UOL Notícias Internacional
 

17/06/2009

Apesar de papel secundário, primeiras-damas impõem sua influência no governo

El País
Gabriela Cañas
Qual é a função da rainha da Espanha? E a da esposa do presidente da República Francesa? Qual é o papel da mulher do inquilino da Casa Branca? A resposta é simples: absolutamente nenhum. No mesmo momento em que seus maridos chegam ao cume, uma lei não-escrita condena suas mulheres a se transformar em suas sombras silenciosas. Michelle Obama ganhava como vice-presidente do hospital da Universidade de Chicago 240 mil euros por ano, o dobro que seu marido ganhava. Mas em janeiro, quando se dispôs a mudar-se para a Casa Branca, recebeu do outro lado do Atlântico um sábio e frustrante conselho: "Que aprenda a tomar gosto pelo banco de trás", disse Cherie Blair, a esposa do ex-primeiro-ministro do Reino Unido.

  • Jewel SAMAD/AFP

    Primeira-dama norte-americana, Michelle Obama, seleciona verduras do jardim da Casa Branca junto com uma turma de estudantes, nesta terça-feira

Então Michelle Obama já havia se definido como uma simples mãe de duas belas meninas, preocupada com o tipo de país que iria oferecer a suas filhas. A transferência para a Casa Branca pôs fim a seus eletrizantes comícios de campanha e a suas opiniões abertas sobre a política de seu país. No entanto, continua sendo o centro de todos os olhares e se desconfia que possa ter um papel importante. Antes dela desempenharam um papel relevante Eleanor Roosevelt, Danielle Mitterrand, Diana de Gales e outras mulheres que tiveram de combinar a discrição com o irresistível atrativo que produz uma mulher que pode participar do enorme poder de seu marido, como explica Carl Sferrazza Anthony, autor de um exaustivo trabalho sobre as esposas dos presidentes americanos.

Todas elas e mais algumas são mulheres que tiveram de reinventar seus personagens sobre uma base legal inexistente, que as priva de certa maneira de suas vidas anteriores, mas também de qualquer obrigação oficial e de qualquer tipo de remuneração. Na Espanha, diante do amplo papel que a Constituição concede ao rei, nada se diz sobre a rainha, exceto que pode se transformar em regente em determinadas circunstâncias.

Na França ocorre algo semelhante com a mulher do presidente da República, e no Reino Unido, com o marido da rainha, como pôde comprovar este jornal com os governos dos países citados. Os cônjuges dos primeiros-ministros ou presidentes de governo também não existem legalmente.

Só nos EUA se distingue um pouco, embora não reserve papel legal à primeira-dama nem tenha um estatuto especial para ela, se divulgam no site oficial da Casa Branca as biografias das 46 primeiras-damas que houve até hoje e registra-se a ordem de importância protocolar que devem receber inclusive as viúvas de ex-presidentes.

Foi esse país que cunhou o termo "primeira-dama" em 1860 e que exige das que chegam a essa posição que se transformem em mães e esposas exemplares para toda a sociedade. Mas também foi o que mais gerou primeiras-damas ativistas dos direitos humanos, da igualdade da mulher ou da reforma da saúde, embora a imprensa prefira gastar tinta sobre seus trajes e problemas sentimentais.

Na Europa as coisas não são muito diferentes. O molde é o mais tradicional possível. Como bem explicam o especialista em protocolo Pablo Batle e o diretor da Escola Diplomática, José Antonio Martínez de Villarreal, as esposas dos chefes de estado costumam desenvolver atividades paralelas no terreno da cultura, da beneficência e da cooperação para o desenvolvimento. Fora disso, o olhar da opinião pública é vigilante e estrito. Quando a ex-mulher do presidente da República Francesa, Cecilia Sarkozy, conseguiu que a Líbia libertasse cinco enfermeiras búlgaras em julho de 2007, um deputado socialista se perguntou sobre a legitimidade democrática da missão e os jornalistas exigiram as devidas explicações ao presidente sobre o papel "heterodoxo" exercido por sua esposa. Nicolas Sarkozy defendeu então o pragmatismo, mas acrescentou uma frase demolidora: "Tratava-se de um problema de mulheres, humanitário".

Com efeito, a tradição e o protocolo desenharam as estreitas margens do caminho dessas mulheres, venham elas da empresa, da advocacia, do jornalismo, da música, das finanças ou da diplomacia. E assim, com pequenos retoques a favor de seus gostos pessoais, todas se movem em terrenos parecidos. A rainha Sofia da Espanha se envolve em programas de combate às drogas e ao Alzheimer, e a princesa de Astúrias em atividades que tenham a ver com educação, mulheres e crianças, como explica a própria Casa do Rei, onde a rainha tem uma secretária própria, mas não a princesa.

Michelle Obama, como indica a Casa Branca, vai se dedicar a temas "próximos de seu coração", apoiando as famílias de militares ou ajudando a conciliação da vida profissional e pessoal das mulheres. Carla Bruni-Sarkozy, a atual esposa do presidente francês, foi nomeada embaixadora do Fundo Mundial contra a Aids, a Malária e a Tuberculose.

Em nível interno, todas costumam ter uma secretária particular que administra suas agendas sensíveis às suas inquietações pessoais, mas com grande estreiteza de olhar. No entanto, por mais que clamem os defensores da ortodoxia e das tradições, seus atos costumam ter repercussões extraordinárias. "Seu papel de relações-públicas é indiscutível", diz Batle. Elas podem influir muito positivamente na melhora das relações diplomáticas dos países, embora se exija que não interfiram na política de modo algum. Um difícil equilíbrio.

Nesse papel positivo de boas relações pode-se inscrever o encontro da princesa de Astúrias com Carla Bruni, que foi acompanhado de polêmicas fotos demasiado evidentes sobre a elegância e o porte das duas mulheres. Nesse papel se inscrevem as participações em funerais de chefe de estado em nome de seus maridos ou as visitas a museus e escolas. Mas não só isso.

Como Carla Bruni ou Letizia Ortiz, a aparência física da princesa Diana de Gales exerceu uma atração irresistível para a opinião pública mundial. Nem antes nem depois de seu divórcio do príncipe Charles Diana teve algum papel atribuído. No imaginário coletivo ficarão seus problemas sentimentais e seus modelos fascinantes. Mas a ela também se deve o extraordinário apoio que obteve madre Teresa de Calcutá e sobretudo parte do sucesso do Tratado de Ottawa, que em dezembro de 1997 conseguiu a proibição das minas antipessoais.

Danielle Mitterrand rompeu todos os moldes nos anos 1980. Além de não conviver no Eliseu com seu marido, foi uma lutadora incansável pelos direitos humanos, evitando convencionalismos graças a sua fundação France Libertés, que de alguma maneira lhe permitiu manter seu perfil inconformista e atrevido. A antiga agente de ligação durante a Resistência se encontrou com Fidel Castro para pedir a liberdade dos dissidentes, defendeu os saarianos contra Rabat, acusou o regime indonésio de uma campanha de terror em Timor Leste e até sofreu um atentado no Curdistão iraquiano.

Carla Bruni-Sarkozy, por sua vez, não abandonou sua carreira de modelo e cantora - o que já é um avanço -, e como primeira-dama de seu país não só embarcou contra a Aids. Em 18 de maio passado, pediu a libertação da líder da oposição em Mianmar, Aung San Suu Kyi (presa por uma nova acusação depois de anos de reclusão domiciliar), em uma carta aberta dirigida ao governo daquele país. "Aproveito a situação que tenho e a repercussão que minha carta possa produzir, transformando-me em porta-voz de todos aqueles que em meu país consideram intolerável a sorte reservada a essa mulher", dizia a carta. "Eu também enviei uma carta nos mesmos termos", diz o ministro francês das Relações Exteriores, Bernard Kouchner, "mas confesso uma coisa: tenho certeza de que em Mianmar foram mais sensíveis à mensagem de Carla Bruni do que à minha".

Danielle Mitterrand se negou a ser "a acompanhante do presidente", mas a verdade é que ainda hoje, no século 21, as esposas dos chefes de estado devem se limitar, como se estipula oficialmente, a ser meras acompanhantes de seus maridos. Expressar suas opiniões, como fez a rainha Sofia sobre os casamentos homossexuais por meio de um livro de Pilar Urbano, é algo fora da norma. O Partido Popular lembrou elegantemente à rainha seu dever de calar a boca, norma que figura em uma lei não-escrita. "Os membros da família real deveriam manter um princípio de neutralidade", disse o PP. "Não deixa de ser irônico que nestes tempos que correm de luta pela igualdade, as mulheres casadas com nossos líderes políticos tenham de esquecer suas ambições durante o mandato de seus maridos e guardar sua opinião para si mesmas", disse também a advogada Cherie Blair.

Sem dúvida, o papel de Blair foi incômodo. Se uma primeira-dama é permanentemente questionada, o que dizer das mulheres dos primeiros-ministros? Carmen Romero, Ana Botella e Sonsoles Espinosa declinaram falar de suas experiências na sede do governo para esta reportagem. É conhecido o esforço que algumas dessas mulheres fizeram para tentar passar despercebidas. É uma situação que muitos homens começaram a sofrer e que muitos mais sofrerão no futuro.

Neste momento, a nova geração de príncipes das casas reais européias é dominada por mulheres. Os futuros maridos das que serão rainhas da Espanha, Noruega, Holanda, Suécia e Bélgica terão poucos modelos em que se mirar. Um desses raros exemplos é o do príncipe Phillip, duque de Edimburgo, marido da rainha Elizabeth. O príncipe consorte acompanha sua esposa na maior parte de suas viagens, é almirante do exército, instituição com a qual mantém um firme compromisso, e além disso preside os Prêmios Duque de Edimburgo, um programa especialmente criado para jovens, e encabeça a organização naturalista World Wide Fund for Nature (WWF).

No nível seguinte, o executivo, a deserção dos consortes é ainda mais notória. A senadora Cristina Fernández de Kirchner costumava acompanhar seu marido em viagens quando este era presidente da Argentina. Agora que ela é a presidente, Néstor Kirchner optou por ficar em casa na maioria das vezes. Na Alemanha, o marido da chanceler Angela Merkel é conhecido como "o fantasma da ópera", porque só costuma acompanhá-la em público no festival de ópera de Bayreuth. Joachim Sauer é um professor de química que nem sequer foi ao Parlamento quando sua mulher foi proclamada chanceler. Incomoda-o demais exercer o papel de consorte, mas não pôde esquivar-se do de anfitrião com as primeiras-damas na comemoração em Berlim do 50º aniversário da União Européia.

Naquele dia, enquanto Angela Merkel conduzia os chefes de estado ou de governo (quase todos homens), Sauer passeava em uma marcha paralela, cercado de mulheres. Talvez no dia em que os dois cortejos forem realmente mistos desaparecerão as polêmicas dos consorte e também essa denominação de "primeira-dama", que Batle considera muito antiquada e rançosa.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    14h19

    -0,86
    3,130
    Outras moedas
  • Bovespa

    14h22

    1,09
    64.457,32
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host