UOL Notícias Internacional
 

16/06/2009

"Faz 10 mil anos que os indígenas nos mantemos em pé de guerra"

El País
Juan Jesús Aznárez Em Madri (Espanha)
A repressão policial aos indígenas que se rebelaram no Peru contra a privatização parcial da Amazônia começou em um helicóptero, continuou em terra e causou a morte de mais de cem indígenas, segundo a denúncia de Daysi Zapata, 38 anos. Essa mulher encabeça a rebelião desde que o xamã Alberto Pizango, 40 anos, da etnia shawi, pai de cinco filhos e professor escolar, recebeu asilo político na embaixada da Nicarágua, ao ser processado por acusações de homicídio, sedição e rebeldia.

O presidente do Peru, Alan García, defende os decretos de exploração de parte da Amazônia como necessários para promover o desenvolvimento nacional. Os rebelados contra sua implementação agiram com "selvageria e barbárie" e "procederam a degolar e ferir com lanças humildes policiais rendidos e sem armas", segundo o governo, que acusa os piqueteiros, armados de lanças, paus e machadinhas, de cortar estradas, bloquear instalações e sequestrar 38 policiais cujo resgate no dia 5 desencadeou uma violência sem precedentes.

Por telefone, de Lima, a dirigente indígena Daysi Zapata explica assim os fatos a este jornal [EL PAÍS]: "Só se fala nos policiais mortos [23] e em cinco indígenas, mas as coisas não são como se contaram. São mais de cem irmãos mortos". Ela afirma que a ministra do Interior, Mercedes Cabanillas, "trocou a polícia em Bagua e ordenou que os novos policiais metessem bala contra os irmãos, que se defenderam como puderam quando se viram provocados".

"Os irmãos awajunes [uma das 64 etnias peruanas] se enfurecem e se vingam quando você mata um deles", diz o dirigente Walter Kateguiri, colaborador de Zapata. Mãe de três filhos, notável da etnia yine, Daysi Zapata hoje preside a Associação Interétnica de Desenvolvimento da Selva Peruana (Aidesep), que reúne cerca de mil comunidades. "Jamais recuaremos nesta luta por nossos direitos e nossos territórios", salienta durante a conversa. E adverte que o cruento conflito peruano só entrará em vias de solução quando forem revogados todos os decretos que autorizam concessões petrolíferas, madeireiras ou de outro tipo. "O governo quer privatizar a selva para dar preferência às grandes transnacionais. Tudo para atender aos interesses estrangeiros, e vocês sabem muito bem que a selva é nossa mãe."

El País - Como tudo começou?
Daysi Zapata -
Com uma provocação. Durante muitos dias estiveram em Bagua policiais que conviveram com os irmãos indígenas, que conversaram com eles, dizendo aos policiais que tudo deve ser acertado de forma pacífica, sem violência. Os policiais entenderam, mas lamentavelmente este governo, com más manobras, quando esses decretos eram discutidos no Congresso, adiou a discussão. "Em outro momento", disseram. Isso já foi uma ferramenta para que os povos indígenas se enfurecessem.

EP - Mas enfurecer-se até esse extremo de violência...
Zapata -
É que nesse momento a ministra do Interior ordenou a troca de polícia para que fossem novos, e os novos, sem conversar com os irmãos, começaram a atacá-los. Foi a polícia que começou com tiros do ar, de helicópteros, contra os irmãos. Eles nunca provocaram.

EP - O governo afirma que não é assim, que vocês sequestraram policiais.
Zapata -
Isso é totalmente falso. Tão falso quanto que fazemos parte de uma conspiração internacional. Acredite-me, ao mandar a nova polícia para lá e ordenar que se meta bala, já estamos falando de genocídio.

EP - Fogo real desde o início?
Zapata -
Claro, primeiro do helicóptero. As pessoas reagiram e se mataram umas às outras. Fala-se só em cinco indígenas. E isso nos incomoda. Agora, com o toque de recolher, não se pode sequer entrar na área onde pensamos que haja mais mortos. Como é estratégico do governo dar esse toque de recolher para apagar essa responsabilidade!

EP - Quantos mortos vocês contabilizaram?
Zapata -
Fomos informados de que morreram cerca de cem indígenas. E isso não se diz. É preciso denunciar isso, senhor jornalista. Já foi encontrada uma fossa com muitos indígenas mortos. Falta gente nas comunidades, e lá estão passando listas e controlando para tirar uma relação exata de quantos indígenas estão na comunidade e quantos estão mortos.

EP - Quais são os planos da Aidesep?
Zapata -
Vamos continuar pedindo a revogação dos decretos legislativos e depois começaremos a dialogar com o governo para ver as necessidades dos indígenas em saúde, educação e terras. É isso que queremos. Também lamentamos que o Poder Legislativo continue enganando e evadindo-se de sua responsabilidade política e busque saídas que os povos indígenas entendem que são um engano.

EP - Sua luta tem futuro?
Zapata -
O governo diz que há 590 dias nós estamos em pé de guerra, mas no entanto nós dizemos que faz 10 mil anos que os indígenas nos mantemos em pé de guerra. Nossos avós enfrentaram os colonizadores e inclusive libertaram no século 17 toda a região da selva central. O século 19 significou a troca de uns colonizadores por outros. E hoje como ontem somos vítimas do saque e da rapina do governo de Alan García e sua tríplice aliança formada pelo Apra, a União Nacional e o Fujimorismo.

EP - Contam com apoios legislativos?
Zapata -
No ano passado conseguimos revogar dois decretos, graças aos legisladores que conhecem a realidade dos povos andinos e amazônicos. No entanto, tudo ficou ali. Este ano voltamos com uma plataforma de luta, para pedir a revogação dos decretos. Nem um passo atrás.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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