UOL Notícias Internacional
 

25/06/2009

"Só temos um problema: a Rússia", diz presidente da Geórgia

El País
Georgina Higueras
Enviada especial a Signagi
O cenário é tão surrealista que parece um filme de Buñuel. No meio do campo, uma câmera de três metros de altura, refletores e um semicírculo de cerca de 20 agricultores - homens à direita, mulheres à esquerda - cada um com seu microfone.

A toda velocidade aproxima-se pelo caminho de terra uma caravana de Mercedes e veículos todo-terreno blindados, da qual descem guarda-costas fortemente armados e o presidente Mikhail Saakashvili. Ele veste uma camisa branca desabotoada e calças de algodão azul. Ocupa o centro do grupo e incentiva os viticultores a plantar Cabernet "porque produz um vinho muito procurado na Suécia e na Noruega" e a estabilizar a produção para concorrer no mercado internacional.

Um dos agricultores lhe conta que são mil famílias no povoado de Napareuli e só têm dois tratores. O presidente lhes promete que "terão mais no outono", além de subsídios para o cultivo e outras demandas. Os 15 minutos de show terminam e a caravana voa para outro encontro fortuito antes de tomar um helicóptero para Signagi, cidade no leste da Geórgia escolhida por Saakashvili para se encontrar com "El País" e outros jornalistas europeus. O presidente quer mostrar o potencial turístico desse lugar, no qual financiou a construção de um museu, inaugurado no ano passado e que hoje exibe gravuras de Picasso. A entrevista se realiza durante um almoço com iguarias da cozinha georgiana e seus vinhos. Abaixo, um trecho dela.

El País - Caso o relatório que está sendo elaborado por uma comissão independente sobre a guerra de agosto passado concluir que foi sua responsabilidade, o senhor renunciará?

Mikhail Saakashvili -
Renunciar? Nunca. Além disso, nenhuma investigação concluirá que agi mal. A Ossétia do Sul é nosso território. Não entramos lá, já estávamos. Alguns idiotas dizem que nós começamos a guerra, sem levar em conta que enfrentávamos uma invasão russa. A única coisa que lamento é não termos nos mobilizado antes.

EP - A recuperação tanto da Ossétia do Sul como da Abcázia parece mais difícil depois da guerra e o reconhecimento como estados independentes por parte da Rússia.

Saakashvili -
Ficou claro que era o que pretendiam desde o momento em que se declarou a independência de Kosovo. Isso se chama ocupação e limpeza étnica.

EP - Desde 9 de abril passado, a oposição se manifesta todas as tardes e interrompeu a principal avenida de Tbilisi para exigir que o senhor saia ou pelo menos convoque eleições legislativas...

Saakashvili -
É uma boa vacina para a tradicional doença da Geórgia de manifestações, protestos e mudança de governo. Não vou dar à Rússia o gosto de acabar comigo. Não haverá eleições além das locais. Tenho 60% de popularidade e todo o apoio internacional. Por que vou realizar eleições se há governos na Europa com apoio de 20%?

EP - A Rússia vetou na terça-feira passada no Conselho de Segurança da ONU a proposta de extensão da missão de observadores na Abcázia. O senhor acredita que a saída deles poderia ter sido evitada?

Saakashvili -
A Rússia bombardeou nossas cidades durante anos e já era hora de que o Ocidente dissesse "Basta!" Acabaram-se os compromissos com a Rússia. Não é que eu esteja contente com o fim da missão da ONU, mas era muito fraca.

EP - Está satisfeito com o apoio que recebe do Ocidente?

Saakashvili -
Repeti inúmeras vezes o perigo das provocações da Rússia e ninguém quis me ouvir. Embora tarde, finalmente o apoio chegou. Estou muito contente porque estamos estabelecendo uma associação política com a Otan e com a União Européia. Com os EUA preparamos o estabelecimento de uma aliança estratégica.

EP - Tbilisi tem uma avenida com o nome e um retrato de George Bush e o senhor o tratava como amigo. Como é a relação com Obama?

Saakashvili -
Bush fez coisas muito boas por esta parte do mundo. Com o governo Obama mantemos muito boas relações, mas não o conheço pessoalmente.

EP - Depois da Revolução das Rosas (2003), pela qual o senhor chegou ao poder, se comprometeu a democratizar a Geórgia...

Saakashvili -
Nosso sistema democrático é o melhor da região e fizemos uma reforma muito dolorosa para o país, na qual terminamos com a corrupção. Os chefes estão presos, ou na Rússia. Além disso, com especialistas da UE, estamos treinando a polícia, embora às vezes ela exagere e agrida. (Centenas de manifestantes, além de jornalistas e dos assistentes do Ministério Público, estão sendo detidos e brutalmente espancados desde que começaram os protestos.)

EP - A guerra conteve o investimento estrangeiro na Geórgia e o desemprego disparou. O que o senhor faz contra a crise?

Saakashvili -
Estabilizamos o país e oferecemos à UE a alternativa ao monopólio do gás russo. Através de nosso território podemos fazer chegar à Europa o gás da Ásia Central e do Cáspio. Quando ficar claro que não haverá mais guerras, os investidores voltarão. Enquanto isso, tentamos potencializar a Geórgia como destino turístico. Em menos de três anos vamos fazer de Batumi a Barcelona do mar Negro. Para isso, trouxemos arquitetos e construtores espanhóis.

EP - Que problemas a Geórgia enfrenta hoje?

Saakashvili -
Na esfera internacional só temos um problema: a Rússia. Internamente, me preocupa mais a oposição do Parlamento (não preenche os assentos por discordar dos resultados eleitorais) do que os protestos na rua.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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