra os civis que estavam diante deles e os pedestres dos dois lados da rua. Também havia soldados a pé atrás dos tanques e dos caminhões. Encontramos várias pessoas no chão e fizemos o possível para colocá-las em lugar seguro. Mas para alguns manifestantes era tarde demais. Espero nunca voltar a ver tantos cadáveres como naquela noite.

Quando vi que os tanques e os caminhões se dirigiam para o leste pela avenida, corri de volta para Tiananmen. No cruzamento de xis os tanques tinham sido detidos temporariamente pelas barricadas. Quando tentavam empurrá-las, um homem com um avental branco caminhou lentamente para um ferido na rua enquanto gritava para os soldados 'Não disparem, sou médico'. Atiraram nele imediatamente. Na rua Nanchizi havia pessoas gritando 'Fascistas, assassinos'. Atiraram nelas.

Depois se soube que as mortes na zona oeste de Changan foram as mais numerosas naquela noite, embora haja poucas imagens gravadas daquilo devido ao grande perigo. Yan Wen, um de meus companheiros de classe na Universidade de Pequim, foi morto por um tiro em Muxidi enquanto fotografava os disparos.

Voltei à praça nas primeiras horas de 4 de junho. Cerca de 2.500 pessoas estavam reunidas ao redor do Monumento aos Heróis do Povo, situado no centro da imensa praça. Havia dezenas de milhares de soldados com tanques em três lados. Fizemos uma votação oral para decidir se devíamos permanecer ou não, e concordamos em evacuar a praça pacificamente. Nesse momento as luzes se apagaram de repente. Os soldados se lançaram para as escadas do monumento, empurrando-nos com suas armas e golpeando com barras de ferro. Em meio ao pânico, muitos manifestantes foram pisoteados e ficaram feridos. Ainda hoje não sei o que aconteceu com eles. Os tanques se dirigiam para nós, arrasando tudo à sua passagem.

Eu quis ver se havia alguém dentro das barracas, mas quando tentei um soldado me apontou sua arma. Me apressei a sair da praça. Na camiseta tinha sangue dos mortos e feridos que tinha ajudado a mover em Changan. À diferença de muitos outros naquela noite, escapei sem danos. Nas semanas seguintes, com as forças de segurança caçando os manifestantes pró-democracia, fugi através de meia China e me refugiei em várias casas no sul do país. Meu plano era escapar para Macau."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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