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24/06/2009

Ciberpredador obrigava meninas a se despir com chantagem virtual

El País
Jesús Duva
Dezoito horas diárias diante do computador em busca de presas de 15 anos. Como um predador, Jorge rastreava a Internet de forma obsessiva, inclusive às 5 da madrugada, seguindo as pegadas de meninas entre 12 e 17 anos. E quando descobria uma delas, lançava seu ataque como uma pantera, apesar de basicamente encobrir seu golpe escondendo-se sob a aparência de uma adolescente, com nomes tão melosos quanto "Torrãozinho de Açúcar" ou "Menina Gulosa". Assim conseguiu enganar durante os últimos seis meses pelo menos 250 jovens que sofreram seu assédio implacável e impiedoso.

"Se você não ceder aos meus desejos", lhes dizia o ciberpredador, "a deixarei isolada, desligada de todos os seus amigos, divulgarei todos os seus segredos e mandarei essas coisas para toda a sua lista de correio eletrônico." "Essas coisas" eram as fotos íntimas - nuas ou seminuas - arrebatadas das vítimas através de engodos ou da mais cruel e abjeta coação.

Há alguns dias a Brigada de Investigação Tecnológica (BIT) da polícia [espanhola] deteve Jorge M.C., um estudante de informática de 23 anos, acusado de submeter centenas de adolescentes a um assédio que levou mais de uma delas à beira do suicídio.

O suposto assediador já tinha sido preso antes, em outubro de 2008, como suposto autor de coações contra uma jovem de Madri que sofreu uma autêntica investida informática. Nessa ocasião os agentes encontraram em sua casa em Chipiona (Cádiz) um computador de mesa e dois portáteis. "Os discos rígidos estavam lotados, continham milhares de fotografias de meninas", lembra um inspetor.

O juiz do caso deixou em liberdade provisória o detido, que sem perda de tempo retomou sua mania. Apenas duas semanas depois já foi detectado tentando encurralar mais adolescentes. Nem todas eram novas: entre elas havia três de Sevilha e uma de Toledo que ele já tinha cercado antes.

A polícia continuou suas investigações a partir do material apreendido na casa de Jorge. Ele guardava tudo e abria uma pasta para cada uma de suas vítimas, para saber exatamente quem era. Nessa pasta aparecia sua identidade, sua residência, seu número de telefone, as senhas de suas contas de e-mail e a lista de todos os seus amigos ou pessoas com quem havia feito contato, fotos, vídeos etc. Isso permitiu que a polícia seguisse o rastro de todas as suas expedições em busca de novas presas.

Mas como havia conseguido reunir tanta informação? Jorge era um incansável buscador de adolescentes na rede. Dedicava horas a explorar páginas como sexyono.com ou votamicuerpo.com, nas quais centenas de jovens publicam suas fotos insinuantes para que os cibernautas votem na mais sensual; e outras redes sociais como netlog.com, fotolog.com e outras em que há um tráfego contínuo de mensagens. São fóruns de contato que atuam como "uma espécie de enorme pátio de colégio virtual", explica o inspetor chefe Enrique Rodríguez. "Esses sites são os preferidos dos tubarões e dos pedófilos que pululam na Internet."

Localizada uma garota que combinasse com seus desejos libidinosos, o ciberpredador lhe enviava uma mensagem - fazendo-se passar por uma adolescente - na qual lhe pedia seu endereço de correio eletrônico para poder manter uma conversa mais privada através do programa Messenger. Esse sistema, no qual estão inscritos milhões de adolescentes, permite que vejam se seus amigos estão conectados, enviar mensagens instantâneas, trocar imagens e arquivos, manter uma comunicação simultânea com várias pessoas e conversas com vídeo usando uma webcam.

"Olá, sou Esperança. Como vai?" "Oi, amiga! Como foi de férias?"

"Esperança" não era Esperança, mas Jorge. Assim, fazendo-se passar por uma garota e colocando a imagem de uma delas como se fosse sua, infundia mais confiança em suas vítimas. E estas, ingênuas, pouco a pouco iam mordendo o anzol.

O fustigador, um especialista em informática, costumava colocar no computador de suas presas um vírus "cavalo-de-troia" que obtinha os dados do disco rígido, o que lhe permitia ter acesso a todas as mensagens, textos e fotos que a adolescente tivesse gravados. Com essa informação em seu poder, sabia como dominá-la e submetê-la a um controle rígido.

"Gostaria que você me enviasse uma foto em que mostrasse o peitinho..."

"O que está dizendo? Não tenho coragem..."

"Sei que você tem alguma foto assim. Por que não passa para mim?"

"Como você sabe disso? É que eu tenho vergonha."

"Vamos, garota... faça uma coisa: pendure a foto em seu avatar [um quadrinho que é associado à identificação de um usuário na web]. Vamos... só um minuto e você tira..."

Quando a vítima concordava em colocar essa foto comprometedora, Jorge a capturava imediatamente e a partir daí começava sua chantagem agonizante:

"Você tem de me passar uma foto sua de lingerie."

"Você é lésbica?", perguntava a vítima, desconcertada.

"É que me dá muito tesão..."

"Não, não tenho coragem."

"Pois se não fizer isso mandarei para toda a sua lista de correio essa foto em que você mostra suas coisinhas. E além disso tiro o seu Messenger..."

Para demonstrar seu poder, o predador fazia um teste: pedia que a garota não tocasse em seu computador e assim poderia ver como o mouse se movia conforme a vontade dele, para cima e para baixo, manipulado à distância graças a um cavalo-de-troia introduzido no de disco rígido da vítima.

Diante das terríveis ameaças, a menina concordava com os caprichos do chantageador anônimo, que assim conseguia que se despisse e inclusive se masturbasse diante da webcam. Uma jovem que se negou a satisfazer seus caprichos chegou no dia seguinte ao colégio e comprovou aterrorizada que sua foto seminua tinha chegado misteriosamente a todos os seus amigos. Outra, que sofreu um ataque impiedoso durante meses, foi punida com a difusão de um vídeo delas através de rapidshare.com, em que aparece se masturbando.

Uma garota foi captada pelo predador ao ver uma foto sua vestida de colegial com uma saia xadrez. Foi torturada até o esgotamento para que aos poucos lhe desse imagens cada vez mais picantes.

"Quero que você fique nua para mim. Senão, já sabe o que vai acontecer..."

A garota afinal cedeu: se despiu com o rosto crispado de terror e chorando inconsolável durante uma cena de três minutos.

"Você é uma menina patética. Deixa o colégio porque é xingada. Chora o dia todo. Compre uns peitos", cuspiu o assediador no Messenger.

Era sádico e cruel com as adolescentes que se negavam a seus caprichos. Por exemplo, uma conversa mantida com uma garota às 5h30 da manhã, na qual ela se recusa a ceder à chantagem: "Vou colocar suas coisinhas no eMule. Foda-se, cadela. Vou contar até dez e você está fora do Messenger".

E o diálogo posterior com a vítima é angustiante e assustador por sua frieza:

"Dez... Nove... Oito..."

Terminada a contagem regressiva, Jorge invadiu o computador da garota com um arquivo que continha uma revoada de milhares de figuras de morcegos, o que provocou o colapso total de seu sistema operacional.

A recente detenção de Jorge M. C. representou a libertação de suas 250 jovens prisioneiras. A Brigada Tecnológica já identificou e tomou o depoimento de 170. As 80 restantes talvez ainda ignorem quem era o sujeito que as assediava e torturava. Mas com certeza em seu computador não se voltou a sentir o hálito nauseabundo de Jonyxulo nem de Miguel20cm (duas das 12 personalidades cibernéticas que ele costumava utilizar).

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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