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13/06/2009

Eleições presidenciais no Irã - Por que tenho de usar lenço?

El País
Ángeles Espinosa Em Teerã
As filas nas portas dos colégios eleitorais no Irã deram uma prova da alta participação, e também foram um amostra da diversidade local. Mulheres com chador, meninos de cabelos gelificados, funcionários vestidos de cinza, garotas com falsos lenços Hermès e maquiagem de estrela de cinema, saltos altos, tênis, sapatos de domingo. Todos os Irãs possíveis foram votar ontem. Mas o entusiasmo parecia maior entre os que buscavam mudança, principalmente jovens e mulheres profissionais.

  • O candidato Mir Hussein Mousavi vota ao lado de sua mulher Zahra Rahnavard nesta quinta-feira (12) nas eleições presidenciais no Irã. Zahra teve participação significativa durante a campanha

"Só votei no referendo para a república islâmica e hoje, depois de 29 anos, decidi voltar a fazê-lo porque creio que Mousavi vai defender os direitos das mulheres e dos jovens", afirma Saide Roshanfekr. Essa dona de casa de 52 anos, que espera com paciência sua vez diante da mesquita de Al Rasul, na praça de Kaj, noroeste de Teerã, afirma que se seu candidato for eleito e não cumprir suas promessas se sentirá legitimada a reclamar seus direitos.

Mir Hosein Mousavi se comprometeu durante a campanha a trabalhar para acabar com a discriminação das mulheres na legislação iraniana. Além disso, em um gesto inédito no país, o candidato que levanta a bandeira reformista contou com a presença em seus comícios de sua esposa, Zahra Rahnavard, artista e professora universitária de reconhecido prestígio. A visibilidade dessa mulher contrasta com o segundo plano a que o regime islâmico quis confinar as iranianas.

Na sexta-feira Rahnavard foi votar com seu marido e os dois colocaram os votos ao mesmo tempo na urna. "Nos preocupamos com o futuro de nosso país, e este governo não deu respostas aos jovens", explicou Shaghayegh nas portas da escola primária masculina Mártir Bahonar. Esta engenheira elétrica de 25 anos denuncia as dificuldades da vida cotidiana no quarto produtor mundial de petróleo. "Sou de Rasht, mas tive de vir para Teerã para encontrar um trabalho decente", conta.

Ao seu lado, uma amiga que tem mestrado em informática queixa-se do salário que lhe pagam na universidade. "A liberdade também é importante para nós", acrescenta Shaghayegh diante da anuência de sua companheiras. "Sou muçulmana, mas por que tenho de usar este lenço? Qual é a diferença entre meu cabelo e o de um rapaz? Por que tenho de esconder meu corpo com esta túnica?"

A veemência de suas palavras, no mais correto inglês, fez com que o lenço escorregasse sobre seu cabelo e uma de suas amigas o ajeita. Todas sabem que Mousavi não vai fazer milagres. "Pelo menos nos deu esperanças. É um homem educado, que entende melhor o mundo e que como presidente dará uma imagem melhor de nosso país", conclui.

Esse problema da imagem preocupa muitos jovens e não tão jovens. Durante dezenas de conversas mantidas na sexta-feira nas filas de votação, foi um tema recorrente. "Nós, iranianos, queremos ter um presidente que seja respeitado no mundo", defende Grigor, um jovem armênio para quem o desejo de mudança na política externa foi fundamental na hora de decidir seu voto.

E esse desejo de reverter a situação atual não se limita às classes médias urbanas e educadas. Também entre os jovens das classes operárias Mousavi teve certo apelo. "Vou votar em Mousavi", afirma Mahdi, no colégio eleitoral da praça de Khorasan, um bairro modesto de tendências conservadoras no sul da capital. Este jovem de 22 anos, cujo cabelo espetado revela um corte pouco de acordo com a ortodoxia imperante, repete o mantra oficial de que não importa quem for eleito, mas o fato de participar. Sim, mas há menos de um ano, durante o mandato de Ahmadinejad, a polícia moral detinha rapazes que, como ele, se atreviam a usar esse penteado considerado ocidental.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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