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09/06/2009

O fracasso socialista abre uma nova etapa na construção europeia

El País
Andreu Missé Em Bruxelas
A queda histórica registrada pelos socialistas na Europa abre uma nova etapa na construção europeia, marcada por um progressivo distanciamento dos cidadãos do projeto da União Europeia (UE). Os partidos conservadores, o Partido Popular Europeu (PPE) e o novo grupo liderado pelos conservadores britânicos (tories), com mais de 320 lugares ao todo, se encontram com as mãos muito mais livres para gerir as nomeações dos futuros dirigentes da UE. A virada à direita que vinha ocorrendo nos últimos anos registrou na segunda-feira um forte impulso, aproveitando o desinteresse das classes trabalhadoras e médias pelas ofertas da esquerda europeia.

Os radicais chegam ao Parlamento Europeu

Trágico","angustiante","horrível", "desesperador"... A arrasadora irrupção de partidos antissistema no Parlamento Europeu provocou na segunda-feira uma cascata de desqualificações de alto a baixo na União Europeia, em particular por políticos cujo fracasso nas urnas deu lugar a um grupo heterogêneo de extremistas, xenófobos, eurófobos, eurocéticos e populistas de todo tipo. O rótulo genérico de"radicais"pode cobrir mais de 120 dos 736 deputados da nova Eurocâmara, uma relação de cinco para um que dá uma perspectiva ao fenômeno e permite aventurar que os partidos convencionais não os deixarão sequestrar o Parlamento, apesar do ruído que vão produzir

A evolução do voto socialista seguiu a mesma trilha descendente que a participação. Nas quatro primeiras eleições para o Parlamento Europeu, entre 1979 e 1994, os socialistas conseguiram a vitória e a participação esteve sempre acima de 55%. A virada ocorreu há dez anos, com a primeira vitória do PPE e com uma participação abaixo de 50%. Essa tendência de queda foi se aprofundando até que no último domingo a participação ficou em seu nível histórico mais baixo, 42,94%, arrastando o Partido Socialista Europeu (PSE) para a catástrofe, com 21,9% dos votos.

Os resultados ressaltaram que os socialistas foram incapazes de formular uma estratégia europeia própria para a grave recessão econômica. Ao não apresentar soluções propriamente europeias nos momentos mais difíceis da crise e nem sequer um candidato para a presidência da Comissão para enfrentar Barroso, eleito pela direita, o debate político se desenvolveu nos cenários nacionais, onde os discursos com sotaque mais nacionalista sintonizaram mais com os cidadãos que foram votar.

Com somente 21,9% dos votos, o PSE se encontra mais perto dos liberais (10,9%) que do PPE (35,7%), que superam em 100 deputados a segunda força. O PSE se reunirá na próxima sexta-feira para analisar o fato e "refletir". Na segunda-feira, seu presidente, Poul Nyroup Rasmussen, reconheceu que o resultado "foi decepcionante", mas o atribuiu ao fato de que "nossos eleitores simplesmente não viram a relevância destas eleições". Apesar da decadência, Rasmussen se opôs aos que "anunciam uma profunda crise do socialismo europeu". Na opinião dele, "os cidadãos europeus ainda dependem dos valores democráticos e do trabalho decente, e este não é o momento de desmontar nossos estados do bem-estar social".

Na realidade, o avanço dos conservadores se vê mascarado pela deserção dos conservadores britânicos. O partido de David Cameron aspira a formar um novo grupo próprio no Parlamento Europeu que poderia contar com 60 deputados. A eles se uniriam os tchecos do ex-primeiro-ministro Mirek Topolanek, os poloneses do Lei e Justiça, dos irmãos Kacyznski, e outros quatro pequenos partidos. Com eles os conservadores podem acumular até 320 deputados, mas ainda longe da maioria absoluta de 369 deputados.

Em uma posição mais cômoda, o presidente do PPE, o belga Wilfried Martins, ofereceu ontem uma "grande coalizão" aos socialistas e aos liberais porque considera que "falta uma maioria no Parlamento Europeu, porque apesar de nosso sucesso nenhum grupo político tem a maioria absoluta e é preciso negociar". O PPE quer negociar porque quer acelerar a nomeação de José Manuel Barroso como presidente da Comissão Europeia.

O Conselho Europeu, que se reúne nos próximos dias 18 e 19, ainda não decidiu sua nomeação oficial enquanto não se esclareça o futuro do Tratado de Lisboa, nas mãos dos irlandeses. Os mais reticentes a acelerar esses trâmites são o presidente francês, Nicolas Sarkozy, os liberais e os verdes. Sarkozy e a chanceler alemã, Angela Merkel, que junto com Silvio Berlusconi foram os grandes vencedores do último domingo, se reunirão nesta terça-feira para preparar a próxima cúpula.

Graham Watson, presidente dos liberais, citou na segunda-feira a possibilidade de "uma coalizão de três partidos", da qual participarão o PPE, os liberais e os socialistas. Mas na opinião dele seria preciso "encontrar uma aliança de centro-direita para administrar o Parlamento, mas o que eu vejo seria uma aliança ideológica e política, mais que um acordo técnico como se conheceu no passado". Liberais e conservadores somariam 348 deputados. Os liberais estariam dispostos a dividir a presidência do Parlamento com o PSE, da mesma maneira que na legislatura passada o fizeram o socialista Josep Borrell e o democrata-cristão Hans Gert Pöttering. O acordo enfureceria os conservadores poloneses de Donald Tusk, que tiveram um excelente resultado, e os italianos de Berlusconi, que também aspiram ao lugar.

A oposição mais firme à nomeação de Barroso vem dos verdes, chefiados por Daniel Cohn-Bendit e cujo grupo registrou aumento de deputados mais notável, até 52 lugares. O objetivo de Cohn-Bendit é "criar uma maioria suficiente no Parlamento Europeu com o fim de impedir que Barroso exerça um segundo mandato". Para isso estão dispostos a negociar com os socialistas, os liberais e a esquerda unida, grupo que também registrou significativo declínio, passando de 41 para 33 deputados.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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