UOL Notícias Internacional
 

24/06/2009

Ianomâmi adverte que violência vivida por índios no Peru pode acontecer no Brasil

El País
Joseba Elola
Terraço do restaurante da Casa da América em Madri, no início de junho. Davi Kopenawa tira de um saco plástico uma espécie de bola preta que coloca sob seu lábio superior. É a hora de mascar tabaco. "Não queremos dar nossa terra aos brancos porque os brancos já têm muita terra", ele diz. "Nós somos os que a protegemos, as pessoas da cidade cortam árvores. O homem branco ama o dinheiro, o avião, o carro. Nós pensamos diferente." Kopenawa se reclina na cadeira. Usa pintura vermelha no rosto, cocar de plumas, colar. Veste camisa, jeans e tênis esportivos. Calcula que nasceu por volta de 1956.

  • Ormuzd Alves/Folha Imagem

    Davi Kopenawa (centro), índio ianomâmi, em Roraima, em foto de 1993

Davi Kopenawa está lutando para que no Brasil não haja revoltas como as que sacudiram o Peru. Há duas semanas visitou Madri, pouco antes que chegassem as primeiras notícias dos levantes em Bagua, que causaram a morte de 24 policiais -- e de nove ou cem indígenas, segundo as diversas fontes. Encontra-se em um viagem pela Europa defendendo a causa de seu povo, os ianomâmis. Depois da erupção do conflito no Peru, usa o correio eletrônico para opinar sobre esse fato: "O que estão fazendo com os índios [no Peru] lá é um crime. Nós sofremos o mesmo problema com brancos que vêm por nossos recursos naturais".

Parlamento do Peru revoga leis que causaram protestos indígenas

O Congresso do Peru revogou, no último dia 18, os decretos legislativos 1090 e 1064, que estabeleciam normas para a exploração de recursos naturais e causaram uma série de protestos indígenas na região amazônica do país

O projeto de lei 1610/96 sobre mineração nas terras indígenas, ainda em discussão no Congresso brasileiro, poderá abrir a porta para a mineração em grande escala em território ianomâmi. Pode significar que estradas cortarão as terras de seus ancestrais. "No Peru o governo mandou o exército matar os índios. No Brasil são os invasores que matam os índios, mas as autoridades também têm culpa por deixá-los entrar." Ele se refere aos garimpeiros, os caçadores de ouro. Diz que há em torno de 3 mil garimpando ilegalmente no chamado Parque Ianomâmi, na Amazônia.

Há mais de 25 anos Kopenawa é o porta-voz dos ianomâmis, seu embaixador. Durante o encontro em Madri insistiu em que não é um líder, mas apenas mais um ianomâmi. Atua como xamã, ou seja, guia espiritual-médico-psicólogo de sua comunidade, Watoriki (a montanha do vento), composta por cerca de 150 pessoas. "Para o homem branco é difícil ser feliz", afirma. "Tem uma raiz muito grande na cidade, não pode mudar. Está enlouquecido com a terra, sempre quer tirar cada vez mais para que a cidade cresça; só pensa no solo: petróleo, ouro, minerais, estradas, carros, trens."

Os ianomâmis lutam há anos para preservar seu modo de vida. Caçam com arco e flecha, pescam com um elemento que atordoa os peixes, cultivam na selva. São nômades: a cada dois ou três anos, quando a terra se esgota, se transferem. Em 1991 conseguiram que o presidente Fernando Collor de Mello criasse o Parque Ianomâmi, uma superfície igual ao dobro da Suíça (9,6 milhões de hectares) para que essa comunidade de 16 mil habitantes pudesse viver em paz. Concederam-lhes o direito de utilizar a área, mas os direitos sobre os minérios pertencem ao Estado. Os garimpeiros que trabalham ilegalmente em seus territórios contaminam os rios com mercúrio e lhes transmitem doenças mortais.

Kopenawa caça antas e javalis com arco e flecha. É casado, tem seis filhos e dois netos. Vive três meses na selva e três em Boa Vista, uma das aglomerações urbanas do norte do Brasil. Quando está na cidade, mora nos escritórios da Hutukara, a ONG que ele fundou em 2004 para defender os direitos de seu povo. Não gosta muito de sair de casa. "Nunca saio à noite, há pessoas ruins na rua", explica. Se sai de dia, só vai a lugares aonde possa chegar a pé. A coisa muda quando está em sua aldeia: "Lá o céu é sempre limpo, belo, cheio de estrelas. O que eu mais gosto é de olhar para a selva".

A primeira vez que viu um branco tinha 5 anos. "Senti medo, pensei que era mau porque usava cabelo comprido, barba e sapatos, como eu agora!", lembra e ri. Fala em um português que soa nasal e profundo.

Não conheceu seu pai. Sua mãe morreu de sarampo quando ele tinha 10 anos. Aos 12 contraiu tuberculose e se transformou no primeiro ianomâmi que pisou em Manaus, capital amazônica; passou um ano em um hospital. Foi ali que aprendeu a falar português.

Dois anos depois, funcionários da Fundação Nacional do Índio (Funai) o escolheram para que servisse de intérprete em visitas às comunidades indígenas. No dia em que viu um coordenador da Funai expulsando um branco da selva por caçar felinos em território ianomâmi, viu a luz: era possível expulsar os invasores. A chegada de milhares de garimpeiros em meados dos anos 1980 o fez decidir lançar sua luta pela terra: 20% dos ianomâmis desapareceram naquela década em consequência de doenças levadas pelo homem branco. Assim começou sua trajetória, que o levou a representar os povos indígenas da Amazônia diante da ONU e a conhecer líderes como Al Gore e o príncipe Charles, ou estrelas da música como Sting. "Os famosos não resolvem nada", diz em tom firme e decidido. "Escutam, apoiam, mas se consegue mais na ONU."

Kopenawa tira do bolso listrado um estojo preto e o abre. Olha fixamente para a medalha prateada que há nele: é a menção honrosa do prêmio Bartolomé de las Casas que lhe concedeu a Secretaria de Estado de Cooperação Internacional e a Casa da América, motivo que o trouxe pela primeira vez a Madri. Não consegue afastar o olhar do metal.

Por que olha tanto para a medalha? "Recebê-la é importante porque faz que as pessoas conheçam minha luta. Mas Omame [o criador] não permite que se extraiam metais da terra. A terra é um lugar sagrado e protegido."

Minérios. O projeto de lei do governo brasileiro pode abrir a porta para a exploração mineral. "A mineração vai levar a nossas terras pessoas que matam índios, que levam bebidas alcoólicas e doenças da cidade. Vai trazer estradas, contaminação."

Kopenawa tem consciência de que hoje seu povo precisa de telefone e da Internet para a luta. Mas também não quer que todos os jovens ianomâmis aprendam a manejá-los. "Basta que alguns aprendam, 20 ou 30 pessoas. Temos de ir aos poucos. Se não, muitos vão querer ficar na cidade e não voltar."

Afirma que a terra não tem preço, não se compra nem se vende. "O homem branco nunca está tranquilo", analisa. "Está sempre preocupado buscando dinheiro para pagar a casa." E o homem ianomâmi? "O homem ianomâmi pensa em estar tranquilo, sem preocupação, e em não passar fome."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,48
    3,144
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,53
    75.604,34
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host