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14/06/2009

Anatomia da Berluscolândia

El País
Por Miguel Mora
Todos os fins de semana, dezenas de voos oficiais e particulares levam para a Sardenha um exército de belas mulheres que entretém o chefe de governo italiano e seus amigos. Depois das acusações da primeira-dama e do "Noemigate", a Itália revela ao mundo seu clima de decadência. Isso terá consequências para Berlusconi?

Jardins infinitos, lagos artificiais, órgãos sexuais à mostra, jogos lésbicos, efeitos especiais, pizza e sorvete grátis... Um asilo geriátrico cheio de corpos imponentes. As fotos censuradas na Itália por iniciativa de Silvio Berlusconi mostram a rotina desinibida da mansão do chefe de governo, localizada na Costa Esmeralda da ilha de Sardenha.

  • EL PAÍS/Reprodução

    Imagem veiculada pelo jornal El País mostra mulheres seminuas em festa de Berlusconi

Segunda-feira, dia 1º, jardins do palácio presidencial de Quirinal, festa da República: centenas de homens importantes do regime sobem para cumprimentar o primeiro-ministro, encurralado pelas reações provocadas pelas notícias de sua amizade com Noemi Letizia, uma garota de 18 anos. Cerca de 70% desses homens chegam para saudar Berlusconi
de braços dados com suas filhas, e não com suas mulheres. Bem vindos à Berluscolândia, o país onde todas as jovens querem ser "velinas" (apresentadoras de televisão).

Visitemos agora Villa Certosa, a misteriosa mansão sardenha do magnata milanês que ocupa o posto de primeiro-ministro da Itália e a atual presidência rotativa do G-8 eleito a mãos erguidas pelo partido Povo da Liberdade. Desde que foi divulgada a história de Noemi Letizia, a jovem napolitana de 18 anos que chama Berlusconi de "Papi" e passou o final de ano na casa com outras 30 velinas, todos os italianos fantasiam com esse nome: Villa Certosa. A propriedade é o sonho de muitos: oliveiras e palmeiras, piscinas em toda parte, sorvetes e pizzas de graça e à vontade, lagos artificiais, um anfiteatro onde as canções napolitanas de Berlusconi são tocadas e cantadas pelo inevitável Mariano Apicella, que gravou dois discos interpretando as letras do primeiro-ministro.

O mar turquesa, a grande casa principal, as salas secretas, o canal subterrâneo que liga o mar diretamente à propriedade - inspirado em um filme de James Bond -, o parque com sessenta hectares de terreno, os bangalôs que o dono coloca à disposição de suas convidadas (sempre em número maior que o de homens, na proporção de quatro para um), tudo
isso reformado e renovado em 2006 por módicos 12 milhões de euros.

Segundo uma fonte fidedigna, a propriedade esconde até mesmo um refúgio nuclear no subsolo, cujas provisões são renovadas com frequência. E então chegam as velinas, essas belezas que talvez, quem sabe, acabarão contribuindo para que esse singular período da história seja conhecido como berlusconismo-velinismo.

A beleza da palavra velina (não confunda com bellina [bonitinha]) é tão sugestiva quanto sua origem: a velina era o comunicado que o departamento de censura do fascismo mandava aos jornais dizendo o que podiam ou não podiam escrever. Esse significado de algo fora de contexto foi aplicado, com o tempo, às apresentadoras de televisão que
apareciam em áreas alheias à sua função de vasos de flores, por exemplo, junto à mesa onde os jornalistas leem as notícias. "Chegou a velina". O apelido colou, e até hoje é assim.

Ainda que sempre tenha sido um segredo para o resto do mundo, a Itália sempre conviveu, sem a mínima repreensão moral, com o fato de que Silvio Berlusconi conheceu, cortejou, convidou, recomendou, deu emprego, ajudou e promoveu centenas de velinas durante sua carreira política. A lista é enorme e anônima demais para ser reproduzida aqui.

Durante uma década de visitas, festas e escapadas, quase todas elas, e muitas outras, devem ter passado por Villa Certosa. Os melhores corpos da Itália. Os rostos mais inocentes e bonitos. Aspirantes a modelos, atrizes, vedetes, balizas, apresentadoras. Mulheres muito jovens, de 17 e 18 anos até 28 ou 29, não mais do que isso: borboletas recém
saídas da crisálida familiar que entraram para o harém do xeique. Quando as acolhe em seu círculo, revela Concita de Gregório, diretora do diário L'Unità, "entrega a elas uma joia em forma de borboleta, como um selo de contrato. É o selo do sultão."

A política-espetáculo de Berlusconi, sua disposição personalista e plebiscitária, seu fascínio de magnata generoso e mulherengo, seduziu durante quinze anos as massas de telespectadores e eleitores italianos com suas piadas, seu estilo machista, seus foras, sua ascensão social, seus triunfos eleitorais, e até mesmo com as vitórias e as contratações de seu time de futebol (esta semana segurou o anúncio da saída de Kaká até segunda-feira para não perder um só voto).

Tudo isso é parte natural de sua bagagem apolítica e acultural, de seu populismo aberto e mundano, que paradoxalmente se apoia num não-programa não-político, tradicionalista e católico, levemente inspirado na trindade "Deus, pátria e família". Há de se acrescentar: "e algumas velinas".

Villa Certosa é o símbolo de status mais discreto do Cavaliere, seu refúgio não só nuclear. É seu tesouro, seu segredo mais bem guardado, o lugar onde este homem de quase 73 anos, multimilionário e prepotente, simpático e midiático, recebe suas amigas e amigos, celebra conselhos informais de ministros, fecha ou prepara negócios e façanhas políticas, acolhe os líderes da direita mundial, cuida de suas crisálidas, senta suas velinas no colo e passeia com elas de carro de golf pelo parque, zona militarizada e secreta do Estado desde 2006.

Segundo a narrativa das fotos de Antonello Zappadu, Villa Certosa é também o lugar onde o magnata megalomaníaco, o personagem excessivo, cômico e mitômano, esquece-se de que já é avô (e que deixou o quarto que dividia com sua mulher há uma década) e se transforma em macho outra vez, no xeique do harém, no Super-Silvio moreno e perpétuo, e
operado (também da próstata), enquanto a Itália sussurra preocupada que ele toma muito Viagra e que os médicos temem por seu coração.

Villa Certosa é, além disso, o lugar para onde sua amiga napolitana Noemi Letizia, de 18 anos recém completos, foi convidada a passar as férias de fim de ano com outras trinta colegas e uma dezena de nomes importantes do berlusconismo, quase todos setentões como ele: a gerontocracia e as jovens impressionantes.

Como disse o filósofo Paolo Flores d'Arcais, "a pergunta não é o que acontece ou aconteceu em Villa Certosa, mas sim o que aconteceria nos Estados Unidos se descobrissem que Obama passou as férias de Natal com 30 vedetes de 18 anos e sem sua mulher, ou na Alemanha, se divulgassem que Angela Merkel passa as férias com 30 gigolôs musculosos".

No caso dessas jovens mulheres italianas, trata-se de realizar um sonho, de alcançar a meta: conhecer Silvio e seus amigos poderosos, trabalhar na televisão e talvez chegar à política, o que no país da RAI e da Mediaset, controladas pelo mesmo homem, são a mesma coisa.

Muitas dessas jovens se limitaram, tragicamente, a encarnar o modelo de seus pais: o conformismo da desencantada geração pós-68 que se vulgarizou na frente da televisão durante os anos 80 e 90 vendo a dissolução da Democracia Cristã, o exílio de Bettino Craxi, a transformação da outrora brilhante esquerda italiana, com a queda do Muro de Berlim, em uma casta oligárquica, cansada e distante das necessidades do povo.

Para uns isso pode parecer repugnante; para outros, uma visão de mundo pragmática e humana, a da ascensão social. Mas, existe melhor forma de triunfar na Itália da televisão do que estar próximo, muito próximo, do grande patrão da televisão europeia e talvez mundial?

Berlusconi, escreveu Eugenio Scalfari, é o Rei Sol. Como disse um político sardenho, "se você se aproxima do sol, o sol o ilumina e o esquenta". E segundo afirma outro mestre dos jornalistas, que sofre represálias da direita, Giancarlo Santalmassi, "metade da Itália trabalha para Berlusconi, a outra metade deseja fazê-lo."

Visitar Villa Certosa garante a essas jovens seu lugar ao sol, um telefone para o qual podem ligar, talvez uma recomendação do próprio imperador, um empurrãozinho para o alto, um casting para participar na volta a Roma ou Milão no domingo à noite ou na segunda de manhã, depois de noites longas e divertidas, das histórias políticas de
Silvio, dos passeios, das saídas para fazer compras no centro comercial de Porto Rotondo (Papi paga até 1.500 euros para cada uma), dos bailes desenfreados, de alguns striptease incentivado mais pelo álcool do que por dinheiro, do machismo em sua pior índole.

Não é fácil estar entre as escolhidas, chegar a ser uma vestal de Villa Certosa, afirma um político sardenho, que prefere não se identificar por razões de segurança: "Quem visita a propriedade, conta; quem dorme ali, conta muito; e quem passa férias, está no coração do César".

O César tem outras sete propriedades na Sardenha, uma em Antígua, incontáveis mansões em Roma e em Milão, mas Villa Certosa é a medida de todas as coisas. Inclusive os ministros e ministras de gabinete estão entre os inúmeros convidados habituais (como o silencioso Gianni Letta) ou ocasionais - que foram apenas uma vez, ou para participar
de algum conselho de ministros (ou de administração) fora de temporada.

Entre as ministras, a que mais esteve lá foi Mara Carfagna, titular da pasta de Igualdade de Oportunidades, e que por certo é honrada por sua fidelidade, pois foi a única que se atreveu a defender a atuação de Berlusconi ao longo do caso Noemigate. A seu ver, Berlusconi está sendo atacado por inveja e sem razão, porque é uma pessoa "boa".

Para as jovens, a melhor forma de entrar lá é capturar o olhar de especialista do velho mulherengo. Como aconteceu com Noemi Letizia, com a própria Carfagna e com tantas outras centenas de jovens. Noemi, uma jovem doce criada em ambientes próximos à Camorra napolitana, queria ser artista. Assim, fez um book e enviou para uma agência de
Roma. O jornalista do Canale 4 Emilio Fede, íntimo de Berlusconi, recebeu o book e o levou debaixo do braço, e por acaso o esqueceu sobre a mesa; seu chefe pegou o telefone e ligou para o celular da jovem. Disse que ela tinha um olhar angelical e que deveria continuar assim, pura.

Isso foi em outubro, revelou Gino, operário que era namorado de Noemi até o aparecimento de Papi, numa entrevista a La Repubblica. Pouco depois, Noemi foi vista numa festa da moda em Villa Madama, e outra em Milão. Em ambos os casos, colocaram-na nas mesas presidenciais. Segundo Berlusconi e os pais dela contaram, a amizade já era antiga;
Gino e uma tia de Noemi desmentiram.

O caso é que, em dezembro, Noemi estava em Villa Certosa com sua amiga Roberta, uma das três amigas com as quais gravou um vídeo caseiro que circula pelo Youtube no qual se declaram fantásticas e inalcançáveis. Mas pode ser que esse vídeo seja anterior, uma vez que a própria Noemi declarou, quando começou a tornar-se famosa, que havia visto Papi muitas vezes, e que ele nem sempre podia ir a Nápoles porque estava muito ocupado, e que ambos cantavam juntos as músicas de Apicella. Agora a jovem, numa última tentativa desesperada de salvar as coisas, disse numa entrevista à revista Chi, que obviamente pertence a Berlusconi, que ainda é virgem.

Outra forma de chegar a Villa Certosa, de atingir o status de borboleta e passar a fazer parte da coleção do grande entomologista, é conhecer os amigos do sultão. Melhor ainda se estes forem empresários VIP do círculo estritamente judicial (que une muito as pessoas), como Marcello dell'Utri ou o chefe da escuderia Renault Flavio Briatore (que recomendou a Berlusconi o advogado britânico David Mills, criador corrupto do império Fininvest B), ou o complacente Fede Confalonieri, presidente da Mediaset.

Também não é nada mal conhecer alguns brilhantes jornalistas de terceira idade, estrelas refulgentes do firmamento televisivo oficialista, gente como Fede (autor do telejornal mais surrealista do continente), ou como o sempre submisso Bruno Vespa, capaz de entrevistar seu amo doze vezes por ano e evitar sempre as perguntas incômodas.

Todos eles fazem parte da essência decadente do berlusconismo-velinismo, e como tal, frequentam a casa de Sardenha há anos. Buscam segurança, compadrismo, calor, calma, relaxamento e corpos bonitos para aliviar o estresse do angustiante exercício da política, da corrupção e do sempre cansativo (para as vértebras) jornalismo de câmara.

Há, claro, vias intermediárias, provedores diversos, aficionados ao esporte do gineceu, mães alcoviteiras dispostas a renovar gratuitamente o grupo mágico do ilusionista, ministros, vice-ministros e secretários de Estado dispostos a trazer novidades às escondidas, esse enorme círculo formado por filhas de amigos, conhecidos, vassalos, empregados, a prima de curvas promissoras do porteiro, do guarda-costas, da cozinheira, a sobrinha do vigilante, a aspirante a modelo que manda suas fotos por e-mail ao Palazzo Chigi com seu número de celular escrito com letras imitando batom.

Toda Itália está envolvida no jogo, todo o país sabe dele, e o problema é todos falam, mas não citam nomes. Déspotas, imperadores, monarcas e comendadores ao longo da história encheram seus salões com jovens mulheres, mas agora as pessoas têm medo, o encobrimento é condição indispensável para que a hipocrisia não termine, a informação está sob controle direto ou indireto do imperador (publicidade institucional, subvenções públicas, promessas, favores...), se alguém sai do silêncio, pode perder o posto, a Igreja de Roma não deve se envolver (e por isso pede sobriedade, como todo crítico); e além disso há uma crise, e vivemos num país subterrâneo por definição, esse maravilhoso "belpaese" que sempre se declarou orgulhoso de sua arte para improvisar um meio de vida, "tanto faz França ou Espanha, o importante é que se mangia [se come]".

A entrada das velinas televisivas na política, que está na origem dessa crise moral, era consequência inevitável da história do sistema. A Forza Italia nunca foi um partido, mas um grupo de torcida, de empregados comandados por Dell'Utri que recrutaram às pressas o quadro inteiro de secretárias da empresa Publitalia em 1994 para preencher a
tempo as listas de candidatos.

Seu sucessor, o Povo da Liberdade, tampouco é um partido, é mais uma enxurrada de conselheiros medíocres, gestores submissos e rostos bonitos sem tradição, ideologia, ou bases. A televisão e a propaganda são a única política; e a política se faz na televisão. A Itália continua sendo o paraíso do pistolão, quem não tem uma amigo está órfão, e o grande eletricista chefe se chama Silvio. Silvio "aggiustatutto" [conserta tudo].

Berlusconi é o benfeitor; os colégios e as casas estão cheios, transbordando de belas jovens, e o lugar onde elas se reúnem é Villa Certosa.

Basta ouvir o que diz a ex-professora de Noemi Letizia: "É muito lógico, ele vai ajudá-la, é conveniente para todos ter amigos, um médico que lhe dê receitas".

Elisa Alloro, uma das velinas que estiveram na casa-mãe, publicou esta semana um livro interessante, chamado "Noi, le ragazze de Silvio" [algo como "Nós, as garotas de Silvio"]. Ela revela que também chamava Berlusconi de Papi, e não só ela, muito antes que a gata borralheira Noemi aparecesse na vida do Cavalieri.

A velina jornalista de 32 anos, nascida em Reggio Calabria, participou do curso de formação política de 25 jovens velinas do PDL, organizado com vistas às eleições europeias, pelo ministro de Exterior, Franco Frattini, e pelo vice-presidente do Parlamento Europeu, Mario Mauro, entre outros, a pedidos do primeiro-ministro.

Era apresentadora. Agora foi pré-selecionada pelo Cavaliere, entre outras, junto com Eleonora Gaggioli, aspirante a atriz; Camila Ferranti, aspirante a apresentadora; Angela Sozio, ruiva do Big Brother a quem Zappadu fotografou em 2007 sentada sobre o colo do primeiro-ministro (com mais quatro), e Barbara Matera, que concorre ao Miss Italia, amiga do doutor Letta, e por fim (depois da acusação de Verónica Lario) a única candidata velina que restou das 25
pré-candidatas.

A primeira que chamou Berlusconi de Papi, revela Alloro, foi Renata, uma velina brasileira torcedora do Milan. O apelido se espalhou como um vírus. "E agora, muitas 'ragazze' se dirigem a ele com esse nome, é um costume, talvez fruto de um acordo tácito, uma espécie de código, quem sabe, nascido do temor atávico de serem interceptadas (pelas
escutas telefônicas)".

O livro, de 100 páginas, escrito em forma de carta a Verónica Lario, diz que as acusações são "quinquilharias" e defende o chefe: "Ele é uma mina de sabedoria, cada minuto passado com ele é como se fosse um dom divino".

Segundo seu relato, ela conheceu Berlusconi em 2004, quando trabalhava para a Mediaset. Devia entrevistá-lo sobre a ponte do Estreito de Messina, mas em apenas um piscar de olhos viu-se catapultada para a Sardenha, "num almoço de trabalho com profissionais da equipe presidencial, em que eu era a única mulher", escreve.

Chegaram juntos do aeroporto romano de Ciampino, sede dos voos oficiais do Estado, a bordo do avião presidencial; durante a viagem, descobriu que Berlusconi sabia tudo sobre ela ("me mostrou um dossiê volumoso"), e fez uma oferta de trabalho que ela recusou. "Explicou que estava organizando uma força-tarefa de 50 jovens jornalistas que fariam uma ponte de assessoria de imprensa entre Roma e Bruxelas. 'Isso seria muito conveniente para seu currículo', disse para mim..."

Acabado o almoço, voltou ao avião do Estado para ir ao estádio de San Siro, onde jogava o Milan. Escolta de carros oficiais, sirenes ululando e depois um novo traslado aéreo para Ciampino.

Depois de sair da Mediaset, Elisa continuou encontrando com Berlusconi: "Às vezes ele me convidava para ir a Villa Certosa, a jantares com dezenas de convidados". De Noemi, tem memórias vagas ("nos apresentaram brevemente durante uma festa"). Mas é impossível esquecer, escreve, as duas gêmeas montenegrinas que encenaram "uma
dança louca e disparatada diante dos olhos consternados do primeiro-ministro". E as "outras aparições não anunciadas, femininas ou não, à porta de seus quartos".

Isso é a Itália, já disse a primeira-dama, Verónica Lario, bem menos ressentida do que farta, patriota e revolucionária, ao condenar a podridão do berlusconismo-velinismo: "Pais dispostos a oferecer suas filhas ao Dragão", "baixaria política e machista sem pudores", um marido e um primeiro-ministro que "frequenta menores e não está bem". Impossível dizer mais em menos palavras.

A equipe do Cavaliere está a par das necessidades. Os jornalistas que cobrem os movimentos do primeiro-ministro contam que há uma moça bem vestida em sua equipe de imprensa que viaja com ele a todos os lugares, ainda que não saiba nem fazer um O com um canudo. Sua assessora de imagem, Miti Simonetto, encobre as falhas como pode e tenta fazer com que o César pareça honrado.

Há outro personagem misterioso, uma mulher quarentona, morena, bonita, sempre com tailleur, que Zappadu fotografou muitas vezes no aeroporto de Olbia. Trata-se de Sabina Began (SB), a preferida: a imprensa de fofoca de Roma a chama de abelha rainha. No dia da Libertação da Itália, em 25 de abril de 2008, durante os festejos da vitória
eleitoral, Berlusconi; o presidente do Senado, Renato Schifani; Apicella e outros hierarcas estavam rodeados por um ramalhete de mulheres bonitas. Don Silvio só tinha olhos para SB, e chegou a tatuar no tornozelo: "SB, o encontro que mudou minha vida". Enquanto a tinha em seu colo e cantarolava Malafemmena, Berlusconi disse: "Se houvesse um fotógrafo aqui, esta foto valeria 100 mil euros."

Como afirmou Lario, a história política que está em jogo vai muito além do caso Noemi. A pobre Noemi é só a última vítima desse gigantesco Grande Irmão. Será a casa, Villa Certosa, uma espécie de "Mil e Uma Noites", um bunker de luxo vulgar com jogos eróticos? Ou a Berluscolândia? Ou talvez algo pior e mais luxurioso? Com certeza, nenhuma dessas coisas apenas, mas uma mescla das três, respondem diversas fontes sardenhas. Assim como as fotos de Zappadu, que nos apresentam a esse submundo. A Berluscolândia é bela, isso não se pode negar, ainda que a natureza sardenha seja muito mais agreste e menos artificial que os postais com gramados aparados, canteiros redondos de ervas medicinais, e torres naghuras falsas.

A primeira coisa que salta à vista é o excesso. Sessenta hectares de terreno é muita coisa. Sobretudo na Costa Esmeralda da Sardenha. Cabem duas praias privadas, três lagos artificiais, meia dúzia de piscinas, o anfiteatro onde atuam Apicella (o cantor-intérprete para quem Berlusconi escreve), as bailarinas e bailaoras (a comunidade flamenca ainda se pergunta quem é e o que fazia essa intrusa lá).

De um lado da propriedade fica o Country, um dos lugares preferidos do primeiro-ministro, uma discoteca com velas, almofadas orientais e um quarto privado chamado, ironias à parte, de Harém. Mas não sofram as almas cândidas. Nenhum dos milhares de visitantes de Villa Certosa jamais falou de sexo. Ali não há sexo. No máximo, sorvete.

Beppe Severgini, comentarista do Il Corriere, explicou assim: "Villa Certosa está assumindo, nas fantasias nacionais, uma magnitude lendária. Os amigos do protagonista, tentando minimizar, contribuem para enriquecer o teatro. Marcello Dell'Utri: "Há uma sorveteria. Você vai e servem quanto sorvete você quiser. Grátis. Se for pensar, é uma
invenção muito divertida". Flavio Briatore: "Há a brincadeira do vulcão. O grupo conversa sobre isso e aquilo e, quando se aproxima do lago, Berlusconi finge estar preocupado, dizendo que Sardenha é uma zona vulcânica. E, nesse momento, ouve-se uma explosão incrível, com efeitos de chamas..." Sandro Bondi, ministro da Cultura, tentou explicar a nudez de Mirek Topolanek, o ex-primeiro-ministro tcheco: "Bah... Por outro lado, pense que a propriedade está a poucos metros do mar. Um mar, como você deve saber, de uma beleza absoluta."

Dell'Utri não pode negar que sim, que ao mesmo tempo que tem sorvete e pizza, a propriedade sempre está cheia de jovens belíssimas, que passeiam e se banham, tomam duchas e se exibem.

O mais complicado para Berlusconi não será justificar essas fotos, que ele definiu como "inúteis". O problema é que há outras pessoas comprometidas. "Berlusconi sabe que há alguém infiltrado em Villa Certosa. Alguém de dentro que o traiu, mas não sabe quem é", explica Marco Mostallino, jornalista local. "Berlusconi deve acreditar que esta pessoa está entre os seguranças. Não por acaso acusou sua mulher, no jornal de seu irmão, de estar ligada a seu guarda-costas."

Villa Certosa é vigiada 24 horas como uma fortaleza por militares e policiais. Também há seguranças particulares, e outros que chegam de todas as partes. A história da segurança na Costa Esmeralda está ligada a um homem chamado Jan, primeiro promotor turístico de Sardenha, e começou com os vigilantes. "Jan contratou todos os homens disponíveis, e muitos deles tinham antecedentes", assegura Mostallino.

Alguns anos mais tarde, Berlusconi chegou à ilha. "Chegou com seu irmão Paolo em 1981 ou 1982", lembra-se o político sardenho. "Sua ideia era construir em um terreno de 200 hectares ao sul de Olbia, entre Le Saline e Capo Cerasso. Para pressionar, vinha com uns livros enormes que dizia conterem a valorização do impacto econômico. Viajava com um séquito de arquitetos, engenheiros, assessores fiscais, economistas. O projeto demorou dez anos para ser aprovado, só se permitiu fazer um quarto da extensão inicial, e na montanha, longe do mar. Mas quando foi aprovado, ele não tinha o dinheiro. Era 1993, em seguida ele entrou para a política."

Silvio e Paolo construíram a propriedade nos primeiros anos da década de 90. Com o tempo, foram transformando-a numa casa digna de um filme de James Bond. O irônico Severgini escreveu no Il Corriere della Será que algum dia alguém escreverá a história de Villa Certosa: "A cínica elasticidade italiana consentiria em contar muito, senão tudo. O
último obstáculo é a coerência oficial. Os políticos, até mesmo os menos preconceituosos, não estão prontos para admitir o que fazem, temendo que alguém os confrontem com o que dizem."

Tradução: Eloise De Vylder

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