UOL Notícias Internacional
 

26/06/2009

Obama aposta sua credibilidade na reforma da saúde

El País
Antonio Caño Em Washington (EUA)
Barack Obama passou na quarta-feira uma hora e meia na televisão, no horário nobre, respondendo às dúvidas do público sobre seus planos de reforma da saúde. Foi a sessão mais longa de perguntas e respostas a que se submeteu desde que assumiu a presidência. Nenhum outro assunto, internacional ou doméstico, consumiu até agora tanto de seu tempo.

  • Kevin Lamarque/Reuters

    Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, se reúne com governadores para discutir o plano de reforma do sistema de saúde norte-americano, em 24 de junho

Obama teve diversas reuniões sobre temas de saúde com congressistas. Viajou para meia dúzia de países para promover seu projeto. Falou com médicos, companhias de seguro, pacientes... Sem dúvida, fez mais que nenhum outro presidente. Apesar de tudo, o conteúdo da reforma da saúde, que ele se comprometeu a implementar este ano, ainda é um grande mistério e seu futuro, uma incógnita.

A reforma da saúde é desses projetos gigantescos que todos os presidentes americanos se propõem e nenhum consegue. Existe um pensamento geral nos EUA de que o sistema é um desastre: mais de 40 milhões de pessoas estão sem seguro-saúde, o sistema gasta o dobro de qualquer um da Europa sem prestar aos pacientes sequer a metade da assistência.

Obama declarou que a situação é crítica e não permite mais demoras, pôs toda a sua credibilidade nesse assunto e hipotecou uma boa parte de suas possibilidades de reeleição. Daí o risco que representa para ele neste momento a incerteza sobre o resultado dessa aposta.

Os cidadãos querem um novo regime de saúde, como demonstram todas as pesquisas de maneira contundente. Mas ao mesmo tempo estão aterrorizados diante do desconhecido. A perspectiva de uma intervenção maciça do Estado no sistema, o alto preço da operação - mais de US$ 1 bilhão - e a perspectiva de que isso acabe elevando fortemente os impostos causam receio entre a opinião pública.

O acesso à saúde como opção individual, voluntária e nas condições em que cada um desejar é algo mais que uma das características do sistema de saúde dos EUA - é o selo de identidade de uma cultura nacional. Dessa forma, o espectro da socialização da saúde, que os conservadores e alguns setores interessados da indústria mostraram desde o primeiro dia, causou preocupação nos americanos.

Consciente dessa resistência e consequente com seu estilo em outros campos, Obama tentou fazer as coisas a meio caminho: nem assumiu o princípio progressista de que o Estado assuma o pleno controle do sistema, nem aceitou a ideia liberal-conservadora de criar condições para que o mercado ajuste a desordem atual.

O projeto de Obama contempla um sistema público de saúde em convivência (ou em concorrência, segundo entendem outros) com o sistema privado. O presidente entende que dessa forma se poderá garantir a cobertura quase universal - ao atender a desempregados ou trabalhadores autônomos que não podem enfrentar os custos de um seguro - sem obrigar ninguém a renunciar ao seguros que tem atualmente. A oposição considera que isto levará à ruína as seguradoras privadas e deixará sem cobertura muito mais pessoas do que há hoje.

Obviamente, todo esse grande debate é intercalado de meias verdade e intenções mesquinhas. As eleições legislativas de 2010 estão logo depois da esquina e muitos congressistas sabem que seu cargo depende do voto que derem nessa reforma. Os democratas conservadores resistem a aceitar a ideia de um sistema público de saúde e pediram ao presidente que procure outros caminhos.

Obama confessou na terça-feira em uma entrevista coletiva que está aberto a essa possibilidade, sempre que esses caminhos garantam a ampliação da cobertura e a redução dos custos totais.

Os republicanos não têm atualmente força política suficiente para torcer a vontade do presidente e dos democratas. Mas antes é preciso ver qual é o projeto que entrará em votação, talvez antes do final do verão. Pode ser o final de Obama ou o começo de sua lenda.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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