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18/06/2009

Divisão no clero iraniano: grandes aiatolás não cumprimentam Ahmadinejad por sua reeleição

El País
Ángeles Espinosa Em Teerã (Irã)
Em tempos de dúvida, os xiitas praticantes voltam-se para sua "marya", a figura religiosa que cada um escolhe como fonte de inspiração e exemplo. E a disputa pelo resultado eleitoral é um desses assuntos em que muitos iranianos buscaram conselho. O próprio candidato derrotado dirigiu uma carta aos grandes aiatolás de Qom para que se pronunciassem sobre o ocorrido. As respostas deles revelam que as divisões atingem a cúpula religiosa do Irã, o pilar da república islâmica. A maioria dos grandes aiatolás ainda não felicitou Ahmadinejad por sua reeleição, mas mantém silêncio sobre os protestos. Alguns deles os apoiam abertamente.

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"Nós seguimos o líder supremo e não nos metemos nesses assuntos", afirma o "hoyatoleslam" Mahdi Hasanzadeh, por telefone, de Qom. Hasanzadeh é membro do Ahl-ul-Bayt, a organização do grande aiatolá Ali Hosein Sistani, uma das fontes de imitação com maior número de seguidores em todo o mundo xiita, e embora seja iraniano de nascimento vive em Nayaf, Iraque.

Nayaf é o equivalente a um Vaticano xiita, mas a revolução islâmica iraniana e a ditadura de Saddam Hussein se aliaram para que o centro do poder religioso desse ramo do islã se transferisse para Qom. Hoje, depois da morte de Saddam, os clérigos das duas cidades concorrem para atrair os melhores estudantes. Essa rivalidade pode explicar a prudência de Hasanzadeh.

Embora outros porta-vozes tenham se negado a fazer comentários a um veículo da mídia estrangeira, os sites de vários maryas independentes revelam até que ponto os líderes religiosos estão divididos. "Para mim, o senhor é o potencial presidente e tem a responsabilidade de proteger os direitos da população", respondeu a Moussavi o grande aiatolá Bayat Zanjani. Em seu site (www.bayatzanjani.net), chega a afirmar que no passado foi testemunha de algumas infrações eleitorais, mas "é a primeira vez que atingem esta magnitude".

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Zanjani, que depois das revoltas estudantis de 1999 esteve preso, acusa o presidente e o governo de acreditar "que o fim justifica os meios, o que é contrário ao islã". Além disso, adverte sobre o risco de que "a república islâmica se transforme em um governo islâmico". Também condena o governo por "omitir-se sobre a lei e zombar dos manifestantes", por isso aprova que "os jovens continuem protestando de forma pacífica".

O dissidente Ali Montazeri fez inclusive um apelo a estes para que "reivindiquem seus direitos" pacificamente. Na opinião dele, a fraude eleitoral minou a legitimidade do sistema de governo islâmico e "ninguém em são juízo" pode aceitar o resultado. Esse grande aiatolá foi delfim de Khomeini, mas no último momento foi afastado da sucessão em favor do atual líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei.

Montazeri, que desde então permanece sob prisão domiciliar, divulgou sua mensagem através de um comunicado. "Um governo que se baseia na intervenção dos votos não tem legitimidade política nem religiosa", afirma.

Outra das grandes figuras religiosas para quem os reformistas iranianos costumam olhar é o grande aiatolá Yusef Saanei. Ele foi procurado pelos ativistas pelos direitos da mulher em busca de bênção antes de empreenderem a campanha do milhão de assinaturas. Saanei, um dos poucos que pronunciou uma "fatwa" clara condenando os atentados suicidas, anima Moussavi a continuar com sua causa "porque só dessa forma se podem proteger os direitos do povo" (www.saanei.org).

"Considero o senhor a melhor escolha para presidente e é uma pena que não pudesse ganhar as eleições", responde de forma um tanto oblíqua o candidato perdedor. Contudo, respalda suas ações. "O senhor é responsável por proteger os votos da população, e por isso deve informá-la e seguir com esse objetivo", afirma.

Para o grande aiatolá Ali Mohamed Dastgheb, Moussavi "foi a melhor opção nas eleições". Mesmo assim, explica que não espera que todos os seus seguidores tenham a mesma opinião. "Não estou arrependido nem triste nem envergonhado por tê-lo apoiado", confessa em sua resposta a um fiel.


Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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