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21/06/2009

Empresas de telessexo se instalam no Marrocos para baixar os custos

El País
Por Ignacio Cembrero Casablanca (Marrocos)
"Seu mamilo aparece através da camiseta?" Henri, um francês cinquentão residente em Lyon, mandou esse SMS para um número de celular pelo preço de um euro. Sua destinatária é uma morena atraente que acabou de enviar sua fotografia para ele, através de um MMS, na qual ela aparece com uma roupa branca justa. Henri entra então num bate-papo erótico, por meio de mensagens curtas tecladas em seu telefone, com quem ele acredita ser uma compatriota de 32 anos, chamada Sylvie, que mora perto de sua cidade.

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    Mapa mostra onde fica localizada a central de
    telessexo, que atende clientes da França

Mas Sylvie não existe do outro lado do telefone, ou, melhor dizendo, do outro lado do teclado do computador. Quem estimula as fantasias de Henri é um rapaz marroquino de 22 anos, Reda, contratado como teleoperador erótico em Casablanca, [Marrocos]. Junto a ele, outras dezenas de jovens - homens e mulheres - de sua idade mantêm conversas semelhantes com clientes na França e Bélgica.

A redução dos preços da telecomunicações e os salários baixos no Marrocos incitaram as empresas que oferecem serviços telefônicos - informações sobre números, televendas etc. - a transferirem para o país as suas operadoras no começo dessa década. Assim, elas reduziam seus custos de 30 a 40%, segundo fontes do setor.

Primeiro desembarcaram as gigantes francesas do setor. Depois as espanholas Atento e Grupo Konect se instalaram no país, abrindo sedes em Tanger, Tetuan e Casablanca. Agora há cerca de 140 operadoras no Marrocos, que geram 25 mil empregos.

Há alguns anos chegaram da França com sigilo outras empresas do setor especializadas no que os franceses chamam de "messagerie rose"
[serviço de mensagens rosa]. Elas se registraram como centros de serviços telefônicos, mas não especificaram que se dedicam à mensagens eróticas. Não foi fácil recrutar funcionários num país muçulmano no qual não podiam anunciar nos jornais.

"Fiquei sabendo pelo boca a boca", lembra-se Reda, estudante de ciências econômicas, que há dois anos foi contratado por uma dessas companhias. "Eles me ofereceram fazer um teste para um emprego de telecomunicações culturais, mas ficou claro que só se tratava de falar de sexo", continua.

"Ainda que agora nossos serviços se ampliaram para a astrologia e vidência via SMS".

Reda, um rapaz forte e jovial, e Samira, uma esquálida estudante de farmácia de 23 anos, são os únicos teleoperadores que aceitaram falar com a reportagem, sob condição de que seus verdadeiros nomes e o nome da empresa não fossem publicados. Não é em vão que os contratos que eles assinaram proíbem divulgar o conteúdo de seu trabalho, que seus pais também ignoram. "Eu não contei nem para minhas melhores amigas", assegura Samira. "Fico com vergonha".

"Para o teleoperador o trabalho é parecido com o messenger", explica Reda. "Há garotas, e alguns rapazes, virtuais, com um perfil predeterminado que inclui nome, idade, lugar de residência, medidas corporais e, é claro, fotos de pessoas atraentes, mas não muito bonitas, para serem verossímeis", acrescenta. "Os clientes se dirigem a eles e nós respondemos como se estivéssemos em sua pele".

"Temos que enviar no mínimo 150 SMS curtos por hora", excitando sua libido "e obter em troca a maior taxa de resposta - nunca supera 90% -, estender a conversa e fazer com que eles peçam, por exemplo, para receber vídeos no celular nos quais a interlocutora faz um strip-tease" pelo preço de três euros a unidade, conta Reda.

"Os clientes são de todo tipo, em sua maioria homens frustrados ou imaturos que buscam sexo virtual, mas às vezes também carinho", explica Samira. "Há também gays e algumas poucas mulheres que, com frequência, se sentem sozinhas", prossegue. "Elas são as únicas que preferem se conectar à nossa sala 'soft' para ter conversas menos selvagens".

"Muitos clientes acabam pedindo o número de celular para ter um contato mais direto e há alguns que ficam tão apaixonados que acabam se declarando à garota virtual", diz Samira. "Então minha consciência pesa mais ainda por fazer esse trabalho", reconhece.

Garotas e rapazes da operadora atendem indistintamente a usuários de ambos os sexos, "ainda que quase todos preferimos atender aos homens porque são mais fáceis de 'esquentar'", diz Reda. Eles fazem turnos de no máximo oito horas por dia e quando um termina o expediente "é substituído por outro companheiro para o cliente ardoroso".

No dúplex de Casablanca onde a operadora está instalada trabalham cerca de 150 jovens teleoperadores, dos quais só um terço são mulheres, mas não costuma haver mais de 25 funcionários trabalhando ao mesmo tempo. Eles respondem aos SMS 24 horas por dia e sete dias por semana sob a supervisão de chefes franceses. Em Casablanca, revelam Reda e Samira, há outros dois centros menores de mensagens eróticas.

A empresa paga a seus operadores o equivalente a 1,9 euros por hora diurna e 2,55 por hora noturna. Um funcionário que trabalhe 40 horas semanais ultrapassa os 330 euros por mês, um terço do que ganharia na França. Os salários de Reda, entretanto, giram em torno dos 500 euros.
"Eu me recuperei com os novos produtos, vidência e astrologia, que são melhor remunerados", explica.

Reda mora com seus pais, numa família abastada. "Trabalho para ser independente", assegura. Samira não é de Casablanca e mora numa pensão. Não tem bolsa e vive à custa de seus pais.

"Trabalho para não custar tanto para eles e poder gastar um pouco mais", confessa como se se desculpasse.

Como as jovens encaram esse trabalho num país muçulmano? "Para a maioria é uma mera fonte de renda e entre nós há até mesmo algumas que usam hijab [lenço islâmico]", responde Samira. "Também há uma ou outra que não aguentou e largou o trabalho", diz ela. "Durante o intervalo, na operadora, às vezes comentamos entre nós as ocorrências com os clientes, mas fora não revelamos nada sobre o nosso trabalho."

Tradução: Eloise De Vylder

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