UOL Notícias Internacional
 

16/06/2009

Brasil, Rússia, Índia e China se reúnem para buscar alternativas para a crise

El País
Soledad Gallego-Díaz Em Buenos Aires (Argentina)
Um dos organismos internacionais informais mais importantes do mundo é o chamado BRIC, que reúne Brasil, Rússia, Índia e China (as iniciais dão nome ao grupo) e que se transformou em um dos centros de debate mais interessantes. Os líderes dos quatro países, que se reuniram pela primeira vez em maio de 2008, voltarão a se encontrar hoje em Ekaterimburgo, na Rússia. Não se esperam acordos espetaculares nem o anúncio de um programa comum, mas sim uma decisiva troca de opiniões.

Os BRIC, que representam a metade da população mundial, 23% do PIB e mais de 40% da superfície terrestre do planeta, querem aprovar a crise para organizar um sistema internacional que deixe muito mais margem de manobra que o atual para alternativas de experiências sociais e políticas, explicou a "El País" o ministro brasileiro de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger, que acaba de participar em Moscou de uma reunião preparatória para a cúpula de junho.

Os quatro países do BRIC pedem um maior destaque nas decisões mundiais e concordam em uma agenda de cinco pontos na qual se destacam o debate sobre o dólar como moeda de reserva; o papel de organismos como o G20 e o próprio BRIC; a reestruturação do regime mundial de comércio; garantias para a segurança, com uma reconsideração do papel do Conselho de Segurança da ONU, e que a agenda de não-proliferação nuclear seja paralela a novas conversações sobre desarmamento.

Da reunião de Moscou participarão, além de Mangabeira, o secretário do Conselho de Segurança da Rússia, general Nicolai Patrushev; Dai Bingguo, um dos quatro membros do Conselho de Estado da China, e o conselheiro de Segurança da Índia, K. M. Narayanan. Os quatro países mantêm discrepâncias em temas fundamentais, como a posição da Organização Mundial do Comércio (OMC) em relação ao protecionismo agrícola, que a Índia e a China defendem para proteger sua agricultura familiar, enquanto os interesses do Brasil, grande exportador de alimentos, por exemplo, vão claramente em outra direção. Mesmo assim, a aproximação de posições nos cinco pontos mencionados representa uma das grandes novidades mundiais, e a reunião de junho está despertando um interesse extraordinário em todos os círculos políticos internacionais.

Embora o papel do dólar seja um dos temas mais atraentes da agenda BRIC, os outros quatro também são fundamentais:

Organismos - Formalizar algumas das organizações surgidas fora da estrutura da ONU, como o G20, o G8+5 ou o BRIC. Nenhum desses organismos deve nem pode ser comparado com o antigo "terceiro-mundismo" ou "não-alinhados", fundamentalmente porque três deles são potências nucleares e devido ao seu enorme poder humano e territorial.

Comércio internacional - Os BRIC temem que em nome do livre comércio lhes imponham fórmulas rígidas e se considere que os que se opõem a essas normas são contrários ao livre comércio, o que não é verdade. Por isso parecem mais interessados na estrutura do Gatt, muito mais minimalista que a da OMC.

Segurança - Um dos temas mais delicados da agenda internacional. O único sistema atual é o da ONU, apesar de todos os seus problemas e carências. Mas quando os EUA e seus aliados crêem que seu interesse nacional está ameaçado e que a ONU não lhes dá a resposta esperada, reagem atuando por fora da organização. O que se estuda não é tanto como impedir isso, que se considera inevitável, mas como torná-lo "mais caro", como aumentar o preço político a pagar por sair do sistema. Não evitaria ações unilaterais, mas faria que se refletisse mais antes de adotá-las. Nesse capítulo figura o debate sobre a ampliação dos membros do Conselho de Segurança.

Desarmamento nuclear - Dos quatro membros do BRIC, o Brasil é o único que não tem armamento nuclear, que renunciou a tê-lo e insiste no desarmamento. O Brasil luta por se manter na vanguarda dessa pesquisa, para que fique claro que se não tem armas atômicas é porque não quer, e não em consequência de um déficit tecnológico.

A cúpula de Ekaterimburgo também tratará de iniciativas para organizar o mercado de biocombustível e como trabalhar conjuntamente nesse campo nos países da África. Os países do BRIC rejeitam as políticas ambientalistas que consideram impostas pelos países mais ricos, mas estão dispostos a discutir seriamente políticas de desenvolvimento sustentável.

O que fazer com o dólar?
Uma das "grandes preocupações" do BRIC é o papel do dólar como moeda mundial de reserva, segundo explica o ministro brasileiro de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger. O tema é especialmente delicado e ninguém quer contribuir para episódios de volatilidade da moeda americana, especialmente a China, que tem grandes reservas em dólares e não deseja ver essa divisa desvalorizada. "Às vezes se compara o dólar ao antigo padrão ouro, mas não é certo, porque o dólar depende das políticas monetárias do governo dos EUA, e o que é preocupante é que essas políticas podem afetar o resto do mundo", diz Mangabeira.

Os quatro países admitem que o problema não poderá ser resolvido em curto prazo, embora o debate esteja claramente colocado: o BRIC busca um sistema alternativo ao dólar, mas não está disposto a aceitar a substituição dessa moeda pelo euro nem por qualquer sistema global que implique um banco no estilo do Banco Central Europeu. Isto é, não estão interessados em uma autoridade monetária global com poderes discricionários. Interessam-se mais por uma cesta de moedas de reserva ou um sistema de direitos especiais de giro, como os do FMI, mas com poderes muito limitados por parte do emissor.

Nesse caminho ganham especial significado acordos bilaterais como os assinados recentemente entre China e Brasil, para que o comércio entre os dois países não passe pelo dólar, mas se realize nas moedas nacionais, com um sistema de compensação mantido pelos dois bancos centrais. Um passo, considera-se no Brasil, para "a experimentação" e "as alternativas" que a nova ordem internacional deve permitir. A iniciativa foi recebida com muito interesse na Rússia.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    09h49

    -0,08
    3,138
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,39
    64.684,18
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host