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17/06/2009

As peças do quebra-cabeça: destroços do Air Bus apontam para falhas em sensores de velocidade

El País
Antonio Jiménez Barca Em Paris (França)
Alain Bouillard, diretor do Departamento de Investigações e Análises Aéreas, o organismo francês que se encarregará de determinar as causas do enigmático acidente do Airbus A330, descreve assim seu método de trabalho: "Agora recolhemos as peças de um quebra-cabeça; ainda nem sequer estamos juntando umas às outras". A precavida agência do governo francês talvez ainda não, mas no Brasil e na França outros organismos e outros peritos já começam a reunir os elementos de que dispõem: as mensagens automáticas enviadas pelo avião pouco antes ou enquanto se precipitava para o oceano, os cerca de 50 cadáveres recuperados e os restos do avião encontrados flutuando no mar em um raio de 70 km.

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E dá a impressão de que algo se encaixa. Indicam que o avião ou uma parte dele se desprendeu no ar, em pleno vôo, em meio a uma tempestade forte mas não incomum nessa zona da Terra denominada Caldeirão Negro, na qual o piloto penetrou sem saber exatamente em que velocidade voava.

Na quinta-feira passada o jornal francês "Le Figaro", que desde o primeiro momento afirmou que o avião se desintegrou no ar com seus 228 ocupantes, ofereceu uma minuciosa (e polêmica) reconstrução do que aconteceu entre 3h30 e 4h15 da madrugada de segunda-feira, 1° de junho. De outra maneira: desde que o piloto se comunicou pela última vez com uma estação brasileira por rádio, indicando que ingressava em uma área de turbulência, até que chegou ao computador central do aeroporto Charles de Gaulle em Paris a última das mensagens automáticas, informando que a cabine tomava uma "velocidade vertical", isto é, em direção ao mar, em um lugar situado a mil quilômetros da costa noroeste do Brasil.

As mensagens enviadas antes mostravam contradições nos valores enviado pelos sensores de velocidade do Airbus. Na opinião do "Le Figaro", aí se esconde o segredo. Os dois sensores semelhantes a pistolas que o Airbus tem presos à fuselagem, voltados na direção do voo, funcionavam mal porque a chuva ou o granizo haviam inutilizado seu mecanismo. "A drenagem dos sensores não estava bem medida. Todo mundo sabe que esse é seu ponto fraco", afirmou uma fonte especializada a esse jornal. Então o Airbus entrou no Caldeirão Negro, em plena ebulição, em plena tormenta, sem os sensores ajustados. Sem que os pilotos tivessem como saber exatamente em que velocidade conduziam essa aeronave, que em velocidade de cruzeiro se desloca a 1.000 km por hora.

Os especialistas acrescentam que pilotar um Airbus em velocidade inferior à recomendável pode fazer o avião simplesmente despencar. Por outro lado, atravessar uma tempestade em velocidade maior do que a devida obriga o aparelho a suportar pressões imensas: pode ocorrer um buraco na fuselagem ou um estouro em uma ou várias das janelas dos passageiros ou da cabine de comando. Em qualquer dos casos, a diferença brutal de pressão entre o ar interno e o externo provocaria uma desintegração automática da cabine ou de parte do avião em pleno voo. A última e definitiva mensagem - "cabine em velocidade vertical" - teria sido emitida precisamente nesse momento.

Tanto a companhia aérea Air France como a fabricante do avião, Airbus, negaram por enquanto a relação de causa e efeito entre a disfunção dos sensores de velocidade e a queda do avião. Mas a primeira advertiu esta semana que tinha previsto, mesmo antes do acidente, substituir todos os medidores, inclusive os desse voo AF447, Rio de Janeiro-Paris, mas explicou que os novos chegaram tarde demais para efetuar a troca.

O Departamento de Investigações e Análises, o precavido organismo dirigido por Bouillard, também insiste em que é cedo demais para tirar conclusões, que é necessário continuar procurando, que ainda não há nada que indique de forma definitiva que as medições erradas dos sensores causaram a ingovernabilidade do avião.

Contudo, há novas peças do quebra-cabeça que se encaixam na teoria do "Le Figaro". A análise da dezena de corpos já examinados pelos legistas brasileiros mostra que os cadáveres não apresentam queimaduras, segundo informa a imprensa brasileira. Isso descarta uma explosão em pleno voo. Mas não uma desintegração limpa de parte do avião. Os corpos flutuavam nus no oceano: isso demonstra que o vento arrancou suas roupas durante a queda do avião até o mar. As fraturas que os médicos verificaram são produto do impacto contra a água. Não há pulmões encharcados nem sinais de afogamento: as vítimas que se chocaram com o oceano já estavam mortas. A imensa área de busca, 70 quilômetros quadrados, e a enorme dispersão dos restos encontrados (partes da fuselagem, máscaras de oxigênio, almofadas) também reforçam a teoria de desintegração da aeronave: se ela tivesse se chocado inteira com o mar seus restos teriam aparecido um pouco mais próximos.

Mas todos os especialistas insistem que ainda faltam dados. Muitos deles se encontram a 6 mil metros de profundidade, na gravação guardada na caixa-preta. A única possibilidade de encontrá-la é escutar o cilindro prateado que leva acoplado e que emite um apito no meio do oceano. Um submarino nuclear francês equipado com um sonar ultramoderno rastreia a região, um tanto às cegas, confiando em seu ouvido. Na superfície ele é ajudado por outros barcos com sistemas parecidos. Não têm muito tempo. Em 1º de julho a bateria do dispositivo se esgotará e a caixa-preta estará perdida para sempre, guardando as peças que faltam do quebra-cabeça.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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